Mundo
03/06/2008 - 07h22

Erros e "má sorte" fizeram Hillary perder eleitores, diz especialista

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FERNANDA BARBOSA
Colaboração para a Folha Online

A pré-candidata democrata à Presidência dos EUA Hillary Clinton iniciou a disputa pela nomeação do partido como favorita, mas perdeu gradativamente espaço para o rival Barack Obama em razão de erros de seu comitê e de um pouco de "má sorte", na opinião de David Karol, especialista em política norte-americana e professor da faculdade de Ciência Política da Universidade de Berkeley (EUA).

"O comitê de Hillary cometeu erros cruciais. Eles não distribuíram os recursos eficazmente, e a campanha não foi efetivamente organizada nos Estados que realizaram caucus, onde Obama venceu por uma grande margem", disse Karol em entrevista à Folha Online.

27.mai.2008 - Elise Amendola/AP
Hillary faz campanha para democratas de Montana; o Estado realiza primárias nesta terça
Hillary faz campanha para democratas de Montana; o Estado realiza primárias nesta terça

"A equipe de Hillary esperava que a disputa fosse encerrada no dia 5 de fevereiro, durante a Superterça --quando eleitores democratas de 24 Estados votaram simultaneamente-- e não economizaram o dinheiro suficiente para o que vinha depois", acrescentou o professor.

Outro fator que prejudicou Hillary, de acordo com Karol, foi a "má sorte" em Michigan e Flórida --Estados onde a senadora venceu, mas o resultado foi anulado porque as primárias foram realizadas antes da divulgação do calendário oficial do partido. No entanto, para o professor, a alocação dos delegados dos dois Estados, decidida no último sábado (31), não mudaria a situação da disputa, pois Obama "já construiu uma grande liderança e será o nomeado".

"Se as primárias dos Estados tivessem ocorrido normalmente, em janeiro ou fevereiro, uma vitória de Hillary teria a ajudado significantemente. Ela poderia ter tido uma liderança no número de delegados e então os superdelegados poderiam tê-la apoiado também", acrescentou.

Na entrevista, Karol também citou a votação de Hillary a favor da Guerra do Iraque, em 2002, como um elemento que prejudicou a sua candidatura. "Isso foi certamente um erro na disputa".

Segundo o professor, ela não deve esperar até a Convenção Democrata de agosto para desistir, mas não deve sair da corrida nesta terça-feira, após as primárias de Montana e Dakota do Sul.

"Ela ainda pode fazer discursos dizendo que há superdelegados que ainda não se decidiram, e dizer que eles a apóiam em algumas questões. Mas eu acredito que estamos muito perto do fim da campanha pela nomeação, e que Hillary provavelmente reconhece isso", diz o professor.

Leia a íntegra da entrevista com David Karol:

Folha Online - O que a presença de uma mulher significa na campanha presidencial dos EUA?

31.mai.2008 - Jason Reed/Reuters
Eleitores de Hillary fazem passeata para validar delegados de Michigan e Flórida
Eleitores de Hillary fazem passeata para validar delegados de Michigan e Flórida

David Karol - Tem crescido o número de mulheres na política norte-americana, há mulheres governadoras, há senadoras, e a representação feminina no sistema político tem apresentado muito progresso nos últimos 30, 35 anos. Mas Hillary Clinton é o primeiro caso de uma candidata à Presidência que realmente chegou perto, que pode ser considerada uma séria candidata.

Folha Online - Há alguma ligação do sucesso da senadora com a história política de seu marido, o ex-presidente Bill Clinton?

Karol - É claro que há. Os Clinton sempre agiram como um time. Em 1992, Bill Clinton costumava dizer que os eleitores levariam dois pelo preço de um. Bom, antes de conhecer o marido, há muitos anos, Hillary já era ativa politicamente e já existiam sinais de que ela teria uma carreira política. Na verdade, ela uma figura tradicional. Se você olhar para as mulheres que são eleitas para o Congresso ou para postos de governo, no passado, o padrão era que elas fossem viúvas. O marido era um político e, depois que ele morresse, a viúva o substituía.

Hillary não é uma viúva, Clinton ainda está por aí, mas o fato é que a maneira tradicional de as mulheres entrarem da política, que é um ambiente dominado por homens, é por meio de uma conexão com um homem, normalmente seus maridos. Então Hillary, ao mesmo tempo em que é uma pioneira, é uma figura tradicional.

Folha Online - No início desta corrida presidencial, Hillary liderava com uma boa margem de vantagem, no entanto, ela perdeu eleitores para Obama. Por que isso ocorreu?

