Mundo
03/06/2008 - 13h02

Para analista, Obama vencerá McCain nas eleições gerais de novembro

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ÉBANO PIACENTINI
Colaboração para a Folha Online

Favorito na corrida democrata pela nomeação, o senador por Illinois Barack Obama deve vencer seu provável rival, o republicano John McCain, nas eleições de 4 de novembro, caso seja mesmo confirmada sua candidatura à Casa Branca, na opinião do cientista político Henry Brady, da Universidade de Berkeley (Califórnia).

Para o analista, vários fatores do cenário político dos Estados Unidos favorecem os democratas --entre eles a crise na economia e a política externa do presidente George W. Bush, que é mal vista por muitos americanos. "Com tudo isso, será difícil que Obama não vença as eleições gerais em novembro", disse Brady em entrevista por telefone à Folha Online.

Segundo o professor, os americanos estão "cansados" das "políticas ultrapassadas" de Bush e "prontos" para um ciclo de mudanças políticas. "É parecido com o longo período que durou até 1980, em que os democratas estiveram por quase meio século na Casa Branca, exceto durante o mandato de Richard Nixon (1969-1974) e Dwight Eisenhower (1953-1961). Estamos entrando em um período como aquele", afirma.

AP
John Kennedy quando nomenado candidato em 1960; para analista Obama pode começar novo ciclo dos democratas em Washington
John Kennedy quando nomeado candidato em 1960; para analista, Obama pode começar novo ciclo dos democratas em Washington.

Na entrevista, o professor disse ainda que Obama terá a "oportunidade de transformar a política dos EUA", mas que "não está claro" se ele --caso se confirme como candidato democrata-- "será capaz de fazê-lo".

"Não sabemos muito sobre Obama. Ele não tem experiência executiva --menos ainda que John F. Kennedy (1961-1963), que cometeu muitos erros no início de sua administração".

Henry Brady é especialista em eleições americanas, políticas de bem-estar social e opinião pública. Em 2003, foi eleito membro da Academia Americana de Artes e Ciências.

Leia a íntegra da entrevista dada à Folha Online:

*

Folha Online - A corrida democrata entre Hillary Clinton e Barack Obama é longa e prejudica o Partido Democrata. Como será a reunificação da legenda?

Henry Brady - Nós já tivemos este tipo situação antes e geralmente os partidos conseguem se reorganizar. A exceção ocorreu em 1980, quando Ted Kennedy disputou [as primárias democratas] com Jimmy Carter, que era o presidente à época (1977-81) e perdeu a corrida pela nomeação. Isso causou um estrago no partido, mas foi uma situação excepcional, pois Carter estava mal avaliado pelos americanos. Mas a conjuntura atual é diferente. Não há nenhum motivo para acreditar que Obama, que deve ser o candidato democrata, possa ser prejudicado.

Rick Wilking/Reuters
Obama pode marcar novo paradigma na política americana, como Reagan ou Kennedy.
Obama pode marcar um novo paradigma na política dos EUA, como Reagan ou Kennedy.

Folha Online - Se Obama for o candidato democrata, há uma chance de que os eleitores fiéis de Hillary, como mulheres de meia idade e operários brancos se abstenham de votar, ou mesmo votem em McCain?

Brady - Há uma chance de eleitores de Hillary votarem em McCain, mas porque eles são "Reagan democrats", eleitores democratas que durante o governo de Ronald Reagan (1981-1989) votaram por Reagan. Eles sempre foram mais receosos em relação à ala mais à esquerda do Partido Democrata. Por isso votam em Hillary, mas podem não votar em Obama. Mas isso não ocorre por ressentimento, mas por sua afeição e posição política. Por outro lado, Obama ainda pode conquistar esses votos. Há muitos motivos para acreditar que ele pode fazer isso, pois os americanos estão preocupados com a crise econômica. McCain não é forte em temas econômicos, não gosta de falar sobre o tema e assume que não tem muito conhecimento a respeito. Ele dá ênfase à política externa, e se Obama tiver um apelo que coloque às questões econômicas à frente, ele pode ganhar o voto dos "Reagan democrats".

Folha Online - Levando em conta a biografia de McCain, um marine que foi prisioneiro na Guerra do Vietnã, sofreu torturas e foi condecorado herói de guerra, o senhor acha que será uma obsessão para ele, caso seja eleito, vencer a Guerra do Iraque?

Brady - McCain dá ênfase às questões de política externa, mas recentemente sua campanha está cautelosa [em relação ao Iraque]. Ele disse que, em 2013, tiraria as tropas do país, e começou a falar mais sobre a economia. Está claro que sua campanha percebe que não é uma fórmula vitoriosa focar apenas na Guerra do Iraque. E, naturalmente, ele tem que se distanciar do presidente Bush. A questão é se conseguirá fazer isso no final, pois McCain não entende de economia e política externa é claramente sua "paixão".

