Mundo
23/07/2008 - 07h31

Para professor, Obama representa mudança "simbólica"

Publicidade

FERNANDA BARBOSA
colaboração para a Folha Online

O provável candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama, afirma ser o presidenciável que promoverá mudanças em Washington e baseia sua campanha no slogan "Change we can believe in" ("Mudança na qual podemos acreditar", em tradução livre).

No entanto, para o professor Walter Benn Michaels, da Universidade de Illinois (Estado pelo qual Obama é senador), o democrata "representa a mesma política norte-americana habitual, exceto pela cor de sua pele."

Charles R. Arbogast - 5.fev.2008/AP
Reverendo Jesse Jackson segura cartaz da campanha de Obama
Reverendo Jesse Jackson segura cartaz da campanha de Obama

Para Michaels, Obama fala da "mudança na qual podemos acreditar", mas não dá exemplos concretos do que ele mudaria. "Se ele quisesse uma mudança ideológica, não seria o nomeado".

Segundo o estudioso, Obama representa um avanço na luta contra o preconceito racial nos EUA e, por isso, pode promover a "mudança simbólica, com o sucesso em superar as diferenças entre raças", mas não uma mudança política.

Na opinião de Michaels, o ex-pré-candidato democrata, John Edwards seria o nomeado mais propenso a mudar as políticas atuais, mas os eleitores norte-americanos não o elegeriam.

"Edwards seria o melhor dos candidatos. Ele tem mais senso do que é qualidade pública e social nos EUA hoje. (...) Mas eu não acho, de nenhuma maneira, que o país esteja pronto para isso."

Leia o artigo de Michaels "Alguns democratas são mais iguais do que outros", em inglês.

Leia abaixo a entrevista dada pelo estudioso à Folha Online:

*

Folha Online - A questão racial influencia na campanha presidencial norte-americana de 2008 e na maneira que os eleitores votam?

Michaels - Sim. Eu acredito que isso tem uma grande influência na maneira em que as pessoas votam. A primeira questão óbvia é que os afro-americanos apóiam Obama. E eu acredito que isso ocorre porque os negros estão impressionados pelo simbolismo. Eleger um homem negro representa um tipo de vitória. Há também um grande número de eleitores brancos que estão menos propensos a votar em Obama porque suspeitam da idéia de eleger um negro para a Presidência dos EUA.

M. Spencer Green-2.nov.2004/AP
Obama comemora vitória em eleição para senador ao lado de sua mulher e filhas
Obama comemora vitória em eleição para senador ao lado de sua mulher e filhas

Folha Online - Obama indica uma mudança no preconceito existente na sociedade norte-americana?

Michaels - Certamente representa. A sociedade norte-americana nos últimos 20, 25 anos, vem combatendo o preconceito racial. E acredito que Obama compartilha esse momento com a sociedade. Definitivamente ainda há preconceito racial, assim como em todo o mundo, mas eu acredito que Obama representa o sucesso da sociedade americana em superar isso.

Folha Online - Na sua opinião, Obama tem chances de vencer eleições?

Michaels- Sim, claro. Eu digo que ele pode, mas não sei se ele irá vencer... Mas ele tem uma chance, está a frente nas pesquisas.

Folha Online - Esta corrida presidencial também contou com a presença de uma mulher com chances reais de obter a nomeação democrata. A campanha de Hillary Clinton também representa uma mudança de valores nos EUA?

Michaels- Representa uma mudança, mas não a mesma mudança. O preconceito racial existiu na vida social e política por centenas de anos. O sexismo não é a mesma coisa. Países europeus já elegeram mulheres para a cargos políticos e para a Presidência.

Não é o mesmo tipo de mudança simbólica. Um negro ser eleito presidente nos EUA tem um simbolismo mais forte neste momento do que a presença de uma mulher na Casa Branca.

Jason DeCrow-10.jul.2008/AP
Obama faz evento conjunto com Hillary Clinton; para professor, ambos os senadores representam mudança "apenas simbólica"
Obama faz evento conjunto com Hillary Clinton; para professor, ambos os senadores representam mudança "apenas simbólica"

Folha Online - Ainda falando de Hillary, ela é mulher do ex-presidente Bill Clinton. Existe algum fator, além de ser mulher, que represente alguma mudança da senadora em relação à política de Washington?

Michaels - Esse é um ponto importante, eu não acho que ela queira representar uma mudança. É uma mudança simbólica, inteiramente simbólica.

Ambos (Obama e Hillary) são basicamente democratas centristas e não representam nenhuma mudança além de um movimento para o centro da vida política americana.

Se o que você está procurando é algo mais de esquerda ou progressista, nenhum deles pode oferecer. E essa é minha visão pessoal. Obama representa uma mudança apenas simbólica e Hillary também. O que diz respeito à ideologia, em particular ao neoliberalismo, eles são apenas continuação do que já está acontecendo.

As escolha entre Obama e Hillary depende se o eleitor quer uma mulher neoliberal ou um afro-americano neoliberal. Até então parece que os americanos preferem um afro-americano neoliberal...

Folha Online - Quem seria o candidato mais indicado a fazer as mudanças tão faladas durante a campanha?

Michaels - Edwards seria o melhor dos candidatos. Ele tem muito mais senso do que é qualidade pública e social nos EUA hoje, oferecendo sistema universal de saúde e transferência de um milhão de pobres para residências de classe média. Mais senso do que os outros candidatos tiveram.

Jeff Haynes-14.mai.2008/Reuters
Ex-pré-candidato, John Edwards endossa a nomeação Barack Obama para presidenciável do partido durante evento em Michigan
Ex-pré-candidato, John Edwards endossa a nomeação Barack Obama para presidenciável do partido durante evento em Michigan

Folha Online - E por que ele não foi aceito?

Michaels - Isso é difícil de dizer, mas o fato é que é muito difícil para alguém que está realmente à esquerda ser eleito nos EUA. Há uma visão neoliberal muito forte no país. Eu acho que, quando a economia piora, as pessoas ficam mais alertas na qualidade da condução da economia e isso criaria uma possibilidade para pessoas que estão mais à esquerda terem mais sucesso. Mas eu não acho, de nenhuma maneira, que o país está pronto para isso. Os eleitores apostam no neoliberalismo de direita de (John) McCain ou de centro, com Obama.

Folha Online - Caso seja eleito, Obama promoverá as mudanças que diz que irá?

Michaels - Que mudanças ele diz que irá promover? Ele fala da "mudança na qual podemos acreditar", mas qual é a mudança? De ele quisesse uma mudança ideológica, ele não seria o nomeado.

Sobre a mudança de um homem negro governar o país sim, isso ele pode promover, a mudança simbólica, com o sucesso em superar as diferenças entre raças, mas não uma mudança ideológica. A questão não é se ele irá promover a mudança que ele está prometendo, mas que ele não prometeu nenhuma mudança concreta.

Ele representa a mesma política norte-americana habitual, exceto pela cor de sua pele.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
avalie fechar
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
avalie fechar
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
13 opiniões
avalie fechar
Comente esta reportagem Veja todos os comentários (2849)
Termos e condições
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca