Impasse entre campo e governo se torna violento na Argentina
da Folha Online
O impasse de três meses entre o governo da Argentina e fazendeiros iniciado com o aumento de impostos sobre a exportação de grãos se tornou violento neste sábado, quando a Polícia Militar entrou em confronto com manifestantes para tentar desfazer os bloqueios em estradas no interior.
O conflito se tornou o maior desafio do governo da presidente Cristina Kirchner, que assumiu há seis meses. O locaute dos produtores abalou seu índice de aprovação, apesar do crescimento econômico do país.
A disputa teve início no meio de março, quando o governo aumentou os impostos sobre exportações do principal produto agrícola do país, a soja.
Os fazendeiros protestaram contra a medida, paralisando o comércio de grãos, o que fez com que caminhoneiros --que ficaram sem trabalho com a paralisação-- bloqueassem estradas nesta semana para que o impasse seja resolvido.
O governo anunciou um acordo parcial com os caminhoneiros na noite de sexta-feira, mas ele se mostrou falho neste sábado.
A Polícia Militar retirou à força os manifestantes de uma estrada da Província de Entre Rios, artéria crucial para o comércio regional, para permitir que os caminhões carregando comidas e outros produtos possam passar, a fim de conter o crescente desabastecimento.
A polícia também deteve brevemente um dos líderes dos produtores rurais, desencadeando novos bloqueios por parte dos fazendeiros.
"Isso não pode ser resolvido com violência (...) O governo deve mostrar alguma humildade", disse Eduardo Buzzi, chefe da Federação Agrária Argentina, um dos quatro grupos de produtores rurais que lideram os protestos.
Dezenas de manifestantes anti-governo em Buenos Aires foram às ruas ou a sacadas para fazer panelaços, em demonstrações que remontam à crise político-econômica argentina de 2001. Houve ainda protestos do lado de fora da residência presidencial, em um rico subúrbio da capital.
Durante a tarde, centenas de manifestantes pró-governo se reuniram na praça de Maio.
Desabastecimento
"Não é possível que as demandas de um setor tenham deixado o país no limite nos últimos 94 dias", disse o ministro do Interior, Florencio Randazzo.
Falando à televisão, o ministro rechaçou a idéia de que a Polícia Militar tenha sido muito dura com os manifestantes. "A polícia não tinha armas ou gás lacrimogêneo, eles simplesmente queriam mover (os manifestantes) para fora da estrada, e eles resistiram. De fato, houve muito mais violência por parte dos fazendeiros do que da polícia", disse Randazzo.
Imagens de TV mostraram confrontos entre os manifestantes e a polícia. Centenas de pessoas se uniram aos fazendeiros e forçaram a polícia a se retirar.
No meio de março, o governo impôs um sistema de imposto progressivo sobre as exportações de grãos, que reduziram os lucros dos fazendeiros, irritando um setor que já é alvo de forte intervenção do Estado.
Apesar de membros do governo terem modificado o esquema de impostos, os fazendeiros dizem que não é o suficiente, e continuam a demandar que o governo negocie uma solução.
Os bloqueios de sábado aumentaram o desabastecimento de comida e combustíveis em diversas partes do país.
Enrique Salvador, presidente da federação de pequenos mercados em Buenos Aires, disse que o estoque de alimentos como arroz, laticínios e farinha diminuíram cerca de 35%. Fernandez defende a alta nos impostos como uma forma de conter a inflação dos alimentos e de redistribuir a riqueza.
Com Reuters
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