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03/06/2008 - 07h05

Obama já ganhou a nomeação democrata, diz professor de Harvard

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MÁRCIA SOMAN MORAES
Colaboração para a Folha Online

As primárias realizadas nesta terça-feira nos Estados de Montana e Dakota do Sul encerram uma etapa da acirrada corrida democrata pela candidatura à Casa Branca, mas a nomeação já foi garantida pelo senador por Illinois Barack Obama, na opinião de Richard Parker, professor de ciência política da Universidade de Harvard.

"O modo com que a campanha de Obama é conduzida e o modo pelo qual a imprensa lida com Obama aponta para esse cenário. Podemos concluir que a campanha de Hillary [Clinton] se mantém relutantemente na corrida", disse Parker em entrevista exclusiva por telefone à Folha Online.

1.jun.2008 - Rick Wilking/Reuters
Para professor, Obama (foto) já ganhou a nomeação democrata
Para professor, Obama (foto) já ganhou a nomeação democrata

Segundo o professor, Hillary ainda não desistiu da corrida pela nomeação porque "deve ser muito difícil para os Clinton aceitar a idéia de que ela não vai conseguir a candidatura democrata".

"A política norte-americana é viciosa quando se trata de competidores na liderança, e acho que ela sofreu da 'maldição dos líderes'. Todos tinham certeza de que ela ganharia", diz o professor.

Especialista em campanhas políticas e consultor de figuras como os senadores da família Kennedy, Parker diz acreditar que é improvável que o Partido Democrata componha a chamada "chapa dos sonhos", unindo Obama e Hillary, mas que são "inegáveis" os efeitos da divisiva campanha democrata nas eleições gerais de 4 de novembro.

Para o professor, uma vez derrotada na corrida pela nomeação, Hillary seria uma forte candidata para assumir a liderança no Senado norte-americano, e estaria novamente à frente na lista de prováveis candidatos democratas nas próximas eleições norte-americanas.

"Mesmo que [Obama] atue por dois mandatos, Hillary ainda seria mais jovem do que John McCain [provável candidato republicano] é hoje em dia e poderia concorrer de novo", afirma o estudioso.

Leia a íntegra da entrevista concedida por Parker à Folha Online:

Folha Online - As primárias desta terça-feira devem definir a nomeação democrata?

Richard Parker - Não, eu acho que a nomeação já foi definida. Barack Obama já conquistou a nomeação, essa é a conclusão de quase todo observador com quem você conversar. O modo com que a campanha de Obama se conduz, e o modo pelo qual a imprensa lida com Obama aponta isso. Podemos concluir que a campanha de Hillary se mantém relutantemente na corrida.

Folha Online - Mas a vitória não foi anunciada oficialmente, e Hillary continua na disputa...

Parker - Deve muito difícil para os Clinton [Hillary e seu marido Bill, ex-presidente dos EUA] aceitar a idéia de que ela não vai conseguir a nomeação. Acredito que foi um choque, durante toda a disputa pela nomeação, ver Obama aparecer em uma corrida na qual ela mantinha uma liderança inquestionável e, a partir das primárias de Iowa, deteriorar esta liderança e virar o jogo. A política norte-americana é viciosa quando se trata de competidores na liderança e eu acho que ela sofreu da 'maldição dos líderes'. Todo mundo tinha certeza que ela ganharia.

21.abr.2008 - Elise Amendola/AP
Casal Clinton em campanha; para analista, Hillary sofreu a "maldição dos líderes"
Casal Clinton em campanha; para analista, Hillary sofreu a "maldição dos líderes"

Folha Online - Na sua opinião, ela pode ter continuado na campanha por ser mulher de Bill Clinton, que foi um presidente muito popular em seus dois mandatos?

Parker - Eu conheço um pouco os Clinton. Eu acredito que eles se convenceram de que estão dizendo a verdade quando afirmam que Obama não se daria bem em certos eleitorados. E o que eles querem dizer com isso são os trabalhadores brancos. E o que não é dito, mas é compreendido por todo mundo, é que raça está se escondendo por trás do racismo, que está se escondendo por trás de outras explicações sobre o fato de Obama não ganhar este eleitorado.

Folha Online - Então qual seria o verdadeiro motivo de Obama não conquistar este eleitorado?

Parker - Eu não quero falar sobre todo um eleitorado e usar uma palavra para definir, isso seria ciência social barata. Mas eu penso que --particularmente entre este grupo demográfico nas primárias democratas nos Estados do sul-- eles tendem efetivamente a ser muito difíceis em relação à raça. Há até mesmo eleitores brancos que são inseguros e instáveis sobre sua opinião sobre raça, moldados por uma reação às ações afirmativas favoráveis aos negros e ao aumento da taxa de criminalidade entre os negros.

Folha Online - Mas Obama tem chances de ganhar estes votos caso ele seja efetivamente o candidato democrata às eleições gerais?

