Mundo
23/07/2008 - 20h31

Centenas protestam em Belgrado contra detenção de Karadzic

da Folha Online

Cerca de 300 pessoas se reuniram hoje no centro de Belgrado para protestar contra a detenção, há dois dias, de Radovan Karadzic, ex-líder político servio-bósnio acusado de genocídio e crimes de guerra.

A manifestação, a terceira desse tipo que acontece desde segunda-feira, foi convocada por várias ONGs nacionalistas e terminou sem maiores incidentes.

Vigiados por grande aparato policial, os manifestantes gritaram palavras como "traição", "Sérvia", e os nomes de Karadzic, Ratko Mladic, Vojislav Seselj e outros supostos criminosos de guerra sérvios.

Marko Djurica /Reuters
Torcedores do time de futebol Partizan Belgrade com imagem de Karadzic durante amistoso contra Olympique Lyon, em Belgrado
Torcedores do time de futebol Partizan Belgrade com imagem de Karadzic durante amistoso contra Olympique Lyon, em Belgrado

Alguns dos manifestantes levavam bandeiras do Partido Radical Sérvio (SRS) e do movimento ultranacionalista Obraz, assim como camisetas com a imagem de Karadzic.

Os manifestantes empreenderam também uma passeata pelas ruas do centro da capital. Ontem, Belgrado foi palco de manifestação semelhante.

Karadzic foi detido na segunda-feira passada pelos serviços de inteligência sérvios próximo de Belgrado e será extraditado nos próximos dias ao Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII), em Haia, onde será processado.

Autodefesa

Segundo seu advogado, Karadzic deve assumir a própria defesa durante seu processo em Haia, da mesma forma que fez seu aliado Slobodan Milosevic --ex-presidente sérvio, enviado a Haia em 2000 e que morreu em 2006, antes da conclusão de seu processo.

"Karadzic terá uma equipe de juristas na Sérvia que o ajudará em sua defesa, mas defenderá a si mesmo no TPII", afirmou o advogado Svetozar Vujacic à imprensa. "Ele está convencido que, com a ajuda de Deus, ganhará". Segundo o advogado, seu cliente estava em boas condições mentais e físicas. Ele não estava falando com os investigadores, mas "se defendendo com o silêncio".

Reuters
Ex-líder sérvio-bósnio aparece em um vídeo participando de uma palestra
Ex-líder sérvio-bósnio aparece em um vídeo participando de uma palestra

Karadzic foi detido na segunda-feira à noite (21) em Belgrado pelos serviços secretos sérvios depois de ter permanecido foragido por quase 13 anos, desde que em 1995 foi acusado de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Durante esse período conseguiu escapar das autoridades utilizando uma identidade falsa.

Nesta quarta-feira, Karadzic também tentava retardar sua transferência para a Justiça Internacional em Haia. Amparado na lei sérvia, Vujacic disse que só apresentará recurso contra a transferência de Karadzic na próxima sexta-feira (25), no último dia do prazo previsto pela lei, para atrasar o máximo possível sua apresentação ao TPII. Depois de apresentado o recurso, os juízes do tribunal de Belgrado encarregado de julgar os crimes de guerra terão três dias para se pronunciar.

Acusado de crimes de guerra que incluem o pior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Karadzic usava uma identidade falsa e trabalhava como médico em um consultório de medicina alternativa em Belgrado.

Imagens de Karadzic divulgadas após o anúncio de sua prisão mostravam o ex-líder sérvio-bósnio de cabelos e barba brancos e compridos. Uma delas mostrava ele usando óculos. Segundo as autoridades sérvias, ele trabalhava em um consultório de medicina alternativa na capital sérvia.

Quando foi detido em um ônibus nas proximidades Belgrado, dando fim a mais de uma década de busca, Karadzic carregava um documento de identidade com o nome de Dragan Dabic. O nome falso era o mesmo usado para colaborar com uma revista sobre saúde.

Hoje, Karadzic cortou o cabelo e fez a barba. Vujacic, que visitou seu cliente na prisão em Belgrado, disse que Karadzic "está como novo, com o mesmo aspecto de 14 anos atrás, barbeado, com o cabelo curto". Segundo o advogado, Karadzic "não envelheceu nada, só está um pouco mais magro".

Extradição

Segundo o porta-voz da Procuradoria sérvia de crimes de guerra, Bruno Vekaric, Karadzic pode ser extraditado ao TPII no final desta semana ou no começo da próxima. Apesar da previsão, Vekaric não precisou a data da extradição.

Ele afirmou que tudo dependerá do cumprimento dos prazos previstos pelas leis sérvias e da decisão de um conselho judicial. "É difícil indicar o dia em que ele será extraditado. Sua identidade foi estabelecida. Agora, sua defesa tem o direito a recorrer da decisão de extradição, e já anunciou que fará isso", disse.

Vekaric disse ainda que depois dessa decisão de apelação haverá um prazo de três dias no qual o conselho judicial deve tomar a decisão definitiva. "É mais realista esperar que (a extradição) aconteça na segunda ou na terça-feira, mas também poderia ser antes", afirmou.

Os procedimentos legais para a extradição de Karadzic ao TPII, em Haia, começaram após um interrogatório feito por um juiz de instrução.

Perfil

Karadzic, um dos maiores fugitivos acusado de crimes de guerra, foi acusado de arquitetar os assassinatos em massa que o tribunal da ONU (Organização das Nações Unidas) para crimes de guerra descreve como "cenas do inferno, escritas nas páginas mais negras da história humana".

Reuters
Montagem mostra foto recente do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic e imagem dele em 1995; ele foi preso na Sérvia
Montagem mostra foto recente do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic (à esq.) e imagem dele em 1995; ele foi preso na Sérvia

Acusado de organizar o massacre de 8.000 muçulmanos em Srebrenica, em 1995, entre outras atrocidades da Guerra da Bósnia (1992-1995), Karadzic liderou a lista dos mais procurados por mais de dez anos, recorrendo a disfarces elaborados para fugir das autoridades.

Ele foi o líder político dos bósnios-sérvios durante a guerra entre 1992 e 1995 que sucedeu a secessão da Bósnia-Herzegovina da Iugoslávia --quando houve o massacre de Srebrenica e do cerco a Sarajevo.

Formado psiquiatra, Karadzic, 63, se declarou presidente de uma república sérvio-bósnia quando a Bósnia-Herzegovina se separou da Iugoslávia, e foi visto em público pela última vez em 1996.

Com Efe, France Presse, Reuters, Associated Press

 

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