Folha Online - Em 2001, Bush era tido como um republicano moderado. Após sua eleição, viu-se que ele estava bem mais à direita do que se pensava. O senhor acha que está claro quem é John McCain?

Brady - É difícil saber. Olhando para seu histórico no congresso, ele é um dos legisladores mais flexíveis do Senado e da Casa dos Representantes (deputados). Em alguns assuntos ele é realmente moderado, como meio ambiente e aquecimento global. Mas em outros, como impostos, ele mudou sua posição: foi contra a política de cortes de impostos de Bush e depois se tornou a favor. É muito difícil saber a sua posição em assuntos econômicos. Em questões sociais é mais claro que ele é conservador, como na questão do aborto, por exemplo.

Folha Online - Se McCain for eleito presidente dos EUA, há alguma chance de que o time republicano de Bush permaneça ditando os rumos de Washington?

Brady - Não. McCain terá sua equipe e será muito diferente da de Bush, sem dúvida. Bush tem muitos apoiadores ideologicamente religiosos e ultraconservadores. McCain não se sente confortável com essa ideologia. Ele teria pessoas mais pragmáticas e flexíveis.

Folha Online - Quem pode ser o vice-presidente de McCain?

Lee Celano/Reuters
McCain fala ao lado do governador Bobby Jindal, seu possível vice-presidente
McCain fala ao lado do governador Bobby Jindal, seu possível vice-presidente.

Brady - Ele não tem bons candidatos a vice-presidente, como os democratas. Ele precisa de alguém jovem, mas não demais, pois isso realçaria sua idade avançada. Ele também precisa de alguém que possa substituí-lo caso fique doente. E por último ele precisa de alguém de um Estado importante. Não há ninguém com este perfil entre os republicanos.

Mitt Romney (61) [ex-governador de Massachusetts] é jovem e saudável, mas não há muita identificação entre ele e McCain, e Romney não lhe dá um Estado importante, pois não há nenhuma chance de McCain vencer em Massachusetts. Bobby Jindal (36), governador de Louisiana, é jovem demais e este é um Estado que ele não precisa se preocupar. Charlie Crist (52), da Flórida, é jovem e é de um Estado que pode fazer a diferença, mas haverá questionamentos sobre sua experiência em política externa. Então, esta será uma decisão difícil.

Folha Online - Ele também precisa de alguém mais à direita no Partido Republicano...

Brady - Se ele quiser alguém que o ajude a aumentar sua base de eleitores conservadores, Romney poderia fazer isso, os outros candidatos não. Crist não é popular com a ala conservadora do partido e Jindal teria uma relação complicada.

Folha Online - Pesquisas do instituto Gallup mostram que Hillary se sairia melhor contra McCain que Obama, e ela vem usando este argumento em sua campanha. Obama é forte o bastante para derrotar McCain?

Brady - Em primeiro lugar, tais pesquisas, nessa altura da corrida, não dizem muita coisa. Em segundo lugar, a conjuntura é favorável aos democratas. A economia está em crise. A política externa é mal vista pelos americanos. O presidente é muito impopular, e McCain tem muitos pontos negativos. Com tudo isso será difícil que Obama não vença as eleições gerais em novembro. Em relação à Hillary, Obama tem espaço para aumentar seu leque de eleitores, o que Hillary não teria, pois muita gente não gosta dela.

Folha Online - E quem poderia ser o vice de Obama?

Brady - Há boas opções para ele. Um bom vice-presidente para Obama tem que ser alguém de um Estado decisivo e com uma perspectiva mais conservadora que ele. Jim Webb (62), Senador pela Virgínia, um Estado importante, um legislador com boa reputação em termos militares, seria um vice adequado. Bill Richardson, do Novo México, outro Estado decisivo, é alguém que lhe traria mais votos de hispânicos, já que é um governador de origem hispânica. Também pode ser Ted Strickland (66), governador de Ohio, muito popular lá, outro Estado relevante na corrida. E ainda há Claire McCaskill (54), senadora pelo Missouri, mais um Estado importante. Há muitas possibilidades para Obama.

Folha Online - O que o sr. acha que ainda está por vir na corrida? A participação nas primárias foi recorde, a mobilização dos jovens também, o que ainda virá de novo neste processo, que analistas já consideram um marco na história política americana?

