Mugabe assume Presidência do Zimbábue neste domingo; líderes africanos buscam diálogo
da Folha Online
Atualizado às 20h26
O ditador Robert Mugabe --no poder no Zimbábue há 28 anos-- irá prestar juramento neste domingo para assumir a presidência do país, após a votação do 2º turno da eleição realizada nesta sexta-feira (27). Mugabe já tinha a vitória assegurada nas eleições em que era candidato único --uma vez que o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, boicotou o pleito após intensa pressão das forças governistas e da violência contra o MDC (Movimento para a Mudança Democrática).
Cada eleitor que compareceu à votação teve de molhar o dedo em tinta vermelha --tática usada em alguns países como forma de garantir que um mesmo eleitor não possa votar duas vezes. Membros do partido de Mugabe, o Zanu-PF (União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica), disseram que iria verificar as mãos dos eleitores em ao menos dois locais de votação, para ver quem estava com o dedo pintado de vermelho.
| Emmanuel Chitate27jun.08/Reuters |
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| Mulher mostra dedo colorido após votar; governo força população a comparecer |
O vice-ministro da Informação do Zimbábue, Bright Matonga, disse que os governos estrangeiros precisam respeitar o Zimbábue. "Eles devem ver o país como um parceiro por causa do que temos a oferecer ao mundo e por cauisa de nossa estabilidade, nossa educação e de nossos recursos minerais", disse, segundo a rede americana de notícias CNN.
O MDC disse que quatro membros da oposição e a mulher de um deles foram espancados até a morte nesta semana, em "assassinatos patrocinados e realizados pelo governo". Sobre as acusações, Matonga disse que não iria "honrar as acusações com comentários" e afirmou que o processo eleitoral foi pacífico, exceto por cerca de 10 locais de votação que membros do MDC e opositores queimaram.
Mugabe, no entanto, deve enfrentar críticas e resistência por parte dos EUA: o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou hoje ter pedido mais sanções contra o governo "ilegítimo" do ditador zimbabuano. Bush chamou o segundo turno da eleição no Zimbábue de "farsa" e disse que irá para que a ONU (Organização das Nações Unidas) aprove --entre outros-- um embargo de armas ao país.
"Considerando a descarada falta de respeito do regime de Mugabe pelo sentimento democrático e os direitos humanos do povo zimbabuano, dei instruções aos secretários de Estado e do Tesouro para que estabeleçam sanções contra este governo ilegítimo do Zimbábue e aqueles que o apóiam", declarou Bush, em uma nota oficial.
| Tsvangirayi Mukwazhi/AP |
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| Ditador Robert Mugabe deposita seu voto na eleição em que é o único candidato |
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, informou neste sábado que está pensando "muito seriamente" em determinar a saída do embaixador italiano de Harare (capital do Zimbábue), como forma de enviar um "sinal político" da desaprovação do governo italiano do processo eleitoral no país africano, segundo a agência de notícias Ansa.
A ordem para que o embaixador italiano saia de Harare pode ser emitida nos próximos dias, segundo o ministro.
O Conselho de Segurança da ONU, em uma reunião ontem, emitiu um comunicado dizendo lamentar profundamente a decisão do governo zimbabuano de seguir em frente com a eleição presidencial no país. O conselho reconheceu que "as condições para a realização de eleições livres e justas não estavam presentes", segundo comunicado lido pelo embaixador dos EUA na ONU, Zalmay Khalizad.
A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, apontou a existência de inúmeras denúncias de intimidação durante o processo eleitoral.
"Acredito que não há dúvidas de que as eleições no Zimbábue de ontem foram uma farsa", disse Rice neste sábado, durante uma viagem para a Coréia do Sul. Rice também salientou que os EUA desejam que o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprove na próxima semana uma resolução sobre o Zimbábue, para enviar uma "mensagem forte de dissuasão" para Mugabe.
Diálogo
Ministros de Relações Externas de países da África criticaram a sugestão de imposição de sanções ao Zimbábue, feita por Bush, e afirmaram que apenas o diálogo irá ajudar a resolver a instabilidade política que impera no país. "Eu acho que nós precisamos engajar o Zimbábue e a rota de sanções não ajudará", disse o ministro de Relações Externas do Quênia, Moses Wetangula. "A história mostrou a nós que elas [sanções] não funcionam, a liderança apenas cava e cava e sente-se perseguida e faz coisas ainda piores."
| Arte Folha Online |
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| mapa zimbábue |
O secretário da UA (União Africana), Ali Triki, disse que a questão da divisão do poder e da unidade nacional no Zimbábue serão discutidas durante a reunião da organização. "Um governo de coalizão deveria ser formado a partir do governo e da oposição para liderar o país", disse, à agência de notícias Associated Press. "Eu acho que o que fizemos no Quênia foi um exemplo muito bom e nós estamos ansiosos para que nossos irmãos do Zimbábue sigam este exemplo."
Contudo, apesar de toda a controvérsia em torno de Mugabe, o ditador será recebido como membro legítimo da UA, confirmou o vice-ministro de Relações Externas da Angola, George Chikoti.
'Presidente Mugabe é um presidente e chefe de um Estado membro da UA, nós não pensamos que sempre podemos resolver os problemas através de condenações', disse.
Oposição
O nome de Tsvangirai foi impresso na cédula depois que as autoridades eleitorais rechaçaram a decisão do opositor de se retirar do pleito no último dia 22. O líder opositor, então se refugiou na Embaixada da Holanda, e deixou o local no dia 25. Ele alega ter vencido o primeiro turno da eleição, no dia 29 de março, embora os resultados oficiais divulgados pelo governo apontem que ele não alcançou os mais de 50% necessários.
O partido de Tsvangirai e seus aliados conseguiram o controle do Parlamento nas eleições de março passado, derrotando, la primeira vez desde a independência do país do Reino Unido, em 1980, o Zanu-PF (União Nacional Africana do Zimbábue - Frente Patriótica), de Mugabe.
Segundo a versão on-line do diário espanhol "El País", testemunhas e observadores disseram que o comparecimento às urnas nesta sexta foi baixo em muitas regiões do país, depois que Tsvangirai se retirou da disputa. Outras testemunhas disseram que muitos zimbabuanos foram obrigados a votar em Mugabe; outros deixaram de votar apesar da intimidação de forças ligadas ao governo.
Líderes de países ocidentais pediram à UA que adote uma posição durante a cúpula do grupo, que começa nesta segunda-feira no Egito, alegando que a crise política e a situação econômica do Zimbábue podem representar uma ameaça à região. O MDC informou que participará da cúpula.
"A cúpula tem de adotar uma posição firme sobre a transição que buscamos", disse o porta-voz do MDC, Nelson Chamisa. "Agora se tornou um assunto de paz e segurança. Esperamos que esse problema seja tratado como a atenção que merece."
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