Karol - O comitê de Hillary cometeu alguns erros cruciais. Eles não distribuíram os recursos eficazmente. Houve alguns Estados que realizaram caucus ao invés de primárias, e nesses casos é muito importante ter uma boa organização, porque o comparecimento de eleitores é pequeno e, se você não consegue trazer algumas milhares de pessoas a mais, isso pode fazer uma grande diferença. A campanha de Hillary não foi efetivamente organizada nos Estados que realizaram caucus, e Obama venceu por uma grande margem. Outra coisa que prejudicou Hillary, e isso não foi um erro, foi somente má sorte, foi a exclusão de Flórida e Michigan do processo por um longo tempo, porque nesses Estados ela tinha uma vantagem. E há também o fato de Obama ter obtido o apoio de mais pessoas do que se esperava. Essa é a disputa mais acirrada em 30 anos.

Folha Online - Houve outros erros na campanha de Hillary?

Karol - A equipe de Hillary esperava que a disputa fosse encerrada no dia 5 de fevereiro, durante a Superterça, quando muitos Estados votaram ao mesmo tempo em primárias e caucus. E eles não economizaram o dinheiro suficiente para o que vinha depois. Então, nas votações após o dia 5 de fevereiro, Obama superou consideravelmente Hillary em arrecadação. Isso foi outro erro importante que o comitê de Hillary cometeu. Eles arrecadaram muito dinheiro, mas não o gastaram com inteligência. Há outras coisas que a prejudicaram, mas elas ocorreram antes do período que nós chamamos de campanha. Por exemplo, o fato de ela ter votado a favor da Guerra do Iraque, em 2002. Isso foi certamente um erro para ela nesta disputa. Há algumas pessoas que dizem que ela deveria ter pedido desculpas por esse voto, assim como fez o senador [John] Edwards. Mas ela nunca afirmou que tenha cometido um erro. Contudo, eu não sei se reconhecer o erro seria uma coisa inteligente a se fazer.

Folha Online - As primárias de Michigan e Flórida poderiam mudar os resultados da nomeação democrata?

29.mai.2008 - Elise Amendola/AP
Hillary faz campanha em Dakota do Sul; para analista, a senadora não desiste nesta terça-feira, mas sai da corrida antes de agosto
Hillary faz campanha em Dakota do Sul; para analista, a senadora não desiste nesta terça-feira, mas sai da corrida antes de agosto

Karol - Não mais. Obama construiu uma grande liderança e será o nomeado. Não importa mais. Neste ponto, a decisão é mais simbólica, pois vai determinar o número de atores na convenção nacional, e Hillary vai poder dizer que lutou pelos interesses das pessoas na Flórida e em Michigan e venceu no voto popular. Obama também quer ajudar Michigan e Flórida, ele não quer que as pessoas nos Estados fiquem irritadas, pois pretende concorrer às eleições gerais. Ele está interessado em fazer algum tipo de compromisso, para que ninguém possa dizer que ele está desrespeitando Flórida ou Michigan. O meu ponto é, se as primárias dos Estados tivessem ocorrido normalmente, em janeiro ou fevereiro, uma vitória de Hillary teria a ajudado significantemente. Ela poderia ter tido uma liderança no número de delegados, e então os superdelegados que apoiaram Obama porque pensavam que ele estava vencendo poderiam ter apoiado Hillary. Há algumas pessoas que querem obter alguma oportunidade dentro da equipe que deve vencer. Se ela tivesse os benefícios das delegações de Michigan e Flórida em fevereiro, muitos outros superdelegados teriam a apoiado.

Folha Online - O senhor acha que Hillary sairá da corrida? Ela irá esperar até a convenção nacional de agosto?

Karol - Não, eu não acredito que ela irá esperar. Isso seria um erro. A não ser que alguma coisa inesperada aconteça, Obama terá a maioria dos delegados no início de junho. Após as primárias desta terça-feira, ela pode fazer discursos dizendo que ainda há alguns superdelegados que ainda não se decidiram, e eu acho que eles me apóiam por essas e aquelas razões, e eu não concordo com as resoluções para Flórida e Michigan ou algo assim. Depois que todos os caminhos estiverem esgotados e a nomeação estiver clara, se ela continuar a causar problemas eu acredito que ela irá irritar muitas pessoas do partido que a apoiaram. Outra coisa é a maneira que se faz a campanha. Se ela disser "eu sou candidata" e não atacar Obama, acredito que as pessoas não irão se importar muito. Ela não será realmente uma candidata séria mais, e se ela quiser fazer isso, seja por qualquer razão, que pelo menos não machuque o partido. E a campanha de Hillary evoluiu nas últimas semanas, ela foi menos negativa e menos crítica em relação a Obama. Ela tem atacado mais McCain, e feito afirmações positivas para ela mesma.

