Às vésperas da Olimpíada, China precisa enfrentar problemas internos
FERNANDO SERPONE
da Folha Online
Em um momento em que a China concentra os esforços nos Jogos Olímpicos de Pequim --símbolo da força e da capacidade do governo-- as manifestações ocorridas em abril no Tibete e o terremoto do último dia 12, que matou mais de 69 mil, levaram aos jornais alguns dos sérios problemas enfrentados pelo Partido Comunista --o separatismo étnico e a desigualdade social.
Pequim tem ainda entre seus principais desafios a questão da poluição, da corrupção e da unidade lingüística do país --até hoje não atingida.
No entanto, nenhum desses problemas representa uma séria ameaça ao governo chinês ou à unidade nacional, de acordo com três especialistas em China ouvidos pela Folha Online.
O rápido crescimento econômico dos últimos anos, o forte nacionalismo e a força militar chinesa são citados como fatores que garantem a estabilidade do pais. Apesar de o terremoto ter destruído cerca de 7.000 salas de aula --matando mais de 13 mil alunos-- e milhares de casas, principalmente da população mais pobre, a irritação popular deve se voltar ao governo local, poupando a imagem de Pequim, segundo Hans van de Ven, professor de história moderna chinesa da universidade de Cambridge. "É uma oportunidade de relações públicas e a China a está usando muito bem", disse o professor, que acha que governo usará o tremor para melhorar sua imagem.
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| Sobrevivente do tremor do dia 12 de maio na Província de Gansu, vizinha de Sichuan |
"O governo está usando o terremoto de uma forma publicitária muito boa", disse também Xu Wenli, um dos principais defensores da democracia na China, que passou 16 anos preso e, após ser libertado por pressão internacional, hoje vive nos EUA.
"O sentimento de nacionalismo, o progresso econômico e agora este terremoto --com fotos manipuladas-- contribuem para reforçar o controle do governo sobre o país."
Xu diz acreditar também que, com os elogios dos líderes mundiais à rápida resposta do governo chinês ao tremor, o foco da opinião pública mundial esteja mudando, e que o governo chinês esteja sendo visto de maneira mais positiva. "Os comentários positivos após as duras afirmações sobre o Tibete e os direitos humanos na China reparam as relações com Pequim", afirma.
De acordo com Ven, apesar da disparidade social, muitas pessoas se beneficiaram do crescimento econômico dos últimos 20 anos "e há um medo implícito do caos e da desordem de uma revolução".
"Creio que eles (camponeses pobres) estejam insatisfeitos com o que o governo local faz por eles, mas ao mesmo tempo, estão orgulhosos de que a China é um forte país emergente, que pode fazer coisas tão visíveis como as Olimpíadas".
Segundo o professor, durante dois séculos houve uma sensação de que a China estava em declínio, e agora há um sentimento de que o país está "ressurgindo como uma potência".
"Sociedade harmoniosa"
"A China tem mais bilionários em dólares do que os EUA, e isso foi alcançado em pouco tempo", disse Xu, comentando o crescimento econômico dos últimos 20 anos. Superficialmente, isso é maravilhoso, que a China está indo muito bem, mas a verdade é que 90% dessa riqueza está nas mãos de membros do partido, de seus familiares ou pessoas relacionadas a membros do partido, e apenas 10% está nas mãos da população civil que não é do partido".
Sobre o conceito de "sociedade harmoniosa" pregado pelo Partido Comunista, Jean-Philippe Béja, diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) e do CEFT (Centro Francês para a China Contemporânea), afirma que quanto mais os líderes falam sobre harmonia, menos há. "Se falam muito sobre harmonia, é porque a sociedade não é harmoniosa."
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| Sobreviventes do tremor do dia 12 esperam por ajuda em estrada da Província de Gansu, vizinha de Sichuan, local do epicentro |
Para o francês, atualmente em Hong Kong, o governo está muito preocupado com o desenvolvimento da desigualdade e da polarização da sociedade, mas acredita que a alta dos preços dos grãos e produtos agrícolas possa ajudar a melhorar a situação no campo.
