Sob acusações, partido governista pode ser banido na Turquia
FERNANDO SERPONE
da Folha Online
No poder desde 2002 e considerada uma legenda islâmica moderada, o Partido Justiça e Desenvolvimento (AK) foi reeleito em 2007 com 47% dos votos e desfruta de ampla maioria no Congresso -- que criou uma emenda permitindo o uso do véu islâmico nas universidades. A vestimenta é proibida nas instituições públicas.
No entanto, sofrendo acusações de atentar contra o caráter laico do Estado e de tentar impor a sharia (lei islâmica), o partido governista agora está prestes a ser colocado na ilegalidade na Turquia.
Sob o comando do AK, a Turquia vem tendo um bom desempenho econômico --conseqüência também da conjuntura internacional--, mas que começa a apresentar problemas. O partido realizou importantes reformas econômicas e políticas, concedeu mais direitos às minorias e mulheres e começou a discutir a entrada na União Européia (UE) com o bloco.
| Arte/Folha Online |
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Segundo a revista "Economist", o AK foi mais liberal e teve mais sucesso que qualquer governo secular anterior.
Porém, tal panorama não impediu que a Justiça turca, considerada a guardiã do Estado laico turco --assim como o Exército-- agisse para banir o partido e 71 de seus membros, entre eles o presidente do país, Abdullah Gul, e o premiê, Recep Tayyp Erdogan.
A criação do Estado turco, sobre as ruínas do Império Otomano, em 1923, teve como principal protagonista o militar Mustafa Kemal Atatürk. A base mais sagrada do Estado fundado pelo militar é o secularismo.
Desde 1961, 24 partidos já foram banidos, acusados de violar o caráter laico do Estado ou de serem pró-curdos. O próprio AK é oriundo de duas legendas banidas.
| Burhan Ozbilici/AP |
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| O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em discurso ao Parlamento |
Sharia
Para Amir Hassanpour, professor de Civilizações do Oriente Médio e Próximo da Universidade de Toronto, o AK pretende impor a sharia. "Não tenho dúvidas de que é o que eles desejam, mas é muito difícil fazer isso de uma só vez na Turquia", afirmou em entrevista por telefone à Folha Online.
Segundo Hassanpour --que é curdo iraniano-- há um descontentamento com a república turca porque, no passado, o governo "sempre advogou em nome do secularismo".
No entanto, Senem Aydin, pesquisadora do Center for European Policy Studies, discorda. Para ela, dizer que o partido quer impor a sharia é "uma afirmação muito exagerada".
De acordo com Aydin, o AK é a favor de "islamizar a sociedade" e de ter uma sociedade turca "mais religiosa", mas não pretende impor a sharia.
Cerca de 99,8% dos 72 milhões de turcos são muçulmanos, em sua maioria sunitas.
A pesquisadora afirma que o partido "provavelmente será banido", e que a proibição do uso do véu sugere "que membros da Corte irão decidir em massa em favor do fechamento (do partido)".
Questão Política
Segundo o professor, antes de ser religiosa, a questão está ligada à política. "Há um processo legal na superfície, mas sob a superfície há uma luta política do Exército e de políticos seculares de um lado, e de nacionalistas muçulmanos de outro", diz Hassanpour. "Os grupos políticos lutam pelo poder e tentam resolver seus problemas através do sistema legal," explica.
De acordo com a "Economist", para muitos, se trata de um golpe do Judiciário --"uma última tentativa de se manter no poder de uma elite que se recusa a dividir a riqueza e o espaço social com uma crescente classe de turcos fiéis, simbolizados pelo AK".
| Yuriko Nakao/Reuters |
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| O presidente da Turquia, Abdullah Gul, consierado islâmico moderado |
"A luta pelo hejab (véu islâmico) não é apenas pela religião, é também uma oposição ao Estado que advoga o secularismo", afirmou Hassanpour, para quem o uso do véu é "cada vez maior".
O iraniano compara a Turquia com seu país natal, onde as estudantes tiram o véu "porque estão lutando contra um regime teocrático, e combater o hejab é um indicativo". "Não é que as pessoas na Turquia sejam mais religiosas que no Irã", explica. "Em parte, é a situação política que determina como a religião é usada."
O professor cita vários casos em que a religião foi usada com fins políticos. Segundo ele, quando a esquerda estava em ascensão, o Exército turco fomentou a religião para combater o socialismo. Mesmo os EUA foram "aliados do islã fundamentalista no Afeganistão no fim dos anos 1970", a fim de conter a expansão soviética.
Já Aydin afirma que há uma parcela significante da sociedade "que está contente com o secularismo, mas que também quer ver um relaxamento sobre o banimento do véu". Para ela, as divisões dentro da sociedade turca, apesar de crescentes, não são tão bem definidas.
Comunidade Internacional
Para Hassanpour, os EUA e a UE querem que a Turquia se torne um "modelo político" para o resto do mundo islâmico, e que "há um interesse internacional em manter um partido islâmico moderado no poder na Turquia".
O iraniano diz ver uma contradição no fato de que "o kemalismo [ideologia baseada nos princípios de Kemal Atatürk (1881-1938)] sempre quis que a Turquia fosse parte da Europa" e que, quando um partido islâmico tenta fazer com que o país entre no bloco, a elite secular se esforça para retirá-lo do poder.
Mesmo o esforço do partido em ingressar na UE seria um indicativo de que o partido "não é tão islâmico".
| Umit Bektas/Reuters |
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| Turcas realizam protesto em defesa do véu islâmico, proibido em instituições públicas |
O professor defende que o Ocidente não só não teme o islã ou regimes teocráticos como os "usa a seu favor" --citando a Arábia Saudita, "uma das piores teocracias do mundo", aliado próximo dos EUA--, e afirma que o islã e os movimentos islâmicos "não têm o Ocidente como alvo, mas sim a população do Oriente Médio".
Ele afirma que são as mulheres do Oriente Médio que mais sofrem com o fundamentalismo islâmico. "Seu principal alvo (dos movimentos islâmicos) não são os EUA, eles querem comandar as populações do Oriente Médio". Os grupos islâmicos, para Hassanpour, "querem o controle dos poços de petróleo, das pessoas".
"Se eles têm o controle dos recursos naturais e da população, irão lidar com os EUA da mesma forma que a Arábia Saudita tem feito, se tornarão amigos novamente", conclui.
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