China muda foco de desenvolvimento para questões sociais, diz professor
FERNANDO SERPONE
da Folha Online
O governo da China está mudando o foco de suas políticas --de desenvolvimentistas para sociais e de bem-estar-- segundo Hans van de Ven, professor de história moderna chinesa da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Em entrevista à Folha Online, ele afirmou que a mudança visa promover a economia de mercado.
"O Estado chinês está agora desenvolvendo instituições de bem-estar, previdência social e saúde", disse van de Ven. "Isso demandará investimentos massivos para uma população desse tamanho, e levará muito tempo."
Segundo o professor, que é chefe da Faculdade de Estudos da Ásia e do Oriente Médio de Cambridge, há uma grande disparidade entre os pobres e os ricos chineses, mas muitos se beneficiaram do crescimento econômico dos últimos anos, o que garante a estabilidade política.
| Arte Folha Online |
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Apesar dos altos custos da Olimpíada de Pequim, em agosto, ao mesmo tempo em que cerca de 21,5 milhões de camponeses vivem com R$ 40 centavos por dia, Ven afirma que há um orgulho nacional intenso pelo fato de a China sediar os jogos. "Durante quase dois séculos houve uma sensação de que a China estava em declínio, agora há um sentimento de que ressurge como uma potência, e as pessoas estão orgulhosas", diz o holandês.
Segundo o professor, as rápidas mudanças sociais e econômicas que o país atravessa criam "ansiedade", mas a população acredita que as mudanças políticas virão por meio de uma nova geração no poder. "Creio que as pessoas acreditam que a China irá seguir em direção à democracia, e que vale a pena esperar dez ou 15 anos para isso."
Leia a íntegra da entrevista dada à Folha Online:
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Folha Online - O senhor crê que a desigualdade social seja uma ameaça ao governo chinês e à unidade nacional?
Hans van de Ven - Claro que ainda há muita pobreza em certas áreas da China, inclusive no oeste de Sichuan, e no nordeste, na antiga Manchúria. Mas outras áreas, como Xangai, Cantão (sul) e Pequim (norte) estão progredindo muito rápido. Há diferenças claras de renda entre os mais pobres e os ricos, mas creio que muitos se beneficiaram do crescimento econômico dos últimos 20 anos, e há um medo implícito do caos e da desordem de uma revolução. Não detecto nenhum grande desejo entre a maioria dos chineses por um grande levante. Em relação à Olimpíada, creio que você encontrará poucos chineses que não creiam que isso seja um grande motivo de orgulho. Apesar dos altos custos --houve críticas sobre isso-- há um orgulho nacional intenso pelo fato de a China sediar os Jogos Olímpicos.
Folha Online - Mesmo as pessoas muito pobres das áreas rurais pensam assim?
Hans van de Ven - Eu não conheço de perto as pessoas realmente pobres, mas creio que elas estejam insatisfeitas com o que o governo local faz por elas, mas, ao mesmo tempo, orgulhosas de que a China é um país emergente, que pode fazer coisas tão visíveis como as Olimpíadas. Durante quase dois séculos, houve uma sensação de que a China estava em declínio, agora há um sentimento de que o país ressurge como uma potência, e as pessoas estão orgulhosas.
Não creio que a China terá uma revolução, ou grandes levantes sociais. Quem sabe o que ocorrerá no futuro? Eu não posso prever, mas tenho viajado muito para lá. Creio que há uma forte sensação de dinamismo e otimismo, e há uma clara insatisfação com a corrupção e outras questões importantes.
Há também muita ansiedade, o país está passando por diversas mudanças políticas rápidas. Creio que a maioria pensa: "Bem, as mudanças políticas que gostaríamos de ver virão com a nova geração no poder. Creio que a transição de poder entre o ex-presidente Jiang Zemin (1993-2003) e Hu Jintao e Wen Jiabao é importante. O grupo de Jiang Zemin veio de Xangai, e eram na maioria engenheiros. A nova liderança de Hu Jintao e Wen Jiabao é composta por advogados que passaram pela Revolução Cultural, são mais bem educados e mais novos. Creio que as pessoas acreditam que a China irá seguir em direção à democracia, e que vale a pena esperar dez ou 15 anos para isso. A nova liderança estabeleceu suas credenciais redirecionando investimentos de lugares como Xangai para o interior. Creio que o fluxo massivo de ajuda que está seguindo para a Província de Sichuan agora, para as regiões do terremoto [de 12 de maio que matou mais de 69 mil], é um exemplo disso.
Folha Online - Como o senhor avalia a resposta do governo ao tremor?
Hans van de Ven - Eles foram rápidos, mas há algumas etapas a serem seguidas em situações como essa. Uma delas é levar água, barracas, alimentos, remédios, que é muito importante, e creio que esteja sendo cumprida. A próxima etapa, que é muito difícil, é a reconstrução da área devastada, a de levar milhões e milhões de pessoas de volta a suas casas, reconstruir escolas, reconstruir a infra-estrutura. Isso demandará um investimento massivo e muita energia, durante um período longo. O que espero é que estrangeiros como você continuem a prestar atenção à essa história particular, é quando o desafio realmente virá. A resposta imediata parece estar sendo dada, mas a resposta a longo prazo é difícil, como se vê em Nova Orleans [em Lousiana, nos EUA, uma das cidades mais atingidas pela passagem do furacão Katrina pelo sul dos EUA, em 2005].