Parker - O consenso agora é que ele não precisa conquistar todo este eleitorado para ganhar. Pesquisas apontaram que Al Gore [candidato democrata à Presidência em 2000] não levou todo este eleitorado e ganhou a maioria dos votos populares. John Kerry [candidato democrata de 2004] não levou todo o grupo e quase ganhou a maioria dos votos populares. E Obama está indo melhor entre este grupo do que Gore e Kerry, então é difícil saber. Por enquanto só temos uma medida entre os eleitores brancos democratas, não sabemos o que os trabalhadores brancos independentes farão. O que se sabe, em geral, é que ele vai bem entre os eleitores brancos.

Folha Online - Obama deve se voltar para os votos independentes em caso de uma campanha pelas eleições gerais?

Parker - Eu tenho certeza de que ele tem uma estratégia, que foi usada durante o primeiro ano de sua candidatura, que é a defesa de um pós-partidarismo. Ele levou o país acima do partidarismo. Mas Obama foi derrubado desta posição pela dureza da campanha com Hillary, e pela curta disputa republicana pelas primárias. Há seis meses, os republicanos pensavam que Hillary fosse muito mais liberal que Obama. Isso mudou, agora eles pensam que ambos são, do ponto de vista republicano, extremamente liberais. Então, ele perdeu parte de sua estratégia de campanha, de ser pós-partidário.

Folha Online - O Partido Democrata pode investir na chamada "chapa dos sonhos", com Obama e Hillary, como uma estratégia contra McCain?

Parker - Isto é muito improvável. No caso de Obama, eu acredito que seus assessores ficariam muito hesitantes em montar uma chapa com os dois. Com certeza há argumentos fortes de que ele deveria escolher uma mulher como vice para vencer parte de suas dificuldades, mas também há um argumento forte de que ele deve optar por um homem branco com histórico militar para tentar conquistar os votos de McCain neste bloco. A idéia é que as mulheres votam no Partido Democrata naturalmente. Mas esse é um julgamento muito arriscado.

Folha Online - Se Hillary efetivamente perder a disputa pela nomeação, ela conseguiria algum cargo de importância em um governo de Obama?

Parker - Ela continuará no Senado até o final do seu mandato. Agora, principalmente com o senador Kennedy [Edward Kennedy, diagnosticado com um tumor no cérebro] doente, está cada vez mais forte os rumores de que ela possa emergir como uma liderança no Senado. Há também a possibilidade de que Obama cometa algum erro e seja um presidente de um único mandato. E, mesmo que ele atue por dois mandatos, Hillary ainda seria mais jovem do que McCain hoje em dia, e poderia concorrer de novo.

Rick Wilking /Carlos Osorio/Reuters/AP
Para analista, chapa conjunta com pré-candidatos democratas é improvável devido à hesitação de assessores de Obama (à dir.)
Para analista, chapa conjunta com pré-candidatos democratas é improvável devido à hesitação de assessores de Obama (à dir.)

Folha Online - O senhor acredita que ela competirá de novo pela Presidência?

Parker - É muito difícil para uma mulher concorrer na faixa dos 70 anos. O preconceito de gênero torna mais difícil para uma mulher concorrer do que para um homem. Eu acho que um bom número de eleitores não votaria nela.

Folha Online - Alguns especialistas dizem que Obama pode pagar as dívidas de campanha de Hillary para unir o Partido Democrata...

Parker - Claro, isso não seria uma surpresa. Seria uma atitude muito positiva para o partido.

Folha Online - O Partido Democrata está dividido a ponto de efetivamente afetar suas chances nas eleições gerais?

Parker - Há um risco real de que isso possa acontecer. Eu acredito que essa resposta ficará mais clara após o discurso da convenção [Convenção Nacional Democrata, que oficializa o candidato do partido]. Os discursos dados quando o candidato aceita a nomeação são muito significativos. Em 1992, Bill Clinton deu seu discurso e Bush deu o dele, você podia ver que Clinton ganharia a Presidência. Em 2000, você podia ver, depois que Bush e Gore deram seus discursos, que Bush ganharia. As impressões de confiança, vigor e visão que o candidato projeta neste momento crítico se tornam um retrato de como a imprensa o verá. A convenção é muito importante.

Folha Online - Hillary apoiará Obama caso ele seja o nomeado?

Parker - Ela tem que apoiá-lo, não pode ir contra o partido. A questão não é sobre se ela vai apoiá-lo, e sim sobre quão vigorosamente vai fazê-lo. E acredito que há razão para se acreditar que ela não o apóie tão vigorosamente. Se Obama perder, isso praticamente a torna a candidata automática para as próximas eleições.

Folha Online - Se ela apoiar Obama, a mídia deve focar em todos os ataques de sua equipe ao senador...

Parker - Os republicanos tentarão tornar isso um assunto de campanha, e os jornalistas de canais especializados tornarão isso um tema. Mas eu acredito que a mídia em geral deve evitar isso.