Porém, segundo Béja, as pessoas ainda saem do campo em grandes números, "e você vê cada vez mais mulheres e pessoas velhas no campo". O pesquisador afirma que a lacuna entre o campo e a cidade está crescendo. "Apesar da chamada nova política do campo comunista, especialmente no que diz respeito à educação e saúde, a situação no interior é muito pior que nas áreas urbanas."
Já o professor britânico crê que as mudanças políticas ocorrerão com a nova geração no poder, representada pelo presidente Hu Jintao e pelo premiê Wen Jiabao. "O grupo de (presidente) Jiang Zemin (1993-2003) veio de Xangai, e era na maioria de engenheiros, esse tipo de pessoas", explica. "A nova liderança é composta por advogados, mais bem educados e mais novos."
Segundo Ven, é nítida a mudança no foco do desenvolvimento para questões sociais e de bem-estar. "Isso é crítico para promover ainda mais a economia de mercado", afirma. "O Estado chinês está agora desenvolvendo instituições de bem-estar, previdência social e saúde, o que demandará tempo e enormes investimentos para uma população tão grande".
Separatismo
Os três especialistas ouvidos pela Folha Online apontaram os tibetanos, uigurs (muçulmanos) e os mongóis como as etnias que querem se separar ou que buscam uma maior autonomia em relação ao governo central.
Para o professor britânico, os chineses com quem conversa "não têm dúvidas" de que o Tibete e Xinjiang (Província onde vive a etnia Uigur) fazem parte da China. Para Ven, a relação entre os grupos étnicos e o governo central devem ser redefinidas. O professor afirma que nem mesmo o dalai-lama (líder espiritual tibetano) quer a total independência da China. "Ele mesmo quer negociar por uma maior e real autonomia."
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Xu diz que os movimentos tibetano e uigur "não têm muitas chances de êxito", por três motivos. Em primeiro lugar, ele aponta para o fato de nenhum dos movimentos contar com o apoio da comunidade internacional --ao menos não dos principais líderes e de organizações como a ONU. O segundo é a dificuldade de um dos grupos em se tornar uma força militar efetiva. Por fim, "o Partido Comunista tem um dos maiores Exércitos e orçamentos de defesa do mundo, então eles poderiam suprimir qualquer tipo de revolta no Tibete e em Xinjiang".
Para o chinês, o único grupo que poderia ameaçar a estabilidade e com chances de um movimento de independência da China seria da região autônoma da Mongólia Interior. Segundo Xu, há um movimento de independência da região e o líder separatista está preso. "A Mongólia (país vizinho) tem sua própria força militar e a Mongólia Interior tem seu movimento separatista", explica. "Então, se houver um movimento de independência que represente uma séria ameaça à China, será da Mongólia, não necessariamente do Tibete ou Xinjiang, como transmitem as emissoras."
Ameaça
Por outro lado, o francês não vê nenhum dos grupos como uma ameaça em potencial à China. Ele cita a política de povoação do território chinês pela etnia Han, a maior do país.
Os han detêm o poder econômico e ajudam a homogeneizar etnicamente o território, fatores que contribuem para a integridade territorial. Segundo Béja, 94% dos chineses são Han, e as minorias respondem por 6%. Durante os protestos de abril em Lhasa, capital do Tibete, várias lojas de han foram incendiadas.
"Não é uma ameaça estratégica, mas é um fator de instabilidade", explica o francês. "E como o partido tem outras fontes de instabilidade --como a polarização da sociedade e a resistência dos camponeses contra o confisco de terras-- os governantes chineses esperam que as minorias étnicas não criem mais uma ameaça ou se aproveitem dos fatores de instabilidade para conseguir suas demandas."
De acordo com Ven, o Exército seria usado para evitar uma possível desintegração. "O que está na mente do Partido Comunista é a separação da Iugoslávia, a desintegração da ex-União Soviética, e as guerras que isso causou, e irão pensar: 'de jeito algum, não e isso o que queremos.'"
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