Mundo
19/06/2008 - 14h26

Governo brasileiro se diz satisfeito com cessar-fogo em Gaza

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da Folha Online

O governo brasileiro divulgou uma nota oficial nesta quinta-feira afirmando ter recebido com "satisfação" o início do cessar-fogo entre Israel e o grupo extremista islâmico Hamas na faixa de Gaza.

De acordo com o texto, divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores, o Brasil "espera que esse acordo represente passo decisivo com vistas a atenuar a grave situação humanitária na faixa de Gaza e a pôr fim aos ataques contra a população civil israelense".

Arte Folha Online
mapa gaza

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas na faixa de Gaza teve início às 6h desta quinta-feira (0h de Brasília). Nas primeiras horas da trégua, não foram registrados incidentes.

A nota também informa que o Brasil reconhece o papel central do Egito na obtenção do acordo para o cessar-fogo e ressalta a expectativa brasileira de que o acordo possa facilitar o processo para obtenção da paz na região.

"O Brasil manifesta sua expectativa de que a consolidação de ambiente de calma e paz na região facilite a consecução de avanços concretos no processo de paz e o cumprimento dos entendimentos alcançados na conferência de Annapolis", diz a nota.

Israel e a ANP (Autoridade Nacional Palestina) se comprometeram na conferência de Annapolis (EUA), no ano passado, a chegar a um acordo de paz antes do final de 2008.

Cessar-fogo

O cessar-fogo teve início um dia depois que cerca de 30 foguetes Qassam (de fabricação caseira) foram disparados de Gaza contra comunidades ao longo da fronteira, ferindo levemente uma mulher, informou o jornal israelense "Haaretz".

Momentos antes do início da trégua, a Força Aérea israelense matou um homem que se preparava para lançar um foguete perto do campo de refugiados de Bureij, no centro de Gaza. Fontes palestinas disseram, segundo o "Haaretz", que o homem morto era um militante do Hamas.

A trégua entre os israelenses e os militantes do Hamas teve início, mas ambos os lados se mostraram céticos sobre quanto durará o cessar-fogo intermediado pelo Egito e anunciado na última quarta-feira (18).

O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, disse ao jornal "Sydney Morning Herald" que o pacto de trégua era a última chance de o grupo extremista evitar outra incursão militar na faixa de Gaza. "Acho que a estratégia do Hamas, que não quer reconhecer o direito de Israel de existir, e o extremismo, e o fanatismo, e o dogmatismo religioso, são inimigos da paz", disse.

Olmert advertiu ontem que o cessar-fogo acordado entre as forças de Israel e o Hamas pode ser "frágil" e durar pouco. "Não temos ilusões. A trégua pode ser frágil e breve. O Hamas não mudou", afirmou Olmert durante coletiva de imprensa em Bet Yehoshua, ao norte de Tel Aviv. "Se o terrorismo continuar, Israel deverá trabalhar para conter a sua ameaça", disse o primeiro-ministro. Segundo ele, o Exército de Israel está "preparado" para o caso de a trégua fracassar.

Trégua

Na última quarta-feira (18), o Egito e o Hamas, que controla a faixa de Gaza desde o ano passado, anunciaram que um cessar-fogo entraria em vigor a partir desta quinta-feira.

Wissam Nassar/AP
Homens armados palestinos deixam suas posições após início do cessar-fogo
Homens armados palestinos deixam suas posições após início do cessar-fogo

"Quinta-feira será o começo do que esperamos que seja uma nova realidade em que os cidadãos israelenses no sul não receberão mais os contínuos ataques de foguetes", disse ontem o porta-voz do governo de Israel, Mark Regev, confirmando o acordo de trégua. "Israel está dando uma séria chance à iniciativa do Egito e queremos que seja bem-sucedida", acrescentou.

O cessar-fogo tem o objetivo de acabar com aos freqüentes ataques com foguetes e morteiros contra Israel vindos da faixa de Gaza, assim como as investidas militares e ataques aéreos israelense no território.

Autoridades israelenses e palestinas disseram que, sob o acordo de trégua, o bloqueio imposto por Israel à faixa de Gaza há um ano, quando o Hamas assumiu o controle da região, seria amenizado gradual e parcialmente.

A segunda fase do pacto deve se focar na entrega do soldado israelense Gilad Shalit, que foi seqüestrado por grupos ligados ao Hamas em junho de 2006, há quase 2 anos. Em troca, Israel reabrirá a principal passagem de Gaza, a de Rafah, que liga a área ao Egito.

A passagem --a mais usada pelos 1,4 milhão de habitantes de Gaza-- foi fechada há um ano, depois que o Hamas assumiu o controle da região. O fechamento impediu que muitos saíssem de Gaza para obter assistência médica, ter acesso aos estudos e ver a família.

Compromisso

As Brigadas Izzedin al Qassam, braço armado do movimento extremista Hamas, expressaram hoje seu compromisso com a trégua estipulada na faixa de Gaza.

A milícia do Hamas assegurou, em comunicado distribuído aos jornalistas ao início do cessar-fogo, que está "comprometida com esta trégua", mas que esta "não representa um presente" para Israel.

Dan Balilty/AP
Soldados israelenses jogam futebol perto de um tanque na fronteira com a faixa de Gaza
Soldados israelenses jogam futebol perto de um tanque na fronteira com a faixa de Gaza

"Este acordo traz um período necessário para aliviar o sofrimento de nossa gente. Esta trégua não é um presente gratuito às forças de ocupação", acrescenta na nota, na qual afirma que a milícia se "vingará com dureza no caso de Israel violar a trégua".

"Estamos preparados para dar um golpe militar que faça tremer a entidade israelense caso a ocupação não mostre um compromisso com os termos da trégua", adverte a milícia na mensagem.

O porta-voz do Hamas em Gaza, Sami Abu Zuhri, também mostrou nesta manhã a intenção de seu grupo de fazer cumprir o cessar-fogo. "Trabalharemos para que a trégua tenha êxito", afirmou.

O Jihad Islâmico (grupo extremista palestino) e outras milícias palestinas em Gaza também afirmaram que cumprirão a trégua, em panfletos distribuídos nesta manhã, que também advertem para a possibilidade de "duras represálias" caso Israel descumpra sua parte no acordo.

Ajuda internacional

Na opinião de Shaul Mishal, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de Tel Aviv, entrevistado nesta terça-feira por telefone pela Folha Online, o sucesso do cessar-fogo dependerá da ajuda do Egito e da ANP (Autoridade Nacional Palestina).

"Há profundas diferenças e suspeitas entre eles [Israel e o Hamas]. Qualquer coisa pode minar o cessar-fogo, a não ser que haja mais partes para ajudar a manter o acordo, como o Egito, a Arábia Saudita ou a União Européia", disse o especialista em entrevista dada por telefone de Tel Aviv à Folha Online.

Para o analista, a trégua "abre as portas para uma negociação maior de fronteiras com os árabes", mas o conflito ainda está "muito longe de terminar".

Sobre a negociação para a entrega de Shalit, o professor disse acreditar que as chances de troca de prisioneiros --que poderia resultar na libertação do soldado israelense--serão bem maiores "se o cessar-fogo for mantido pelos próximos seis meses".

Com agências internacionais

 

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