Folha Online - Hillary poderá usar o sobrenome Clinton para influenciar os superdelegados e tentar ganhar seu endosso na Convenção Nacional, o que daria a ela uma chance na disputa pela nomeação?

Parker - Claro, essa é a estratégia deles. Ela está tentando usar seu sobrenome, está tentando usar o argumento de que pode ganhar importantes eleitorados e mais votos populares.

Folha Online - Uma pesquisa Gallup divulgada nesta semana mostra que Hillary é a candidata mais forte para as eleições gerais nos Estados em que ganhou as primárias. Os superdelegados podem apostar neste argumento e dar a ela a candidatura?

Parker - Os superdelegados estão em uma posição muito difícil agora. Se eles ignorarem a liderança de Obama na corrida, serão acusados de tentar controlar o Partido Democrata acima dos eleitores. Isso seria desastroso. Mas veremos...

Folha Online - Em sua opinião, Hillary cederá às pressões do partido para que desista da corrida depois das primárias desta terça-feira?

Parker - Não, acho que a decisão irá até o final da convenção. O que pode ocorrer é que, depois das primárias desta terça, os superdelegados apóiem em massa Obama, e isso dê a ele uma liderança consolidada.

Jeff Chiu/AP
Texto: Republican presidential candidate, Sen. John McCain, R-Ariz., left, shakes hands with President Bush before the president boarded Air Force One Tuesday, May 27, 2008, in Phoenix. (AP Photo/Jeff Chiu)
Obama afirma que McCain (à esq.) oferece continuação do mandato de Bush (à dir.)

Folha Online - Uma pesquisa recente mostrou que os eleitores pensam que a mídia foi dura com Hillary e facilitou para Obama e McCain. O senhor concorda?

Parker - Eu acredito que isso pode ter acontecido há seis meses, porque ele era o novo candidato, o novo garoto no cenário. Mas acho que o episódio do reverendo Wright [Jeremiah Wright, ex-pastor de Obama que deu declarações polêmicas] é um exemplo de que ele também foi alvo de uma dura cobertura da imprensa.

Folha Online - Se Hillary não é uma escolha viável para vice, quem estaria na lista de Obama?

Parker - Eu penso que a lista é muito conhecida. Será alguém como Sebelius [Kathleen Sebelius, governadora do Kansas], há também alguma especulação sobre Bill Richardson [governador do Novo México], embora eu ache que seja difícil. Eu penso que algumas pessoas da ala liberal da esquerda gostariam de ver Tim Kaine [governador da Virgínia]. Nós teremos que esperar para ver. Eu acho que ele está esperando Hillary sair da corrida para que tudo se acalme e ele possa refletir sobre o que fazer.

Folha Online - Que qualidades ele busca em seu vice-presidente?

Parker - Qualidades que o ajudem a ganhar a Presidência. Estas são as únicas qualidades que um candidato presidencial deveria buscar em seu vice. Mas a verdade é que o valor do vice caiu nos últimos quatro anos, quando eles eram vistos como máquinas políticas que podiam ganhar em grandes Estados e blocos de eleitores ou poderiam superar uma deficiência que o candidato tinha.

A televisão nacionalizou a política de modo em que ainda há diferenças regionais, mas a presença de blocos de votos é diferente no cenário democrata. Grandes blocos de votos, como os trabalhadores brancos, são republicanos agora e os democratas ficaram com grupos muito menores, dos quais poucos são historicamente eleitores democratas. Os judeus e os afro-americanos são os dois grupos que, juntos, representam 25% do voto democrata fiel. Outros grupos, como os católicos, precisam ser trabalhados.

Folha Online - A impopularidade do atual presidente dos EUA, George W. Bush, pode afetar o desempenho de McCain e ajudar o candidato democrata?

Parker - Políticos em atividade podem sempre prejudicar o candidato de seu próprio partido, e McCain está em uma posição difícil. Ele está claramente fazendo de tudo para que Bush arrecade dinheiro para ele fora dos holofotes da mídia, e não vai aparecer em um evento eleitoral ao lado de Bush, nem dar um grande abraço nele.

No entanto, a natureza do Partido Republicano exige que McCain se aproxime de Bush. Há uma qualidade de lealdade muito parecida com o ambiente militar, pela qual você não trai as linhas de autoridade. Democratas são muito mais caóticos, ficam felizes em criticar uns aos outros e em causar uma revolução dentro do partido. Os republicanos são mais como um grupo de banqueiros, são mais organizados e sabem o que querem.

Folha Online - Quais estratégias Obama deve usar para combater McCain nas eleições gerais, caso seja nomeado?

Parker - O que ele fará agora é investir em uma campanha sobre idade e mudança. Estes serão seus principais argumentos na campanha contra McCain. Ele não atacará sua idade [71 anos], mas usará toda oportunidade de mostrar o contraste de suas idades. Ele também deve mostrar McCain como uma continuação do governo de Bush.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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