Para ex-guerrilheiros, Che inspirou a luta armada no Brasil
FERNANDA BARBOSA
Colaboração para a Folha Online
Em 1959, quando Ernesto Che Guevara, Fidel Castro e outros revolucionários conseguiram derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista em Cuba e estabelecer um novo governo --cujo caráter socialista foi anunciado em 1961-- o Brasil era governado por Jânio Quadros, e só conheceria a ditadura militar cinco anos depois.
A luta armada brasileira teria seu ápice apenas em 1968, meses após Che ser morto a tiros na Bolívia, em 9 de outubro de 1967. No entanto, o exemplo do líder guerrilheiro permaneceu como um "ideal" para os brasileiros.
| 13.dez.1964/AP |
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| Che Guevara participa do programa "Face the Nation", na emissora CBS-TV, em Nova York |
Para Antônio Roberto Espinosa, doutorando em Relações Internacionais na USP e ex-comandante das organizações armadas VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares), Che era, na época, um "símbolo de abnegação revolucionária".
"Ele era um cara que havia deixado os confortos do poder, de uma revolução vitoriosa, para mergulhar novamente nos riscos da Revolução", afirmou Espinosa em entrevista à Folha Online.
Também professor da Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), Espinosa publicou um livro sobre a época da ditadura: "Abraços que sufocam".
Grande parte do prestígio de Che decorreu de sua saída de Cuba, quando ele deixou um cargo político estável para tentar expandir o socialismo. Para Carlos Eugênio Paz, músico, escritor e ex-membro do comando nacional da ANL (Aliança Nacional Libertadora), Che "não admitia privilégios" e, por isso, "chegou a ter mais prestígio entre o povo cubano que o próprio Fidel (Castro)".
"O que tinha se visto até então era que, quando um povo conseguia a revolução, as pessoas se apegavam ao poder e ficavam em seu país tentando construir uma nova sociedade. (...) Ele [Che] largou o cargo no governo para lutar em um país estrangeiro", diz Paz, que possui dois livros publicados sobre o período da ditadura militar brasileira: "Viagem à luta armada" e "Nas trilhas da ALN".
Mito
| Natacha Pisarenko-27.mai.2008/AP |
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| Argentino amarra uma bandeira de seu país no pescoço da estátua de Che Guevara |
Para o professor, Che "já era um mito em vida", embora sua "aura mítica" tenha aumentado após sua morte.
Segundo Espinosa, o fato de Che ter morrido "na flor da idade, bonito e charmoso" era um "padrão desejável" para alguém que havia "renunciado ao poder por uma idéia" e tornou ainda mais forte a sua imagem.
De acordo com Paz, a primeira influência de Che para a ALN foi o "exemplo de lutar, de não ter apego ao poder, e de não transformar a política em uma carreira, e sim e em uma luta por melhores condições".
Espinosa explica que, em 1967, antes da morte de Che, a esquerda lia seus livros e os de Regis Debray (intelectual francês), que falavam sobre a Revolução Cubana e a possibilidade de se adotar uma estratégia de guerrilha partindo de um pequeno grupo, sem um partido formado, o que influenciou a luta armada brasileira.
Influência negativa
| 08.out.1968 - José Nascimento/FI |
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| Manifestante é preso por agentes policiais no centro de São Paulo |
No entanto, para Paz, Che também influenciou negativamente a guerrilha brasileira do ponto de vista das "táticas, estratégias e formas de luta".
"Cada país, cada momento, gera estratégias de luta completamente diferentes. E essa tendência de tentar se repetir no Brasil o que ocorreu em Cuba não deu certo. Os dois países são diferentes em tamanho, em sua constituição histórica, no cenário das classes sociais", afirmou.
Para Paz, quando Che e Fidel chegaram a Cuba para fazer a guerrilha, já existiam grupos combatendo, "inclusive com armas na mão", "camponeses rebelados contra a ditadura de Fulgêncio Batista".
"No Brasil, não havia nenhum tipo de clima pré-revolucionário, onde o povo se mobilizasse para lutar. E nós não conseguimos que uma parte da população brasileira aderisse, não só às propostas, mas a abandonar sua vida e pegar em armas por uma causa comum", acrescentou.
Imagem atual
| Enrique Marcarian-27.mai.2008/Reuters |
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| Estátua de Che de quatro metros de altura e duas toneladas é carregada em Buenos Aires |
Espinosa se diz "surpreso" com a atual expansão da imagem do Che. "Eu vejo a garotada, sobretudo na periferia, com camisetas com a foto do Che. Não sei se eles sabem o que ele significa", afirmou.
Para o professor, o líder revolucionário foi incorporado pela sociedade capitalista como um rebelde, mas, a partir do momento em que foi incorporado, se tornou um "rebelde permitido".
"Ele foi iconizado e aceito pela sociedade de consumo. Aceito com a cara do revolucionário, do rebelde. Mas uma rebeldia consentida", acrescentou.
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