Mundo
23/06/2008 - 11h22

Para analista, partido do governo quer islamizar a sociedade turca

Publicidade

FERNANDO SERPONE
da Folha Online

Alvo de um processo na Justiça que deve culminar em seu banimento, o partido governista da Turquia (Justiça e Desenvolvimento, AK) é acusado de atentar contra o caráter laico do Estado, ao supostamente tentar impor a sharia (lei islâmica).

Para Senem Aydin, pesquisadora do Center for European Policy Studies, baseado em Bruxelas, dizer que o AK quer impor a sharia é uma afirmação "exagerada". Segundo ela, o partido quer "islamizar o país" e ter uma sociedade turca "mais religiosa", mas não pretende impor a sharia".

Umit Bektas/Reuters
Turcas realizam protesto em defesa do véu islâmico, proibido em instituições públicas
Turcas realizam protesto em defesa do véu islâmico, proibido em instituições públicas

Cerca de 99,8% dos 72 milhões de turcos são muçulmanos, em sua maioria sunitas. A criação do Estado turco, sobre as ruínas do Império Otomano, em 1923, teve como principal protagonista o militar Mustafa Kemal Atatürk. A base mais sagrada do Estado fundado pelo militar é o secularismo.

O centro da disputa atual se dá em torno do véu islâmico. Proibido nas instituições públicas, o AK, que desfruta de grande maioria no Parlamento, criou uma emenda permitindo a vestimenta nas universidades. A decisão do Legislativo foi, no início do mês revogada pela Corte turca por 9 votos a 2.

Desde 1961, 24 partidos já foram banidos, acusados de violarem o caráter laico do Estado ou de serem pró-curdos. O próprio AK é oriundo de duas legendas banidas.

Para a pesquisadora, há uma "polarização social" e política entre seculares e religiosos, que se aprofunda a cada dia.

Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida por Aydin à Folha Online:

*

Folha Online - Há a possibilidade de o AK se tornar ilegal? O que aconteceria então?

Senem Aydin - Há uma forte chance de o partido ser fechado. O cenário mais plausível é o estabelecimento de um partido substituto que será oficialmente liderado por figuras do AK que não foram banidos da política.

Folha Online - A proibição do uso do véu cria um precedente para banir o AK?

Aydin - Creio que sim. Apesar de legalmente não, revela as questões ideológicas subjacentes do Judiciário e sugere que membros da Corte Constitucional irão decidir em massa em favor do fechamento.

Folha Online - Faz sentido dizer que o AK está tentando impor a sharia?

Arte/Folha Online

Aydin - Não, essa afirmação é muito exagerada. Creio que seja melhor colocar desta forma: o AK é a favor de islamizar a sociedade, de ter uma sociedade turca mais religiosa, mas não pretende impor a lei da sharia.

Folha Online - Como a União Européia e a população turca avaliariam tal decisão?

Aydin - Creio que a UE poderia ir ao extremo de suspender as conversas de negociação. No entanto, isso também dependeria muito do embasamento legal citado pela Corte no caso. A população turca também não ficaria contente com a decisão, mas não creio que iria a extremos como um levante civil.

Folha Online - Há algum partido que poderia substituir o AK em termos de apoio popular?

Aydin - Não atualmente. Erdogan é uma figura de liderança forte, então mesmo que o partido seja banido e um partido substituto seja estabelecido, com Erdogan sob um banimento político legal, ele ainda seria o líder não-oficial do partido e eles não iriam se sair mal em eleições.

Folha Online - Há algum partido na Turquia engajado como o AK em tornar o país um membro da UE?

Aydin - Não, não atualmente. No discurso oficial, os social democratas (CHP) dizem ser a favor, mas eles têm sérios problemas com um entendimento monolítico do nacionalismo e da transferência da soberania, o que torna impossível que apóiem integralmente um processo de ingresso na UE.

Folha Online - Há a possibilidade de uma divisão na sociedade turca entre os mais seculares e os que apóiam o uso de véu?

Aydin - Temo que exista uma polarização social e política construída, que está se aprofundando a cada dia. Mas também devemos ter cuidado ao fazer generalizações como os seculares e os que usam o véu. Há uma parcela significante da população que está contente com o secularismo, mas que também quer ver um relaxamento sobre o banimento do véu. Então, as divisões, apesar de crescentes, não são tão bem definidas.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca