Para analista, nova liderança das Farc não mudará essência do grupo
MARIANA CAMPOS
da Folha Online
A morte do líder máximo das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Manuel Marulanda, conhecido como Tirofijo (tiro certo, em português), ocorrida no final de maio, e a conseqüente substituição do posto por Alfonso Cano --cujo perfil é distinto de Marulanda-- não motivará nenhuma mudança na organização.
Esta é a opinião do analista político Vicente Torrijos, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Rosário (Bogotá), que recentemente foi nomeado membro da comissão presidencial de analistas para cuidar da crise com a Venezuela. "Cano tem formação universitária, mas seria um erro pensar que, por isso, vai preferir um diálogo", afirma o analista.
| 9.fev.2001/Ricardo Mazalan/AP |
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| Manuel Marulanda, o Tirofijo |
"Será algo muito parecido com o que acontece em Cuba com Raúl Castro", disse Rivera em entrevista à Folha Online, fazendo uma comparação com o país que viveu 49 anos sob o regime de Fidel Castro e que agora, apesar de pequenas mudanças para o dia a dia da população, mantém a essência com a administração do irmão do ex-ditador.
Fidel renunciou ao cargo em fevereiro deste ano.
Além da morte de Marulanda, as Farc perderam também o número 2 da organização, Raul Reyes, morto em um ataque aéreo da Colômbia em território equatoriano --o que deu início à crise diplomática ocorrida em março entre os países, e que envolveu a Venezuela.
Dois meses depois, em maio, a organização viu a deserção da guerrilheira Nelly Ávila Moreno, conhecida como Karina. Ela comandava a frente 47 das Farc e era considerada pelas autoridades como a mulher mais sanguinária da guerrilha.
Apesar de todas essas baixas, Rivera diz não concordar com o chanceler colombiano, Fernando Araújo, que disse que a morte de Marulanda podia ser considerada o início do fim das Farc. "As Farc são uma organização poderosa, mas não encontram a maneira de usar o poder que têm".
O analista defendeu ainda o diálogo como forma de consenso. "Quase sempre os conflitos terminam dialogando, negociando. Eu acredito que chegou o momento para que se inicie na Colômbia a negociação para que para que as Farc se rendam. Ainda está em tempo", diz.
Confira a entrevista dada por Torrijos à Folha Online:
Folha Online - Quais serão as mudanças nas Farc depois da morte de Manuel Marulanda?
Vicente Torrijos - Nenhuma. Será algo muito parecido com o que acontece em Cuba com Raúl Castro. As Farc têm um problema muito sério a nível organizacional. As células estão incomunicáveis e paralisadas. Não sabem que rumo tomar. Já não têm um objetivo claro. Seus planos estratégicos estão se desmoronando e eles não sabem como conter a avalanche.
Folha Online - O substituto, Alfonso Cano, tem um perfil diferente de Marulanda? A possibilidade de diálogo com o governo será maior agora?
Torrijos - O perfil é diferente, mas a essência é a mesma. Cano tem formação universitária, mas seria um erro pensar que, por isso, vai preferir um diálogo. Pelo contrário: não há guerreiro mais inflexível que um intelectual convencido de seu papel. Cano foi um dos inspiradores da atual estratégia das Farc e não vai renunciar a ela. As Farc terão de dar mostras de vitalidade militar mais cedo ou mais tarde e Cano é muito criativo em matéria de terrorismo seletivo.
| 2.fev.2001/Eliana Aponte/Reuters |
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| Alfonso Cano, ideologista das Farc, substitui Manuel Marulanda, cuja morte foi confirmada, como líder máximo da organização |
Folha Online - Muitos dizem que as Farc estão se tornando debilitadas e perdendo o poder. O senhor acredita que isso esteja ocorrendo?
Torrijos - A estratégia estatal contra a subversão tem sido muito bem sucedida. As Farc pensaram que poderiam tolerá-la dedicando-se à diplomacia para conquistar, no plano político, o que não podiam conseguir no campo militar. Mas também nisso se enganaram. Agora foi descoberta a rede de políticos que as apoiavam na Colômbia, Venezuela e Equador. A rede foi desmascarada e suas intenções foram descobertas. Perderam todo o valor político que tinham.
Folha Online - As Farc publicaram uma mensagem dizendo que nada mudará com relação ao intercâmbio humanitário. Qual será a situação dos reféns?
Torrijos - Os seqüestrados sempre foram uma mercadoria política que as Farc manejam cuidadosamente para alcançar efeitos estratégicos. Através do presidente Hugo Chávez, eles queriam manipular as libertações para se converterem em agentes de reconciliação, paz e transformação da Colômbia quando, na realidade, são apenas seqüestradores que violam a lei internacional e submetem suas vítimas a tratamentos inumanos e degradantes. Agora, não poderão fazer o mesmo. Os governos da Venezuela e Equador também ficaram em evidência por auxiliar, apoiar e promover uma organização armada que pratica o terrorismo.
Folha Online - O chanceler colombiano disse que a morte de Marulanda é o início do fim das Farc. O senhor concorda com ele?
Torrijos - Não. As Farc são uma organização poderosa, mas não encontram a maneira de usar o poder que têm. Dispõem de bom armamento, ganham muito dinheiro com o tráfico de drogas e têm bons amigos em Quito e Caracas. Mas todo esse poder é inútil. O apoio popular que têm não chega nem sequer a 2% da população. Sobra a eles o terrorismo. Quão criativos podem ser espalhando o terror? O melhor que Venezuela, Equador e Nicarágua poderiam fazer é dizer a eles que aceitem a realidade antes que seja tarde demais. Eles pensavam que, através das Farc e da esquerda radical, converteriam a Colômbia em um elo da cadeia chavista. Agora estão tristes.
Em vez de andar interferindo nos assuntos internos colombianos, deveriam se preocupar mais com o que acontece em casa. Depois de perder o referendo de dezembro passado, Chávez perderá muitos governos nas eleições no fim do ano. Correa já não tem o apoio nem dos indígenas. O sandinismo está na corda bamba, com um país afundado na miséria. E a Morales, na Bolívia, não resta mais nada a não ser aceitar as autonomias territoriais ou converter seu país em um Vietnã, como disse Hugo Chávez sem pensar muito bem.
Folha Online - O senhor acredita que este é o momento propício para que o governo tente o diálogo?
Torrijos - Com certeza, sim. Não há nada melhor que o diálogo. Quase sempre os conflitos terminam dialogando, negociando. Eu acredito que chegou o momento para que se inicie na Colômbia a negociação para que para que as Farc se rendam. Ainda está em tempo.
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