Mundo
10/06/2008 - 12h41

Tremor que matou 69 mil pode acirrar controle do governo na China

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

O uso publicitário do tremor de 12 de maio, o forte nacionalismo e os protestos anti-China durante a passagem da tocha olímpica contribuem para a imagem do governo chinês perante a população do país, na opinião de Xu Wenli, um dos principais defensores da democracia da China, que atualmente vive nos Estados Unidos.

"A China é muito boa em propaganda", disse Xu à Folha Online por telefone dos EUA, onde vive desde 2002, quando foi libertado da prisão depois de 16 anos. "As pessoas que vivem na cidade só têm acesso às fotos e artigos fornecidos pela imprensa, controlada pelo governo. Como houve alto controle sobre a informação, não creio que [o tremor] irá afetar o controle do governo, e pode inclusive fortalecê-lo", afirma.

O número de mortos no terremoto de 7,9 graus na escala Richter que atingiu a Província de Sichuan em 12 de maio passa de 69 mil, além de 18 mil desaparecidos e cerca de 373 mil feridos.

Xu, libertado após pressão internacional devido ao seu frágil estado de saúde --resultado dos anos no cárcere--, afirma que a China tem usado sabiamente o nacionalismo, especialmente entre os jovens. "Como o Partido Comunista sempre fomentou o sentimento de que amar o partido é amar a China, ao criticar o partido ou o país você se torna um traidor."

Arte Folha Online

Para Xu, os elogios dos líderes mundiais à resposta que a China está dando ao terremoto também ajuda a melhorar a imagem perante a comunidade internacional.

"O foco da opinião pública mundial está mudando, e o governo chinês é visto de maneira mais positiva. Creio que os comentários positivos, após as duras críticas sobre o Tibete e os direitos humanos, reparam as relações com Pequim", afirma.

Xu diz acreditar que, depois da Revolução Cultural, vê-se agora o surgimento do "segundo Exército Vermelho", em referência à nova leva de nacionalistas. "De maneira geral, não sou otimista. O controle por parte do partido deve continuar por um bom tempo, por causa das mudanças recentes ocorridas na China".

Para ele, entre os diferentes grupos étnicos da China, os mongóis da região autônoma da Mongólia Interior são os que oferecem maior "ameaça à unidade territorial do país".

No entanto, os mongóis não contam com o apoio da comunidade internacional, assim como os tibetanos e os uigurs, que também não têm recursos para se militarizar, muito menos em grau suficiente para fazer frente ao Exército chinês, considerado "um dos maiores do mundo".

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

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Folha Online - Enquanto a China se esforçava para fazer Jogos Olímpicos sem contratempos, simbolizando sua força e união nacional, o país sofreu este forte terremoto, que destaca as profundas desigualdades sociais do país. O senhor acredita que essa disparidade seja uma ameaça ao governo e à unidade nacional da China?

boxun.com
Sobrevivente do tremor do dia 12 de maior na Província de Gansu, vizinha de Sichuan
Sobrevivente do tremor do dia 12 de maio na Província de Gansu, vizinha de Sichuan

Xu Wen Li - O terremoto enfatiza a crescente disparidade social na China, mas como todas a divulgação das fotos sobre o tremor são controladas de perto pelo governo chinês, então a real extensão da disparidade pode ser maior. Tenho outras formas de conseguir fotos, especialmente fora de Sichuan, em Gansu, local que abriga uma grande minoria tibetana, e elas mostram uma situação ainda pior. Eles vivem em uma pobreza ainda maior, suas casas não são de concreto nem de tijolos. Por isso, a área foi completamente destruído pelo terremoto. Casos como esses e fotos como essas não saem na mídia. Isso permitiria ver a amplitude da disparidade social.

Folha Online - Mas essa disparidade pode se tornar uma ameaça ao governo chinês?

Xu Wen Li - A China é muito boa em propaganda. Eles usam o departamento de propaganda, que divulga as fotos e informações. As pessoas que vivem na cidade só têm acesso às fotos e artigos fornecidos pela imprensa, controlada pelo governo. Como houve alto controle sobre as informações, não creio que irá afetar o controle do governo sobre o país, e pode inclusive fortalecê-lo.

Eles estão usando o terremoto deuma forma publicitária muito boa. As olimpíadas não serão realizadas na China porque eles respeitam os valores da paz e dos direitos humanos, ou porque não há uma enorme disparidade social, mas principalmente porque a China realizou uma abertura de mercado com sucesso. Sabemos que houve alguns progressos na economia, especialmente nas cidades e nas áreas costeiras.

AP
Pessoas olham para fotos de vítimas do tremor do último dia 12 de maio na China
Pessoas olham para fotos de vítimas do tremor do último dia 12 de maio na China

Em segundo lugar, a China tem usado sabiamente o nacionalismo, especialmente entre os jovens, como uma ferramenta para inserir um forte orgulho da China. Como o Partido Comunista sempre fomentou o sentimento de que amar o partido é amar a China, ao criticar o partido ou o país, você se torna um traidor. Esse sentimento de nacionalismo, o progresso econômico, e agora o terremoto, com fotos manipuladas, contribuem para reforçar, não necessariamente aumentar o controle do governo sobre o país.

