Mundo
13/06/2008 - 19h08

Che foi precursor da crítica ao socialismo soviético, diz professor

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FERNANDA BARBOSA
Colaboração para a Folha Online

Após passar pela ex-Tchecoslováquia, Ernesto Che Guevara escreveu sobre os problemas do chamado "socialismo real", tornando-se o precursor das críticas ao regime implantado pela ex-União Soviética (URSS), segundo o argentino Osvaldo Coggiola, pós-doutor em História e professor da Universidade de São Paulo.

Segundo o estudioso, o guerrilheiro argentino ganhou mais projeção com a possibilidade atual de "confrontos de natureza revolucionária" na América Latina, onde Che representa a "mais recente memória" da revolução.

Reprodução
Fidel Castro (à esq.) e Che Guevara, líderes da Revolução cubana, em fotografia de 1959
Fidel Castro (à esq.) e Che Guevara, líderes da Revolução cubana, em fotografia de 1959

"Nós vemos que ele [Che] é colocado na Venezuela ao lado do [atual presidente] Hugo Chávez, e até mesmo de Jesus Cristo, como uma espécie de figura histórica que continua a inspirar", disse o professor da USP em entrevista por telefone à Folha Online.

Para Coggiola, a morte de Che foi decorrência de "planos mal calculados" na Bolívia, onde não se sabia se ele queria "criar uma guerrilha para fazer a revolução no país", ou uma espécie de "centro de treinamento para estendê-la para outros países latino-americanos".

De acordo com o professor, o revolucionário fracassou por não considerar as diferenças entre os países latino-americanos e tentar fazer "um movimento de natureza política única".

Na opinião de Coggiola, Che Guevara "não era santo", mas apresentar como "ditador sanguinário" alguém que "deixou para trás todas as possibilidades de uma vida mais calma para se engajar em conflitos revolucionários" é algo "caricaturado" e "deturpado". "O legado político de Che tem que ser discutido criticamente, e a figura dele tem que ser humanizada", afirma o professor.

Veja a íntegra da entrevista com Oswaldo Coggiola:

Folha Online - A figura de Che Guevara influenciou os movimentos antiditadura na América Latina?

Oswaldo Coggiola - A figura do Che [influenciou] somente se for ligada à Revolução Cubana. Os movimentos antiditadura foram democráticos. O Che não tinha uma influência especial sobre eles. Sua imagem se torna mais popular depois da queda das ditaduras, quando os símbolos puderam ser expostos abertamente. Nesse momento, o Che aparece muito forte como um ícone de mudança revolucionária.

Marcos Brindicci-27.mai.2008/Reuters
Estátua de Che de quatro metros de altura e duas toneladas é transportada próxima ao monumento obelisco em Buenos Aires
Estátua de Che de quatro metros de altura e duas toneladas é transportada próxima ao monumento obelisco em Buenos Aires

Folha Online - A morte dele contribuiu para reforçar essa imagem?

Coggiola - Em primeiro lugar, ele morreu jovem, com menos de 40 anos de idade e combatendo. Então, apesar de muitas frustrações da esquerda da América Latina, ele é visto como uma pessoa que lutou até as últimas conseqüências. Nisso pesa o fato de ele ter escolhido uma outra vida após a Revolução Cubana, fora de cargos importantes no governo. Ele escolheu continuar a luta revolucionária em outras regiões, e por isso é um símbolo de conseqüência revolucionária, o que fez crescer a sua imagem de modo gigantesco. Ele se transformou em um ícone não somente de pureza revolucionária, mas de pureza humana e do desinteresse em um mundo cheio de corrupções e de compromissos.

Folha Online - A imagem do Che propagada hoje em dia continua com esse mesmo viés?

Coggiola - Sim. Claro que há a mercantilização da sua figura, mas ele continua com uma imagem muito forte, que não irá desaparecer. As circunstâncias históricas que fizeram nascer essa imagem continuam presentes. Logicamente que não é necessário mistificar o Che. Mas, por mais campanhas que se faça tentando mostrá-lo como um ditador, um maluco, a sua imagem ainda continuará forte por bastante tempo.