Brady - Este é um momento de transformação. É parecido com o longo período até 1980 na América, em que os democratas estiveram por meio século quase o tempo todo na Casa Branca, exceto por Richard Nixon (1969-1974) e Dwight Eisenhower (1953-1961). Mas basicamente, desde 1933, os democratas estiveram na Presidência. São quase 50 anos com apenas duas interrupções. Estamos entrando em um período como aquele, que teve seu ápice, ironicamente, com Ronald Reagan, um republicano que promoveu uma verdadeira transformação na política americana.

AP
Ronald Reagan acena antes de levar um tiro em 1981; o presidente republicano mobilizou a participação de jovens na política dos EUA
Ronald Reagan acena antes de levar um tiro em 1981; o presidente republicano mobilizou a participação de jovens na política dos EUA.

Barack Obama terá a oportunidade de transformar novamente a política dos Estados Unidos. Se ele será capaz, não está claro. Mas o país está ansioso por um líder, por uma nova direção. Muito do que os republicanos dizem não é mais tido como verdade, como foi por um tempo. Ninguém mais acredita que cortar impostos é a solução para os problemas. Também não se acredita que a atual política externa é boa.

Os americanos estão preocupados com assuntos aos quais os republicanos não têm dado atenção, como o aquecimento global, a dependência energética e as fontes alternativas de energia. Um novo presidente pode "acordar" a nação para esses assuntos. Além disso, os democratas estão incrivelmente mobilizados desde o começo das primárias.

Folha Online - Caso Obama ganhe as eleições, o sr. acha que ele terá forças para enfrentar os lobbies das empresas de armas, do petróleo, dos seguros e da saúde, que influenciam as políticas de Washington?

Brady - Os cínicos dizem que é muito difícil mudar Washington, e que a situação vai permanecer a mesma. Essa é a perspectiva de Hillary. Ela diz: "vejam, nós só podemos fazer ajustes". Foi o que Bill Clinton fez, e é o que ela queria fazer. Este é um julgamento sóbrio e conservador. Por outro lado, este é um dos momentos da política americana em que a população realmente quer mudanças e está pronta para algo diferente, e se Barack Obama for tenaz, ele pode promover mudanças. Pode-se olhar para os anos 60 e o que John F. Kennedy fez, ou Ronald Reagan nos anos 1980. Reagan foi muito mais bem sucedido que Kennedy: o motivo pelo qual os programas de Kennedy foram aprovados foi a tragédia de seu assassinato, e os esforços do presidente Lyndon Johnson (1963-1969) neste sentido.

Folha Online - Em sua experiência como professor, como está o processo entre os estudantes? Eles acreditam ser a geração que pode fazer a diferença nestes tempos de aguda crise econômica nos EUA?

Brady - Os estudantes estão tremendamente ligados e mobilizados por Obama, e por Hillary também, mas em menor escala. Eles acreditam em mudanças. Em parte porque vêem Bush executando políticas ultrapassadas. Eu acredito que os estudantes de hoje são uma geração motivada pelo Partido Democrata, e que podem se tornar uma base importante da legenda, da mesma forma que muita gente foi mobilizada por Reagan na década de 80. Mas tudo vai depender do que Obama pode fazer. A verdade é que nós não sabemos muito sobre Barack Obama.

Ele não foi testado em muitos assuntos e não tem experiência executiva --menos ainda que John F. Kennedy, que no início de sua administração cometeu muitos erros. Entre eles, o da fracassada invasão cubana da baía dos Porcos (abril de 1961), o de não ter sido firme o suficiente para evitar a construção do Muro de Berlim (1961), e também para enfrentar [o líder soviético Nikita] Kruschev na crise dos mísseis (1962).

Então Obama também pode cometer muitos erros. A boa notícia de sua experiência é que ele lidera uma campanha inteligente e efetiva. É um indicativo de competência administrativa. Mas Jimmy Carter conduziu uma ótima campanha em 1976 e foi um presidente fraco.

Folha Online - O sr. acha que os EUA estão mesmo prontos a eleger como presidente um afro-americano?

Henry Brady - Depende de fatores sobre os quais é muito difícil chegar a uma conclusão. O que sabemos ao certo é que o racismo ainda existe na América, mas não sabemos exatamente em que profundidade. Também não sabemos até onde Obama é visto de uma forma diferente de outros candidatos negros. A forma como ele se comporta sobre a questão racial pode indicar que, se ele perder votos, isso pode não estar ligado apenas ao racismo. De qualquer forma é um ano muito bom aos democratas, e isso pode amenizar qualquer perda que ele possa ter por ser negro. Além disso, sua raça pode ser um fator de mobilização. Mas é extremamente difícil saber se os americanos estão preparados para eleger Obama.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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