Também sabemos que houve protestos em cidades como São Francisco (EUA), Londres. Por causa disso, vemos que o nacionalismo está ainda mais forte na China, e tanto o terremoto quanto as Olimpíadas estão dando a chance de a China provar ao mundo que a ela é melhor do que se pensa. O tremor, o nacionalismo, os protestos anti-China, tudo isso contribui para o governo chinês parecer melhor para seu próprio povo.

Após o terremoto, diversos líderes mundiais estão elogiando o governo chinês, o secretário-geral da ONU, o Reino Unido, estão elogiando a China pelo rápido resgate e pela preocupação com os chineses. Com isso, o foco da opinião pública mundial está mudando, e o governo chinês está sendo visto de maneira mais positiva. Creio que os comentários positivos, após as duras crítivas sobre o Tibete e os direitos humanos, reparam as relações com Pequim.

Folha Online - Qual é a sua opinião sobre o conceito de sociedade harmoniosa, e as promessas do governo de reparar a diferença de renda entre a China rural e a urbana?

Xu Wen Li - Parte desse discurso pode ser de fato o que desejam alguns membros bem intencionados do partido, mas ao mesmo tempo, parte disso pode ser um esforço para melhorar a imagem perante a comunidade internacional, como fazem o tempo todo --promessas vazias, basicamente. Uma coisa que se deve saber é que 70% da riqueza da China é controlada, essencialmente, por nove pessoas, do comitê de gastos do Politburo (comitê executivo do Partido Comunista), controlando o país e seu futuro. Eles não são eleitos, então não tem nenhum promessa a um eleitorado para cumprir.

De tempos em tempos eles vêem o sofrimento dos chineses pobres. Mas se eles não se preocupam com o que está acontecendo, e ninguém tem força para tirá-los do poder.

A China têm mais bilionários em dólares que os EUA, e isso foi alcançado em pouco tempo. Superficialmente, isso é maravilhoso, a China está indo muito bem, mas a verdade é que 90% dessa riqueza está nas mãos de membros do partido, de seus familiares, ou de pessoas relacionadas a membros do partido, e apenas 10% está nas mãos da população civil, que não é do partido.

Folha Online - O senhor crê que os movimentos separatistas dos tibetanos e uigurs são ameaças ao governo e à unidade nacional?

Xu Wen Li - Qualquer movimento de independência seria, de alguma forma, uma ameaça ao partido e ao país. No que diz respeito aos movimentos separatistas tibetano e uigur, há fatores que os tornam difíceis de serem bem-sucedidos. Primeiramente, a sua pressão por independência da China não tem o apoio da comunidade internacional, ao menos não dos principais líderes mundiais e organizações como a ONU. Segundo, não é provável que eles consigam se organizar em uma força militar efetiva. O Partido Comunista tem um dos maiores Exércitos e orçamentos de defesa do mundo, uma força militar formidável, então eles poderiam suprimir qualquer tipo de revolta no Tibete e em Xinjiang.

Kota Kyogoku/AP
Chineses olham água drenada do lago formado pelo terremoto invadir cidade destruída
Chineses olham água drenada do lago formado pelo terremoto invadir cidade destruída

O Tibete com certeza não tem os recursos para se militarizar. Os uigurs podem ser melhores em combates, mas sua localização geográfica e também sua situação econômica --cercado pela Rússia, aliada da China-- dificulta obter armas e se organizar militarmente.

Se há alguém realmente puder ameaçar a estabilidade e ter chances de um movimento de independência da China seria a Mongólia Interior. O mundo não sabe, houve movimentos de independência na região, e atualmente o líder pela independência da Mongólia Interior está em uma prisão chinesa. A Mongólia tem sua própria força militar, e a Mongólia Interior tem seu movimento separatista, então, se houver um movimento de independência que represente uma séria ameaça à China, certamente será da Mongólia.

Folha Online - Em sua opinião, é provável que a China tenha um sistema democrático um dia?

Xu Wen Li - Agora, a China está em uma encruzilhada perigosa, pois há muitos acadêmicos e jornalistas em Hong Kong pressionando para que as informações sobre o terremoto levem à democracia. Eles pedem relatos mais transparentes, e argumentam que isso agiria em favor da China, especialmente da reputação do país.

Eles também querem alertar o governo sobre o grande número de voluntários. Primeiramente, precisamos nos focar na transparência da imprensa, depois precisamos nos focar no esforços físicos no solo, e não só no que o governo faz. Há um caminho para a sociedade civil, eles estão no caminho certo da democracia, por um lado.

Por outro lado, como o nacionalismo é muito forte, eles têm muitos apoiadores, pessoas nascidas depois de 1980 e de 1990, extremamente fortes e nacionalistas, muito anti-Ocidente, anti-ONU, anti-Reino Unido. Vimos os (supermercados) da rede Carrefour serem atacados após os protestos com a passagem da tocha na França, apesar de não terem nada a ver com os protestos na França. Essas pessoas vêem uma maior transparência da imprensa como uma forma de o Ocidente ir à China e roubar segredos militares para atacar Pequim.

Depois da Revolução Cultural, eu, assim como outras pessoas vemos o surgimento do segundo Exército Vermelho. De modo geral, não sou otimista. O controle por parte do partido deve continuar por um bom tempo, por causa das mudanças recentes ocorridas na China.

 

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