Bens de Karadzic serão usados para pagar indenização de US$ 4,5 bi
colaboração para a Folha Online
Membros da corte internacional disseram nesta sexta-feira que as propriedades do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic podem ser confiscadas e usadas para cobrir parte dos US$ 4,5 bilhões (R$ 7,1 bilhões) em indenizações às vítimas de seus crimes de guerra.
O ex-líder dos sérvios da Bósnia é acusado pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPII) pelo genocídio em Srebrenica, pelo cerco a Sarajevo, e por outros crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante a Guerra da Bósnia (1992-1995). Ele foi capturado nesta segunda-feira (21) e aguarda, em uma prisão em Belgrado, pela extradição para a corte de crimes de guerra da Organização das Nações Unidas, em Haia.
O juri da corte do Centro de Direitos Constitucionais, baseado em Nova York, estabeleceu o valor da indenização em 2000, após um processo aberto pelas vítimas da Guerra Bósnia que fugiram para os EUA. A guerra deixou mais de 100 mil mortos.
| Reuters |
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| Montagem mostra foto recente do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic (à esq.) e imagem dele em 1995; ele foi preso na Sérvia |
Raffi Gregorian, vice-administrador da corte internacional, disse ainda que várias opções estão sendo avaliadas sobre como confiscar os bens de Karadzic para que a soma possa ser paga, "pelo menos uma compensação parcial e simbólica".
Karadzic também enfrentará acusações de desvio de verbas do orçamento federal da ex-República Sérvia-Bósnia. "Há documentos provando que Karadzic pegou US$ 28 milhões na primavera de 1997", disse o primeiro-ministro sérvio Gojko Klickovic, em uma entrevista de 2005.
Enquanto isso, outra fortuna continua sem destino certo. A embaixada americana em Belgrado disse que ninguém veio ainda pedir a recompensa de US$ 5 milhões (R$ 7,9 milhões) por informações que levassem à captura de Karadzic.
Ameaças
Depois da prisão de Karadzic, o presidente sérvio, Boris Tadic, e outras várias autoridades do país receberam ameaças de morte.
Segundo informações de hoje do jornal "Blic", além de Tadic, foram também alvo de ameaças o ministro do Interior sérvio, Ivica Dacic, o procurador de crimes de guerra, Vladimir Vukcevic, e o presidente do conselho governamental de cooperação com TPII, Rasim Ljajic.
Os dois últimos são também os coordenadores de um plano de ação para a busca e captura dos foragidos acusados de crimes de guerra.
Os quatro receberam, entre outras ameaças, cartas em forma de bilhetes mortuários e advertências por telefone, como "uma bomba está debaixo de seu carro" ou "terminará como Zoran Djindjic (ex-primeiro-ministro assassinado em 2003)".
Segundo o "Blic", os serviços secretos e a polícia aumentaram o grau de proteção dessas autoridades, mas o Gabinete de Tadic, não foi confirmada nem desmentida a existência destas ameaças.
Apoio
Muitos sérvios dizem que as acusações contra Karadzic são falsas e que ele e seu braço direito Mladic são defensores heróicos da nação sérvia.
Uma amiga de Karadzic, que o conheceu sob a falsa identidade do médico Dragan Dabic, afirmou que ele "era um santo" e que "se preocupava com o coração das pessoas que sofriam".
Em entrevista ao jornal "La Repubblica", Mila Damianov, 53, disse ser assistente e aluna de Karadzic. "Nos meses em que convivi com ele, ele só fez o bem aos demais. Ainda não acredito. Eu pensei que se tratasse de um erro e que tinham confundido ele com outra pessoa. só agora me convenci que é verdade", disse.
Protestos
Ontem, cerca de 300 pessoas se reuniram no centro de Belgrado para protestar contra a detenção de Karadzic. A manifestação, a terceira do tipo que acontece desde segunda-feira, foi convocada por várias ONGs nacionalistas e terminou sem maiores incidentes.
Vigiados por grande aparato policial, os manifestantes gritaram palavras como "traição", "Sérvia", e os nomes de Karadzic, Ratko Mladic, Vojislav Seselj e outros supostos criminosos de guerra sérvios.
Alguns dos manifestantes levavam bandeiras do Partido Radical Sérvio (SRS) e do movimento ultranacionalista Obraz, assim como camisetas com a imagem de Karadzic. Os manifestantes empreenderam também uma passeata pelas ruas do centro da capital. Na terça-feira, Belgrado foi palco de manifestação semelhante.
Autodefesa
| Reuters |
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| Ex-líder sérvio-bósnio aparece em um vídeo participando de uma palestra médica |
Segundo seu advogado, Karadzic deve assumir a própria defesa durante seu processo em Haia, da mesma forma que fez seu aliado Slobodan Milosevic --ex-presidente sérvio, enviado a Haia em 2000 e que morreu em 2006, antes da conclusão de seu processo.
"Karadzic terá uma equipe de juristas na Sérvia que o ajudará em sua defesa, mas defenderá a si mesmo no TPII", afirmou nesta terça-feira o advogado Svetozar Vujacic à imprensa. "Ele está convencido que, com a ajuda de Deus, ganhará". Segundo o advogado, seu cliente estava em boas condições mentais e físicas. Ele não estava falando com os investigadores, mas "se defendendo com o silêncio".
Ele foi detido na segunda-feira à noite (21) em Belgrado pelos serviços secretos sérvios depois de ter permanecido foragido por quase 13 anos, desde que em 1995 foi acusado de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Durante esse período conseguiu escapar das autoridades utilizando uma identidade falsa.
Ontem, Karadzic também tentava retardar sua transferência para a Justiça Internacional em Haia. Amparado na lei sérvia, Vujacic disse que só apresentará recurso contra a transferência de Karadzic amanhã (25), no último dia do prazo previsto pela lei, para atrasar o máximo possível sua apresentação ao TPII. Depois de apresentado o recurso, os juízes do tribunal de Belgrado encarregado de julgar os crimes de guerra terão três dias para se pronunciar.
Segundo o porta-voz da Procuradoria sérvia de crimes de guerra, Bruno Vekaric, Karadzic pode ser extraditado ao TPII no final desta semana ou no começo da próxima. Apesar da previsão, Vekaric não precisou a data da extradição.
Perfil
Karadzic, um dos maiores fugitivos acusado de crimes de guerra, foi acusado de arquitetar os assassinatos em massa que o tribunal da ONU (Organização das Nações Unidas) para crimes de guerra descreve como 'cenas do inferno, escritas nas páginas mais negras da história humana'.
Acusado de organizar o massacre de 8.000 muçulmanos em Srebrenica, em 1995, entre outras atrocidades da Guerra da Bósnia (1992-1995), Karadzic liderou a lista dos mais procurados por mais de dez anos, recorrendo a disfarces elaborados para fugir das autoridades.
Ele foi o líder político dos bósnios-sérvios durante a guerra entre 1992 e 1995 que sucedeu a secessão da Bósnia-Herzegovina da Iugoslávia --quando houve o massacre de Srebrenica e do cerco a Sarajevo.
Formado psiquiatra, Karadzic, 63, se declarou presidente de uma república sérvio-bósnia quando a Bósnia-Herzegovina se separou da Iugoslávia, e foi visto em público pela última vez em 1996.
Com Efe, Associated Press e Reuters
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