A outra questão que eu gostaria de ressaltar é se o governo está fazendo coisas efetivas para ajudar as pessoas nas áreas do desastre. Espero que o governo chinês não esteja usando este desastre humano simplesmente para melhorar sua própria imagem. É também uma oportunidade de relações públicas, e a China a está usando muito bem, mas isso me deixa desconfortável. Eles precisam ser honestos sobre os problemas existentes e o que farão para resolvê-los, e não tentar lucrar com isso em uma perspectiva de relações públicas.
Folha Online - A irritação com o desabamento de milhares de escolas e de casas de pobres, e essa resposta de longo prazo, que não sabemos como será, pode criar um tipo de movimento contra o governo?
Hans van de Ven - Há duas coisas a se ter em mente. Uma delas é que as pessoas podem estar muito irritadas com o governo local, e o governo central pode tentar, se houver uma irritação geral, reverter o foco da insatisfação para o governo local. A outra questão é que, nos anos 60 e 70, muito investimento foi feito em Sichuan, pois havia o medo de uma invasão dos EUA. Diversas fábricas foram criadas e elas, sem dúvida, foram construídas de forma precária, e são velhas hoje. Seguindo as reformas, a atenção se voltou ao desenvolvimento da costa, muito menos foi investido nessas áreas para manter a produtividade.
Há muito desemprego, e migrantes irão se espalhar pela China vindos dessa área. O que acontecerá com eles é outra questão. Se isso se tornará em um movimento para derrubar o governo, não vejo base política para isso. As pessoas com certeza ficaram irritadas, e com direito, já que cabe ao governo responder adequadamente.
Folha Online - Qual é a sua opinião sobre a teoria de "deixar o bolo crescer para depois dividi-lo"?
Hans van de Ven - A política atual está além desse tipo de discurso. Essa era a teroria o presidente anterior, quando ainda havia pouca redistribuição, mas o novo governo redirecionou os investimentos para as áreas mais pobres. Isso dependerá da cooperação dos governos provinciais.
Folha Online - Agora se aplicaria mais o conceito de "sociedade harmoniosa"?
Hans van de Ven - Sim. Essa idéia é sobre uma distribuição geográfica mais justa dos lucros do rápido crescimento econômico das últimas décadas.
Folha Online - Como o senhor avalia essa política?
Hans van de Ven - Quero ver mais. É um passo na direção certa. Mas desenvolver essas áreas irá exigir investimentos por longo tempo.
Folha Online - O sr. vê uma mudança de foco do desenvolvimento para as questões sociais e de bem-estar?
Hans van de Ven - Sim. Com certeza, e isso é crítico, para promover ainda mais a economia de mercado. O Estado chinês está agora desenvolvendo instituições de bem-estar, previdência social e saúde. Isso demandará investimentos massivos, para uma população desse tamanho, e levará muito tempo.
Folha Online - O sr. vê os movimentos separatistas do Tibete e Uigur como uma séria ameaça ao governo chinês e à unidade nacional do país?
Hans van de Ven - O que está acontecendo nessas áreas é horrível. Sabemos de apenas metade do que ocorre, no máximo. São dois problemas difíceis. Há muitos tibetanos vivendo pela China, muitos han vivendo no Tibete, assim como nas áreas dos uigur em Xingiang. Se houvesse um movimento de independência, como resolver questões práticas, como definição de fronteiras, realocação de populações (...)
Os chineses com quem falo não tem dúvidas de que o Tibete e Xinjiang fazem parte do que chamam de China. Claro que os tibetanos e a maioria das pessoas em Xingiang pensam bem diferente. Esse será um daqueles problemas de longo prazo, que segue voltando às manchetes e é muito difícil de encontrar uma solução política.
Folha Online - Mas o senhor não crê em uma desintegração?
Hans van de Ven - Não. A relação deve ser redefinida --isso também levará tempo. Mas creio que os chineses responderiam com força qualquer tentativa de criação de um Tibete completamente independente e separado. Isso também não é o que o [líder espiritual tibetano] dalai-lama quer. Ele mesmo quer negociar por uma maior e real autonomia, não está pedindo nesse momento por independência total. Espero que o governo de Pequim e o dalai-lama consigam achar uma acomodação através do diálogo. Se isso não acontecer, a situação só irá se deteriorar, e ninguém será beneficiado. Mas isso irá requerer grande sabedoria dos dois.
Folha Online - Em sua opinião o senhor vê alguma meaça séria ao governo chinês e à unidade do país?
Hans van de Ven - Não neste momento. A idéia de que a China está à beira do colapso não é um sentimento presente quando você esta lá. Não há esse tipo de tensão e incerteza. Ficaria extremamente surpreso se isso ocorresse em alguns meses.
Folha Online - O Exército não iria deixar isso acontecer (...)
Hans van de Ven - O Exército seria usado para impedir isso, há uma organização política muito forte no Partido Comunista. Eles se recordam da separação da ex-Iugoslávia, dos problemas que isso causou, da desintegração da ex-União Soviética, e das guerras que isso causou. E pensam: "Não é o que queremos".
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