Folha Online - O Partido Democrata ficou prejudicado com essa longa disputa entre Obama e Hillary?

Karol - Há um grande entusiasmo para o partido, um grande número de pessoas votaram nessas primárias. Há Estados onde mais pessoas votaram nas primárias para Hillary ou Obama do que votaram para Kerry nas eleições gerais de 2004. Então, muitas pessoas doaram dinheiro para os candidatos e se tornaram ativos no partido, o processo mobilizou muitas pessoas. Obama não terá nenhum problema com dinheiro. Ele poderá recrutar todas as pessoas que doaram dinheiro para a sua campanha nas primárias para que doem de novo nas eleições gerais. E eu não sei se está claro que o partido foi prejudicado pelo processo.

No momento, há democratas que afirmam que não votariam em Obama se ele fosse o nomeado, ou não votariam em Hillary se ela fosse a escolhida. Mas a experiência das campanhas anteriores sugere que, ao final, os democratas acabarão seguindo a linha do partido.

Folha Online - Na última quinta-feira (29), Hillary enviou aos superdelegados uma carta, afirmando que era a melhor candidata. Essa ação pode mudar alguma coisa na campanha?

Karol - Eu duvido. Os superdelegados vêem TV, lêem jornais, falam entre eles. Hillary está tentando tudo o que pode, está lutando até o último minuto. Eu não acredito que isso possa influenciar os superdelegados, não há nenhum segredo que ela tenha. Os superdelegados vão votar segundo suas próprias idéias, e a maioria anunciará apoio a Obama. Hillary esteve na liderança no ano passado, e até o começo de 2008. Os superdelegados que não a escolheram quando ela era a favorita não a escolherão agora. Neste momento, está claro que Obama tem grande chance de ser o nomeado. E os políticos querem estar na equipe que for ganhar.

Folha Online - Se Hillary desistir da corrida pela nomeação democrata, ela irá tentar alguma colocação na chapa de Obama, ou vai simplesmente voltar ao seu cargo no Senado?

Rick Wilking /Carlos Osorio/Reuters/AP
Para professor, Hillary pode ser vice-presidente na chapa de Obama, mas não ocuparia outro cargo em um governo do senador
Para professor, Hillary pode ser vice-presidente na chapa de Obama, mas não ocuparia outro cargo em um governo do senador

Karol - Essa questão é mais sobre a vice-Presidência. Isso é algo que deve ser levado em consideração, mas, além disso, não parece que ela terá uma posição. Essa é a forma que funciona o sistema político norte-americano, é diferente dos outros países. Nos outros países, qualquer um que tenha feito tanto quanto ela em termos políticos teria naturalmente uma posição importante no governo se seu partido vencesse as eleições: o ministério das Finanças, o ministério de Relações Exteriores, ou algo assim. Mas eu não acho que Hillary gostaria de comandar um ministério em uma administração de Obama. Mas quanto à vice-Presidência, eu acredito que há uma possibilidade. Há razões para isso não acontecer também, mas é possível.

Mas é importante para Obama que ela apóie sua candidatura, uma vez que ele seja o nomeado, e eu acho que ela irá. Se ela for vista prejudicando a campanha dele, ela vai perder o apoio de muitas pessoas do partido.

E não está claro o que ela quer. Se o seu futuro é só permanecer no Senado, se é concorrer de novo, o que eu acho que é duvidoso. Mas se ela espera ter qualquer tipo de futuro no partido, qualquer que ele seja, ela precisa apoiar lealmente o nomeado do partido. Ela reconhece isso, e o fará.

Folha Online - Existe a possibilidade de ela tentar ser a líder da maioria no Senado?

Karol - Isso tem sido discutido, mas há alguns problemas. Antes de mais nada, o líder atual deve se aposentar em alguns anos, mas isso não é certo. E há outras pessoas, como o vice-líder, que podem assumir. A outra coisa é, se você olhar para o tipo de pessoa que escolhida para ser líder, não é o tipo de senador 'superstar', mas uma pessoa local, que não capte muita publicidade para si mesma, que trabalhe duro em todos os detalhes da legislação e permita a todos os outros senadores que desfrutem de certa prioridade, de direitos.

Nisso, Hillary seria uma líder de maioria incomum. Há também o fato de que muitos senadores apoiaram Obama para a nomeação, principalmente no final da corrida. Isso poderia ser um pouco difícil de lidar.

Na verdade, eu acho que ela seria uma boa líder, mas não acho que terá essa oportunidade.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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