Massacre da praça da Paz Celestial na China completa 19 anos
da Folha Online
O massacre da Praça da Paz Celestial, ou Tiananmen, completa hoje seu 19º aniversário, condenado ao esquecimento pelo governo chinês, mas com o aumento das pressões internacionais para que Pequim anistie os participantes dos protestos que ainda estão presos.
Como em outros anos, organizações de direitos humanos aproveitaram a data para pedir à China que deixe de esconder a tragédia, chamada eufemisticamente por alguns de "grande erro de Deng Xiaoping", o então líder máximo chinês.
| Andy Rain/Efe |
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| Manifestantes mostram rosas durante ato em frente à Embaixada da China em Londres |
Este ano, os pedidos tiveram maior repercussão por causa da atenção internacional que o país atrai --por sediar os Jogos Olímpicos de 2008, pelo conflito no Tibete e pelo tremor em Sichuan.
O governo americano engrossou o coro. Na noite da última terça o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack, disse em comunicado que a China "teve tempo de sobra para dar a informação completa sobre os milhares de mortos, detidos e desaparecidos".
Algumas das organizações afirmaram hoje que o regime chinês tem neste ano olímpico uma oportunidade histórica para consertar uma de suas páginas mais tristes.
"A China poderia substituir a imagem daquele homem que impediu a passagem dos tanques em 5 de junho de 1989 com outra mostrando a libertação dos prisioneiros da praça da Paz Celestial. Seria um gesto verdadeiramente olímpico", declarou em comunicado Sophie Richardson, diretora da Human Rights Watch (HRW) na Ásia.
Massacre
Organismos de direitos humanos calculam em 3.000 os mortos nos protestos de Tiananmen. Milhares foram presos e outros milhares tiveram de deixar o país. Segundo a HRW,130 pessoas ainda estão presas desde 1989.
Outros foram presos ou punidos nos anos seguintes por tentarem abordar o tema na imprensa. Em 2007, o jornal "Chengdu Wanbao" teve de demitir vários redatores por permitir a publicação de um anúncio de uma linha homenageando as mães das vítimas.
"É lamentável que, há 19 anos, o Partido Comunista se dedique a tentar fazer com que a Primavera de Pequim desapareça da memória por meio de censura e repressão", declarou hoje a entidade Repórteres Sem Fronteiras (RSF) em comunicado.
A censura à informação faz com que muitos dos jovens chineses, da geração do "filho único" e que nasceram a partir dos anos 80, ignorem quase totalmente o que aconteceu em 1989.
Esquecimento
"Quem é este senhor?", pergunta Zhang Yue, um estudante de espanhol ao ver em um vídeo do YouTube da famosa imagem do homem anônimo que parou durante alguns minutos uma coluna de tanques na Avenida Chang'an ("Longa Paz").
As gerações anteriores têm lembranças, mas não muito claras, dos incidentes daquele ano: "Lembro-me de ter passado pela praça da Paz Celestial naqueles dias e de vê-la toda coberta de barracas de campanha, parecia mais uma festa que um protesto", diz Huang Yong, professor de mandarim.
| Ashwini Bhatia/AP |
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| Pequeno memorial em apoio às Mães de Tiananmen, em Dharamsala, Índia |
Os protestos, iniciados em abril de 1989, começaram de fato em um ambiente quase festivo, com estudantes acampados na praça da Paz Celestial, cantando e pedindo pequenas mudanças ideológicas dentro do Partido Comunista, ao qual alguns deles pertenciam.
Entretanto, mais tarde alguns dos protestantes radicalizaram sua postura, como a célebre Chai Ling, estudante que agora vive de sua empresa nos Estados Unidos e que na época gritava palavras de ordem democratizadoras com um megafone.
Também havia divisão no governo chinês sobre como lidar com os manifestantes, que com o passar dos dias criavam o temor de uma queda do regime comunista semelhante às que vinham acontecendo na Europa Ocidental na época.
O então secretário-geral do Partido Comunista, Zhao Ziyang, chegou a se reunir com os estudantes e expressou a eles seu apoio --o que lhe custou o cargo--, mas a vitória acabou sendo da "linha dura" do primeiro-ministro Li Peng, que defendia acabar com os protestos a qualquer preço.
Manifestações
Depois de 19 anos, a China segue calada em relação ao episódio, dando poucas explicações. Uma delas é da associação Mães da Praça da Paz Celestial, liderada por Ding Zilin, que este ano criou um site para tentar restaurar a memória, mas que foi bloqueado pela censura chinesa logo após entrar no ar.
Ding pediu em carta que a bandeira nacional da praça da Paz Celestial seja hasteada hoje a meio mastro em homenagem às vítimas de 1989, assim como ficou há duas semanas por causa dos mortos do terremoto de Sichuan.
Em vez disso, Tiananmen está hoje tomada pelas forças de segurança, com mais policiais que visitantes. Este ano, Pequim quer que sua praça tristemente famosa se torne um local festivo, como em março, quando começou ali o percurso da tocha olímpica dos Jogos de 2008 pelo mundo.
No entanto, manifestações em lembrança do episódio foram realizadas em Hong Kong --único lugar da China onde movimentos políticos e sociais são permitidos-- e em diversas cidades do mundo, como Londres e Dharamsala.
Com Efe
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