Mundo
30/07/2008 - 08h33

Karadzic chega a Haia; ex-líder se apresentará amanhã ao Tribunal Penal

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da Folha Online

O ex-líder servio-bósnio Radovan Karadzic, preso na semana passada nas proximidades de Belgrado, vai se apresentar amanhã pela primeira vez ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), informou a corte nesta quarta-feira. A audiência está marcada para as 11h de Brasília, diante do juiz Alphons Orie, segundo as agências de notícias internacionais.

Karadzic foi extraditado nesta quarta-feira da capital sérvia, Belgrado, ao TPII, onde será julgado. Ele enfrenta 11 acusações de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio por seu envolvimento na Guerra da Bósnia (1992-1995).

De acordo com a agência de notícias Tanjug, um comboio de carros partiu às 3h45 local (22h45 Brasília) do Tribunal Especial de Belgrado, onde Karadzic estava preso desde sua detenção, em 21 de julho, após passar quase 13 anos foragido. Ele pousou na Holanda por volta das 5h locais (2h de Brasília).

Normalmente, o processo é lido na aparição inicial do suspeito diante do tribunal, mas Karadzic pode pedir para que apenas as acusações, uma parte efetivamente mais curta do processo, sejam lidas, ou que o processo não seja lido todo.

Será perguntado se ele se declara culpado ou não. Se ele não responder, os procedimentos serão adiados e ele terá 30 dias para fazer as considerações antes de ser novamente questionado. Se ele ainda recusar, uma declaração de "não culpado" será dada a ele.

Protestos

Nesta terça-feira, ao menos 46 pessoas ficaram feridas durante uma manifestação de apoio ao ex-líder sérvio-bósnio realizada no centro de Belgrado. O protesto, organizado pela oposição nacionalista sérvia, reuniu mais de 10 mil pessoas contrárias ao regime pró-ocidental do presidente Boris Tadic, que ordenou a detenção de Karadzic.

Os incidentes de violência começaram quando jovens manifestantes, alguns mascarados, atiraram projéteis contra as forças policiais, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo e disparos com balas de borracha.

Ivan Milutinovic-29.jul.08 /Reuters
Mais de 10 mil sérvios ultranacionalistas protestam em Belgrado contra a extradição do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic
Mais de 10 mil sérvios ultranacionalistas protestam em Belgrado contra a extradição do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic

O médico Goran Vukovic, citado pela agência de notícias Beta, disse que 25 policiais e 21 manifestantes "foram atendidos" nos centros de urgência, e que um agente e um manifestante permaneceram hospitalizados. Segundo a agência Reuters, um repórter espanhol e um sérvio também ficaram feridos.

Os manifestantes protestaram contra a prisão de Karadzic e a sua extradição para o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), em Haia. A concentração do protesto de ontem começou por volta das 19h (15h de Brasília), na praça da República, no centro da capital sérvia.

Importantes efetivos das forças de segurança foram enviados ao local, e várias embaixadas da região, principalmente de EUA e Croácia, ficaram sob proteção especial, assim como a sede da televisão sérvia.

Prisão

Karadzic foi detido no último dia 21 nas proximidades de Belgrado pelos serviços secretos sérvios depois de ter permanecido foragido por quase 13 anos, desde que em 1995 foi acusado de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

Acusado de crimes de guerra que incluem o pior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Karadzic usava uma identidade falsa e trabalhava como médico em um consultório de medicina alternativa em Belgrado.

Reuters
Montagem mostra foto recente do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic (à esq.)e imagem dele em 1995; ele foi preso na Sérvia
Montagem mostra foto recente do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic (à esq.)e imagem dele em 1995; ele foi preso na Sérvia

Imagens de Karadzic divulgadas após o anúncio de sua prisão mostravam o ex-líder sérvio-bósnio de cabelos e barba brancos e compridos. Uma delas mostrava ele usando óculos. Segundo as autoridades sérvias, ele trabalhava em um consultório de medicina alternativa na capital sérvia.

Quando foi detido em um ônibus nas proximidades Belgrado, dando fim a mais de uma década de busca, Karadzic carregava um documento de identidade com o nome de Dragan Dabic. O nome falso era o mesmo usado para colaborar com uma revista sobre saúde.

Na prisão, Karadzic cortou o cabelo e fez a barba. Segundo seus advigados, Karadzic deve assumir a própria defesa durante seu processo em Haia, da mesma forma que fez seu aliado Slobodan Milosevic --ex-presidente sérvio, enviado a Haia em 2000 e que morreu em 2006, antes da conclusão de seu processo. Ele deve contar com a ajuda de uma equipe de juristas.

Perfil

Karadzic, um dos maiores fugitivos acusado de crimes de guerra, foi acusado de arquitetar os assassinatos em massa que o tribunal da ONU (Organização das Nações Unidas) para crimes de guerra descreve como "cenas do inferno, escritas nas páginas mais negras da história humana".

Acusado de organizar o massacre de 8.000 muçulmanos em Srebrenica, em 1995, entre outras atrocidades da Guerra da Bósnia (1992-1995), Karadzic liderou a lista dos mais procurados por mais de dez anos, recorrendo a disfarces elaborados para fugir das autoridades.

Ele foi o líder político dos bósnios-sérvios durante a guerra entre 1992 e 1995 que sucedeu a secessão da Bósnia-Herzegovina da Iugoslávia --quando houve o massacre de Srebrenica e do cerco a Sarajevo.

Formado psiquiatra, Karadzic, 63, se declarou presidente de uma república sérvio-bósnia quando a Bósnia-Herzegovina se separou da Iugoslávia, e foi visto em público pela última vez em 1996.

Com agências internacionais

 

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