Ex-líder sérvio-bósnio é preso na Sérvia acusado de genocídio
da Folha Online
O ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, acusado de ter planejado crimes de guerra que incluem o pior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi preso nesta segunda-feira em uma ação que pôs fim a uma busca de 13 anos.
Karadzic, um dos maiores fugitivos acusado de crimes de guerra, foi acusado de arquitetar os assassinatos em massa que o tribunal da ONU para crimes de guerra descreve como "cenas do inferno, escritas nas páginas mais negras da história humana".
Acusado de organizar o massacre de 8.000 muçulmanos em Srebrenica, em 1995, entre outras atrocidades da Guerra da Bósnia, Karadzic liderou a lista dos mais procurados por mais de dez anos, supostamente recorrendo a disfarces elaborados para fugir das autoridades.
| Anja Niedringhaus-16.jan.1993/Efe |
![]() |
| Em quartel, Karadzic mostra a jornalistas mapa étnico da Bósnia |
Ele foi o líder político dos bósnios-sérvios durante a guerra entre 1992 e 1995 que sucedeu a secessão da Bósnia-Herzegovina da Iugoslávia --quando houve o massacre de Srebrenica e o cerco a Sarajevo.
Formado psiquiatra, Karadzic, 63, se declarou presidente de uma república sérvio-bósnia quando a Bósnia-Herzegovina se separou da Iugoslávia, e foi visto em público pela última vez em 1996.
"Fui informado por nosso colegas em Belgrado sobre a operação de sucesso que resultou na prisão de Radovan Karadzic", disse o promotor-chefe do tribunal da ONU, Serge Brammertz.
O gabinete do presidente Boris Tadic declarou que Karadzic foi levado perante um juiz da Corte para Crimes de Guerra da Sérvia, procedimento legal que indica que ele deve ser extraditado em breve para a Corte para Crimes de Guerra da ONU em Haia, Holanda.
Forças especiais da polícia sérvia fortemente armadas foram enviadas à Corte aonde Karadzic foi levado. O irmão do ex-líder, Luka, foi visto chegando ao local, no centro de Belgrado.
Ljiljana, mulher de Karadzic, disse por telefone à agência Associated Press de sua casa no antigo reduto de seu marido, Pale, perto de Sarajevo, que sua filha Sonja havia ligado pouco antes da meia-noite.
"Quando o telefone tocou, soube que havia algo de errado. Estou chocada. Ao menos agora, sabemos que ele está vivo", disse Ljiljana Karadzic, se recusando a dar maiores comentários.
Pressão Internacional
A Sérvia sofre forte pressão da União Européia (UE) para entregar suspeitos ao tribunal internacional, que indiciou Karadzic por acusações de genocídio em 1995.
O gabinete de Tadic declarou em comunicado que Karadzic foi preso "em ação dos serviços de segurança sérvios".
Se Karadzic for levado para Haia, ele será o 44º suspeito sérvio extraditado ao tribunal. A lista inclui o ex-presidente Slobodan Milosevic, deposto em 2000 e que morreu em 2006 durante seu julgamento, acusado de crimes de guerra.
"Esse é um dia muito importante para as vítimas que aguardaram por sua prisão por mais de uma década. É também um dia importante para a justiça internacional, pois demonstra claramente que ninguém está além do alcance da lei e que, mais cedo ou mais tarde, todos os fugitivos serão levados à justiça", afirmou Brammertz.
A UE declarou que a prisão "ilustra o comprometimento do novo governo de Belgrado em contribuir com a paz e estabilidade na região dos Balcãs".
Uma declaração da Presidência da UE, atualmente sob controle da França, disse que a detenção foi "um passo importante no caminho para a reaproximação da Sérvia com a União Européia".
"Essa notícia nos dá uma satisfação imensa. O novo governo em Belgrado defende uma Sérvia nova, para uma nova qualidade de relações com a UE", afirmou o chefe da política externa do bloco, Javier Solana. "Radovan Karadzic irá encarar um tribunal, tendo um julgamento justo, respondendo por muitos crimes. Esse é um bom dia para a justiça nos Balcãs."
Crimes
As acusações contra Karadzic incluem genocídio, assassinato, atos não humanos e outros crimes cometidos durante a guerra entre 1992 e 1995.
Seu indiciamento alega que ele, agindo com outras pessoas, cometeu os crimes para garantir o controle de áreas da Bósnia que haviam sido proclamadas parte da "República Sérvia", reduzindo assim a população não sérvia da região.
Os esconderijos de Karadzic incluíam monastérios sérvios ortodoxos, e cavernas no remoto leste da Bósnia. Alguns jornais relataram que ele chegou a se disfarçar de padre.
Como líder dos sérvios da Bósnia, Karadzic conversava com negociadores internacionais, e suas entrevistas estavam entre as principais notícias durante a guerra bósnia, iniciada quando um governo dominado por muçulmanos eslavos e croatas declararam independência da Iugoslávia em 1992.
Porém, sua vida mudou quando a guerra terminou no fim de 1995, com cerca 250 mil mortos e 1,8 milhão de refugiados. Ele foi indiciado duas vezes pelo tribunal da ONU por acusações de genocídio devido ao seu suposto envolvimento com crimes contra os muçulmanos e croatas da Bósnia.
Sob o indiciamento, que recebeu sua última emenda em 2000, o tribunal de crimes de guerra da ONU acusou o ex-líder sérvio-bósnio com 15 delitos de genocídio, crimes de guerra e outras atrocidades entre 1992 e 1996.
No mês passado, as autoridades sérvias entregaram à Haia o ex-chefe de polícia sérvio-bósnio Stojan Zupljanin, preso após nove anos em fuga.
No domingo, Zupljanin se declarou inocente das 12 acusações de assassinato, tortura e perseguição de muçulmanos-bósnios e croatas em 1992. Zupljanin foi acusado de crimes de guerra por supostamente ter comandado campos de prisioneiros onde milhares de muçulmanos e croatas foram assassinados durante a guerra.
Com a prisão de Karadzic, o ex-general Ratko Mladic, comandante militar sérvio-bósnio, passa a ser o fugitivo mais procurado pela ONU por crimes de guerra.
Com Associated Press
Leia mais
- Presidente sérvio homenageia vítimas do massacre de Srebrenica
- Polícia prende ex-general acusado de genocídio na guerra da Bósnia
- Tribunal da ONU isenta Sérvia de acusação de genocídio
- Assassino de Salt Lake City sobreviveu a massacre na Bósnia
Livraria da Folha
Especial


