Mundo
26/05/2008 - 02h32

Para Pastrana, ascensão de Alfonso Cano abre chance para negociação

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FABIANO MAISONNAVE
da Folha de S Paulo, em Caracas

Antecessor de Álvaro Uribe, o ex-presidente conservador Andrés Pastrana (1998-2002), 53, foi quem negociou com os EUA o chamado Plano Colômbia, financiamento considerado essencial para a atual política linha-dura contra as Farc. Mas a grande marca do seu governo foi a fracassada tentativa de negociar a paz com a guerrilha dentro de uma área desmilitarizada de 42 mil km2. Leia, a seguir, a entrevista concedida à Folha ontem, por telefone:

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FOLHA - Qual é a importância da morte de Marulanda?

ANDRÉS PASTRANA - Para os colombianos, morre um mito que, durante 44 anos, foi comandante das Farc. Mas isso não significa que as Farc tenham terminado. As Farc continuam sob o comando de Alfonso Cano, e isso abre uma possibilidade. Os que conhecem as Farc têm dito sempre que Cano era a ala política, e não a ala militar, o que pode implicar a existência no interior uma mudança para que possamos chegar a uma solução política e negociada desse conflito.

É preciso ressaltar duas coisas: em nosso governo, as Farc pela primeira vez na história tomam a decisão, em maio de 1999, de assinar um documento pelo qual se iniciou uma negociação, e não de diálogo. Esse documento assinamos Marulanda e eu. Foi um passo muito importante.

Em segundo lugar, se você me pergunta a que se deve o fracasso no processo de paz no meu governo, eu diria que se deveu em boa parte a uma divisão no interior das Farc com relação ao tema da paz. Os "militares" sustentavam que a guerra deveria continuar, e a ala política, que se deveria negociar. A linha de Cano perdeu, e a linha de Mono Jojoy [chefe militar da guerrilha] ganhou. Hoje, com o nomeação de Cano como chefe das Farc, pode haver uma mudança.

FOLHA - Na época do diálogo, havia diferenças entre Cano e Marulanda?

PASTRANA - Cano esteve muito alheio a esse processo. É curioso que Cano não foi nomeado representante para esse processo. Os que mais estiveram conosco foram Raúl Reyes, Joaquín Gómez [sucessor de Reyes no secretariado] e outro grupo de pessoas.

FOLHA - Com base seu contato com Marulanda, como o definiria?

PASTRANA - Muita gente tinha a impressão de que Marulanda simplesmente era um camponês. Não, Marulanda tinha muita importância dentro das Farc, mantinha a coesão interna. Não era apenas o símbolo, mas era quem impulsionava e levava adiante boa parte das negociações. Nas mesas de discussão, ele era sempre o porta-voz. Era ele quem tomava a decisão final. Foram 44 anos de luta. Ele também tinha um "feeling" político que era muito importante para que, no caso do nosso governo, se iniciasse um processo de negociação. Era um homem que via também que se podia chegar à paz. Mas cometeu um erro muito grande: ele teve a oportunidade de passar à história como um homem de paz. Hoje, Marulanda morre simplesmente apenas como um guerrilheiro, e o único que deixou em sua passagem pela Colômbia foi violência, morte, seqüestros e narcoterrorismo. É triste terminar assim, um homem que podia ter feito a paz na Colômbia terminou com esses qualificativos.

FOLHA - Com relação aos seqüestrados, pode haver novidades?

PASTRANA - Devemos fazer o acordo humanitário de todas as formas. Durante o meu governo, trocamos com as Farc mais de 400 soldados e policiais por cerca de 13 guerrilheiros doentes. Já houve essa experiência. A pergunta que os colombianos fazemos é por que o presidente Uribe desmilitariza uma zona como Ralito para negociar com os paramilitares, mas não desmilitariza uma zona para salvar a vida dos que estão seqüestrados. Espero que o acordo humanitário avance para poder iniciar um processo de verdade com as Farc de diálogo e de negociação, que permita chegar à paz.

FOLHA - As Farc perderam três membros da cúpula e sofreram a deserção de um comando médio, Karina. A guerrilha está em seu pior momento?

PASTRANA - O que é importante é que essa política leva mais de dez anos. Essa política começa em 1998, sob meu governo, quando iniciamos o Plano Colômbia [financiamento americano] e quando iniciamos as negociações. Em 1998, começamos a fortalecer as Forças Armadas, começar a dar-lhes os elementos importantes para poder combater a guerrilha. E o presidente Uribe continua essa política. O que foi muito importante também é que as Farc, no meu governo, sofreram sua pior derrota política, quando foram classificadas de terroristas nas listas da Europa e dos Estados Unidos. Hoje, estamos vendo que as Forças Armadas têm a capacidade de golpear a guerrilha e que, neste momento, sua estrutura está golpeada em boa parte pela política dos últimos dez anos na Colômbia. É importante continuar essa política se as Farc não tomarem a decisão de se sentar para negociar.

FOLHA - Com relação às informações contidas nos computadores de Raúl Reyes, o governo colombiano deveria denunciar os governos venezuelano e equatoriano em instâncias internacionais ou buscar uma solução diplomática?

PASTRANA - Isso não é novo. Toda a questão de que há presença da guerrilha colombiana em países vizinhos não é nova para nós. É algo que vem sendo administrado diretamente e com muita discrição por diferentes governos. O problema das drogas não afeta só os colombianos. O que desejamos colombianos é precisamente a ajuda dos nossos vizinhos. Para isso, foram criadas todas as comissões binacionais para que nossos comandantes, Exércitos e polícias trocassem informações e mantivessem contato permanente. No meu governo, foi capturado possivelmente o chefe mais importante do narcotráfico no Brasil, Fernandinho [Beira-Mar]. Foi uma operação conjunta, em que houve informações dos brasileiros e dos colombianos. Sem a Colômbia, ele teria continuado delinqüindo no Brasil.

E o que estamos esperando dos equatorianos e venezuelanos? Que todos nos unamos nesse esforço. O que temos de buscar é como unir toda a inteligência, toda a informação dos nossos Exércitos e da nossa polícia para combater o inimigo comum, o narcoterrorismo.

FOLHA - Mas os documentos sugerem uma colaboração do governo venezuelano com a guerrilha por meio de equipamentos militares e financiamento. O sr. não acredita que a informação seja correta?

PASTRANA - O que conhecemos é pela imprensa, não sei se a informação está correta. Mas nas Nações Unidas e na Organização dos Estados Americanos (OEA) estão bastantes claras as posições que devem ser assumidas caso haja governos que estão hospedando o narcoterrorismo e a guerrilha. Se o presidente Uribe tem a informação de que há governos que estão colaborando com a narcoguerrilha e o narcoterrorismo, tem de fazer as denúncias correspondentes.

FOLHA - A Colômbia foi o único país da região que não aderiu ao Conselho Sul-Americano de Defesa. O sr. concorda com a decisão de Uribe?

PASTRANA - O problema do narcoterrorismo não é apenas da Colômbia. Já sofrem Bolívia e Peru, está começando no México. O que temos é de unir os esforços. A Colômbia não tinha cocaína até alguns anos atrás. A coca era plantada no Peru e na Bolívia. E, com a ajuda da Colômbia, esses países conseguiram acabar com o problema da droga em boa parte desses países. E aí se deslocou para a Colômbia. E hoje está se deslocando para a América Central, para o Equador e para a Venezuela. Essa proposta feita para a região pode ser interessante para começar a trabalhar mancomunadamente.

 

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