Mundo
01/08/2008 - 17h41

Comparado até a Britney Spears, Obama atrai multidões e vira "celebridade"

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

Cerca de 200 mil pessoas ouviram o discurso do democrata Barack Obama em Berlim na semana passada. Nos EUA, todos os comícios do senador por Illinois atraem grandes públicos, superiores aos dos seus rivais --tanto de Hillary Clinton, sua adversária nas primárias, quanto do republicano John McCain, na disputa pela Casa Branca.

A campanha de Obama conseguiu arrecadações recordes através de doações de particulares, e arregimentou um Exército de jovens voluntários pelo país. O democrata conseguiu arrecadar até junho a soma de US$ 349.716.137 (R$ 550.453.213) contra US$ 144.071.945 (R$ 226.769.247) arrecadados por McCain.

O "fenômeno" Obama é tamanho que McCain passou a usá-lo como arma para atacar seu rival. Nesta semana, o republicano lançou uma nova propaganda eleitoral comparando o senador de Illinois à cantora Britney Spears e à socialite Paris Hilton. "É a maior celebridade do mundo", diz uma voz feminina enquanto aparecem imagens de Obama em Berlim alternadas por fotos das duas loiras famosas. "Porém, será que ele está pronto para assumir o comando?", questiona a locutora.

Tobias Schwarz/Reuters
O presidenciável democrata Barack Obama acena para a multidão após discursar em Berlim, Alemanha, na semana passada
O presidenciável democrata Barack Obama acena para a multidão após discursar em Berlim, Alemanha, na semana passada

Carismático, o político costuma ser criticado por sua pouca experiência. No entanto, o fato de ser novo --46 anos-- é apontado como um fator que aumenta seu apelo, principalmente entre os mais jovens. "Obama parece ir além de qualquer tipo (de atenção) que acompanhe um novo líder, ou um líder em ascensão", disse Stephen Ansolabehere, professor de ciência política do MIT (Massachusetts Institute of Technology), à Folha Online, por e-mail.

Para o professor, essa atenção a mais seria por ele liderar uma mudança de gerações. "Ele cresceu após a geração 'Baby Boomer' [onda de natalidade entre 1946 e começo dos anos 60], após as divisões culturais dos anos 1960", explica Ansolabehere. Muito do entusiasmo (por Obama) nos EUA vêm da geração mais nova.

Segundo Ansolabehere, houve um entusiasmo semelhante pelo ex-candidato democrata à Presidência Gary Hart, em 1984, pelo ex-presidente Bill Clinton, em 1992, e por John F. Kennedy, em 1960. Coincidência ou não, os ex-presidentes americanos John F. Kennedy, Ronald Reagan e Bill Clinton também fizeram discursos em Berlim quando presidentes. "Reagan e, até certo ponto, Kennedy, também tinham um diferente tipo de apelo, enraizado na noção de que o governo deveria agir de forma diferente."

Insatisfação

Contardo Calligaris, psicanalista e colunista da Folha, aponta também para as raízes do candidato --filho de um negro do Quênia e de uma branca americana. Pela origem africana do pai e pela cor de sua pele, "Obama é inevitavelmente o símbolo da realização possível de uma convivência de raças e etnias que, sobretudo hoje, representaria, se existisse, a promessa de um futuro de paz", afirmou o psicanalista à Folha Online, por e-mail.

Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue, instituto de análise política de Washington, disse que o apelo de Obama se dá, primeiro, em razão dos oito anos de governo de George W. Bush. "Ele (Bush) com certeza está entre os presidentes menos efetivos e produtivos de todos os tempos", afirmou Hakim, por telefone. "Ou, alguns diriam, um dos piores (presidentes) de todos os tempos."

Michael Dalder/Reuters
Barack Obama durante seu discurso visto por mais de 200 mil pessoas na capital alemã
Barack Obama durante seu discurso visto por mais de 200 mil pessoas na capital alemã

Segundo a revista "Economist", oito entre cada dez americanos acreditam que os Estados Unidos estão "no caminho errado".

Hakim aponta também para o fato de Obama ser jovem, e não ter "um histórico claro". Para o americano, o democrata é um político muito habilidoso. "Ele sabe política desde negociar até princípios, é um político muito completo", disse Hakim.

O analista diz que os colombianos, por exemplo, preferem Obama a McCain, apesar de o democrata ter criticado os acordos de livre-comércio americanos e de McCain ser o mais indicado para questões de segurança, como o Plano Colômbia. Segundo Hakim, isso se dá porque Obama representa algo novo, diferente, uma mudança na forma que os EUA pensam sobre o mundo. O americano afirma que, de repente, há uma chance de os EUA realmente passarem por mudança.

Porém, Obama tem que mostrar que representa o novo, "advogar pela mudança e por novas idéias, mas, ao mesmo tempo, ele precisa garantir às pessoas que ele é alguém confiável que irá administrar com cuidado e de forma profissional", na opinião de Hakim.

Mike Carlson/AP
Barack Obama durante comício na Flórida em que foi vaiado por jovens negros
Barack Obama durante comício na Flórida em que foi vaiado por jovens negros

O democrata também deve deixar claro que sua mensagem de mudança não é vaga, além de precisar definir sua postura em relação às questões raciais, que desde o início da campanha lhe causam problemas.

Judith Miller, jornalista americana, afirmou à Folha de S. Paulo em julho que Obama "tem uma mensagem de esperança muito vaga, mas que inspira muitas pessoas e passa muita credibilidade. O público está exausto dos republicanos."

Nesta sexta-feira, Obama foi brevemente vaiado durante um comício na Flórida por jovens negros que criticaram sua falta de empenho em defender a comunidade negra, segundo imagens transmitidas ao vivo por canais de TV.

Minorias

"Os últimos 30 ou 40 anos, no Ocidente, foram os anos da política das diferenças (a constituição e consolidação de 'minorias' de todo tipo -- étnico, sexual etc)", explica Calligaris. "Isso foi um movimento necessário para correr atrás do ideal universalista da modernidade (a idéia de direitos iguais e efetivos para todos)", acrescentou.

No entanto, o psicanalista afirma que este foi "um movimento cujo tiro saiu pela culatra, fragmentando o tecido social, negando o próprio ideal universalista (que, de repente pareceu ser reduzido à globalização econômica)".

Para Calligaris, "nunca como agora apareceu a contradição entre a necessidade de afirmar as diferenças e o sonho de uma sociedade de direitos iguais". "É nesse contexto que a candidatura de Obama produz um apelo muito especial", conclui Calligaris.

"Se Obama vencer --e creio que será uma eleição apertada-- o desafio será ver como ele e seu governo irão aproveitar essa oportunidade", disse o professor do MIT.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
13 opiniões
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