Folha Online - Che Guevara é considerado por simpatizantes uma espécia de "herói romântico". Já opositores o vêem como um "ditador sanguinário". Como o sr. vê essa contradição?

Coggiola - Ele não era santo, não faz sentido as pessoas o verem como uma espécie de "reencarnação de Jesus Cristo". O legado político de Che tem que ser discutido criticamente, e a figura dele tem que ser humanizada. Por outro lado, pensar que uma pessoa arriscou sua vida e deixou para trás todas uma vida mais calma para se engajar em conflitos revolucionários no mundo todo, seria um ditador sanguinário que queria oprimir as pessoas é uma imagem absolutamente caricaturada. É uma deturpação da imagem do Che.

Efe
Ernesto Che Guevara (à dir.) e seu amigo Alberto Granado cruzam o rio Amazonas durante viagem pela América Latina, em 1952
Ernesto Che Guevara (à dir.) e seu amigo Alberto Granado cruzam o rio Amazonas durante viagem pela América Latina, em 1952

Folha Online - E qual é o legado político dele?

Coggiola - De um lado, é a vontade revolucionária que se sobrepõe às circunstâncias. Contrariamente ao conformismo que pareciaa mostrar que as mudanças revolucionárias aconteceriam pelo simples desenrolar da História, Che mostrou que essas transformações implicavam em uma vontade humana deliberada e consciente.

Por outro lado, no que diz respeito especificamente à questão da guerrilha, é claro que esse legado é muito mais confuso e ambíguo, porque diversos grupos políticos fracassaram na década de 70, principalmente porque tentaram fazer um movimento de natureza revolucionária única, independentemente das circunstâncias que atravessava cada país. E isso foi um completo fracasso político, como se viu na história da América Latina.

É um legado político contraditório, que precisa ser avaliado e discutido. O pensamento de Che era bastante amplo na construção de um Estado socialista. Ele combateu os mecanismos burocráticos com textos que só agora estão sendo conhecidos em Cuba. É um legado amplo, que deve ser avaliado com calma.

Folha Online - Qual é a influência de Che sobre a esquerda atual?

Coggiola - A esquerda é muito ampla. Se contabilizarmos o PT como esquerda, está claro que Che aparece apenas como referência alegórica. Em outros setores da esquerda, ele é levado mais a sério, sobretudo nos tempos que se avizinham, na medida em que confrontos de natureza revolucionária podem ocorrer em vários países, inclusive na América Latina. A herança revolucionária mais recente do continente é Che Guevara.

Mas nós vemos agora que ele é colocado na Venezuela ao lado do [atual presidente] Hugo Chávez, e até mesmo de Jesus Cristo, como uma espécie de figura histórica que continua a inspirar. Ninguém na esquerda pode ignorar Che Guevara. O exemplo da vida dele continua muito forte.

Reprodução
Che Guevara, o médico argentino que lutou na Revolução Cubana
Che Guevara, o médico argentino que lutou na Revolução Cubana

Folha Online - A passagem pela Europa influenciou as idéias de Che?

Coggiola - Ele permaneceu na ex-Tchecoslováquia por um tempo e teve oportunidade de observar os problemas do chamado "socialismo real". Che escreveu textos que estão sendo resgatados e publicados nos últimos anos, pela primeira vez criticando as deformações e as deturpações desse suposto socialismo, e anunciando que ele não teria futuro. Ele pode ser visto, então, como um precursor nessa crítica.

Folha Online - Depois de presenciar o "socialismo real" na Europa, qual era a intenção dele na Bolívia?

Coggiola - A luta dele era estender a revolução latino-americana. Mas é duvidoso, existem várias polêmicas a respeito da guerrilha na Bolívia. Alguns dizem que ele queria de fato criar uma guerrilha para fazer a revolução no país. Outros afirmam que o que ele pretendia era criar uma espécie de centro de treinamento para estender a guerrilha não especificamente para a Bolívia, mas para outros países latino-americanos.

Ele veio, portanto, continuar o combate na Bolívia, mas seus planos não foram bem calculados, por isso ocorreu o fracasso político, e ele pagou com sua vida.

 

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