Mundo
22/07/2008 - 12h46

Karadzic passa por interrogatório após prisão; ex-líder usava identidade falsa

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da Folha Online

Acusado de crimes de guerra que incluem o pior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic --cuja prisão foi anunciada ontem pela Sérvia-- usava uma identidade falsa e trabalhava como médico em um consultório de medicina alternativa em Belgrado.

Após a detenção do ex-líder, ocorrida ontem, segundo autoridades sérvias, um juiz de instrução concluiu na manhã desta terça-feira um interrogatório preliminar, considerado o primeiro passo para sua extradição para o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), em Haia.

No total, a lei sérvia prevê um prazo máximo de nove dias para que seja tomada uma decisão final sobre a transferência ao TPII. Este período está dividido em três partes de três dias: um para a instrução judicial, um para a apelação da defesa e outro para decidir sobre a apelação.

Arte Folha
Mapa sérvia

Segundo o promotor Vladimir Vukcevic, um juiz emitiu uma ordem para transferência de Karazvic da Sérvia para Haia nesta terça-feira. O advogado de Karadzic, Svetozar Vujakic, disse que vai recorrer.

Ainda segundo Vujakic, citado pela Beta News, o ex-líder sérvio-bósnio afirmou que havia sido "detido na sexta-feira em um ônibus", em Belgrado, e que desde então é mantido "detido em uma cela". Karadzic, que teria classificado a situação de "farsa", havia utilizado seu "direito de se manter em silêncio durante o interrogatório", segundo Vujakic.

O advogado de Karadzic afirmou que o ex-líder político sérvio-bósnio, que foi examinado por um médico, "estava tranqüilo" durante o interrogatório, e acrescentou que ele permaneceria em uma unidade de detenção especial do tribunal sérvio encarregado de julgar os crimes de guerra, à espera de sua extradição para o TPII.

Disfarce

Imagens de Karadzic divulgadas após o anúncio de sua prisão mostravam o ex-líder sérvio-bósnio de cabelos e barba brancos. Uma delas mostrava ele usando óculos. Segundo as autoridades sérvias, ele trabalhava em um consultório de medicina alternativa na capital sérvia.

Quando foi detido em um ônibus nas proximidades Belgrado, dando fim a mais de uma década de busca, Karadzic carregava um documento de identidade com o nome de Dragan Dabic. O nome falso era o mesmo usado para colaborar com uma revista sobre saúde.

Darko Vojinovic/AP
Rasim Lajic mostra foto de Karadzic com óculos, cabelos longos e barba branca
Rasim Lajic mostra foto de Karadzic com óculos, cabelos longos e barba branca

"Nunca me ocorreu que este homem com uma longa barba e cabelos brancos fosse Karadzic", disse o editor-chefe da revista "Zdrav Zivot" (Vida Saudável), Goran Kojic, acrescentando que ficou chocado quando viu a foto de Karadzic na TV, reconhecendo-o como o colaborador de sua publicação.

Rasim Lajic, o ministro sérvio encarregado de cooperar com o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), em Haia, disse na mesma entrevista coletiva que Karadzic era "muito convincente" em sua falsa identidade. O ministro mostrou uma foto do ex-presidente em que ele é visto com uma longa barba branca, cabelo grisalho e de óculos.

Segundo o ministro, a mudança de identidade e de imagem de Karadzic era tão boa que nem sequer as pessoas que alugaram um apartamento para ele o reconheceram. "Acho que todo mundo esperava que Ratko Mladic (o ex-líder militar servo-bósnio) seria preso primeiro, mas as informações que tínhamos nos levaram a Karadzic", afirmou Lajic.

"A operação aconteceu depois que seguimos por um tempo um grupo de pessoas que eram suspeitas de formar uma rede de apoio a Karadzic", acrescentou o ministro.

Vladimir Vukcevic, o promotor sérvio de crimes de guerra e coordenador de um plano de ação para a captura de criminosos de guerra, explicou nesta terça-feira que Karadzic foi detido nas proximidades de Belgrado, sem a ajuda de serviços secretos estrangeiros. "Trabalhamos sozinhos, sem a ajuda de fora", disse o promotor em entrevista coletiva.

Perfil

Karadzic, um dos maiores fugitivos acusado de crimes de guerra, foi acusado de arquitetar os assassinatos em massa que o tribunal da ONU (Organização das Nações Unidas) para crimes de guerra descreve como "cenas do inferno, escritas nas páginas mais negras da história humana".

Reuters
Montagem mostra foto recente do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic e imagem dele em 1995; ele foi preso na Sérvia
Montagem mostra foto recente do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic (à esq.) e imagem dele em 1995; ele foi preso na Sérvia

Acusado de organizar o massacre de 8.000 muçulmanos em Srebrenica, em 1995, entre outras atrocidades da Guerra da Bósnia (1992-1995), Karadzic liderou a lista dos mais procurados por mais de dez anos, recorrendo a disfarces elaborados para fugir das autoridades.

Ele foi o líder político dos bósnios-sérvios durante a guerra entre 1992 e 1995 que sucedeu a secessão da Bósnia-Herzegovina da Iugoslávia --quando houve o massacre de Srebrenica e do cerco a Sarajevo.

Formado psiquiatra, Karadzic, 63, se declarou presidente de uma república sérvio-bósnia quando a Bósnia-Herzegovina se separou da Iugoslávia, e foi visto em público pela última vez em 1996.

Com agências internacionais

 

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