Brasileiro morto em blitz policial será enterrado hoje nos EUA
MÁRCIA SOMAN MORAES
colaboração para a Folha Online
O corpo do brasileiro André Martins, morto durante uma blitz policial em Massachusetts, nos Estados Unidos, será enterrado nesta quinta-feira às 11h (12h em Brasília). Segundo o pai dele, Luiz Carlos de Castro Martins, o enterro acontecerá no cemitério Woodside, em Cape Cod, onde o pintor morava com a mulher, Camila Miranda Campos, e os filhos de 6 e 2 anos.
"Primeiramente, queríamos levar o corpo para o Brasil, mas o custo é muito alto. Com as papeladas necessárias, ia ficar no mínimo em US$ 10 mil", contou o pai, em entrevista por telefone à Folha Online.
O brasileiro foi morto a tiros por um policial no último dia 27 de julho, quando, segundo a polícia, tentava fugir de um bloqueio. Aparentemente, ele estaria fumando um cigarro de maconha naquele momento.
Na época do crime, a mulher de Martins admitiu que havia maconha no carro, mas disse que o rapaz não fumava naquele momento. "Tinha maconha, mas isso não justifica atirar nele." Ela disse também que ele não tentou fugir do bloqueio e apenas desviou para que seu carro não batesse no veículo policial que fechava a rua.
Da casa da família em Cape Cod, o pai do brasileiro, que é policial da reserva em Tapejara (PR), ressaltou que o filho não era um criminoso e que a polícia "busca justificativas" para a morte. "Todos disseram que ele era um cara muito tranqüilo, que não faria mal a ninguém."
| Arquivo Pessoal |
![]() |
| Brasileiro André Martins morto a tiros em uma blitz policial em Cape Cod, Massachusetts |
Ausência
Segundo o pai, que está nos Estados Unidos desde quinta passada (25), a mãe e o irmão mais novo de Martins viajariam na última terça (5) ao país para acompanhar o enterro. "O Anderson já tinha conseguido visto e toda documentação, mas quando foi à Curitiba buscar sua mãe viu que ela não tinha condições de viajar. Ela está muito chocada e com forte enxaqueca há dez dias", disse.
Conforme o pai, a mãe e o irmão de Martins ainda irão aos EUA nos próximos dias, visitar o túmulo.
Os filhos do brasileiro também não irão ao enterro, por desejo da família. "Eles já sabem da morte do pai. O mais novo ainda não entende, mas foi muito difícil para a mais velha, que era muito apegada a ele. Ela já desconfiava mesmo antes de contarmos e, agora que sabe, acho que está um pouco melhor", disse. As crianças estão recebendo apoio de um psicólogo.
O pai disse ainda que Camila já consultou advogados sobre a possibilidade de processar o Estado de Massachusetts. "Agora não é hora de briga, mas ela já tem advogado e vai atrás de seus direitos", disse. Ainda segundo ele, Camila perdeu o emprego em um consultório médico após a polêmica envolvendo a morte de André --que estava havia sete anos nos EUA como ilegal. "Ela mora aqui desde os cinco anos, mas mandaram ela embora como se fosse uma bandida, como se fosse fora da lei."
Na última segunda (4), a comunidade brasileira em Massachussets realizou uma reunião ecumênica em memória de Martins. A polícia de Cape Cod ainda não divulgou nenhuma novidade na investigação que deve se prolongar, segundo o pai do brasileiro, por "pelo menos mais algumas semanas".
O policial que atirou em Martins foi afastado do cargo logo após o ocorrido.
Versões
De acordo com o comunicado da polícia de Yarmouth, um carro de patrulha dirigido pelo policial Christopher Van Ness, 34, observava o carro de Martins e, quando o brasileiro acelerou o veículo, acionou luzes azuis do carro policial "em uma tentativa de sinalizar para que ele parasse".
O carro do brasileiro, segundo o comunicado, virou na avenida Baxter, onde outros carros policiais realizavam uma blitz. "O veículo em questão [de Martins] virou à esquerda no jardim de uma casa localizada no número 41 da Baxter com o policial seguindo o carro", diz o texto.
Segundo o texto, o carro do brasileiro deixou marcas no asfalto, evidenciando a tentativa de fazer um retorno na rua. Tiros foram disparados pelo policial Van Ness, o carro diminuiu e parou no local. Ainda segundo o comunicado da polícia, os resultados preliminares da autópsia indicam que Martins morreu de um único tiro que perfurou seu corpo, atingindo o coração e os pulmões.
Camila apresenta uma versão diferente para o ocorrido. "O policial conversou por rádio com um segundo carro de polícia, que fechou a rua. Como viu que não ia conseguir parar a tempo, André virou o carro. O policial que bloqueou a rua desceu do veículo, apareceu na janela aberta e começou a atirar. Foram três tiros contra ele", relatou à Folha Online.
Para ela, Martins não teve chance de se defender ou de se explicar antes de ser morto a tiros. "Eles não pediram para pararmos nem para descermos do carro. Ele [o policial] só não acertou em mim porque eu abaixei no banco."
Leia mais
- Pai de brasileiro morto viaja aos EUA para conversar com promotor
- Policial que matou brasileiro nos EUA é afastado
- Brasileiro morto a tiros nos EUA estava fumando maconha, diz polícia
- "Ele não teve chance de se defender", diz mulher de brasileiro morto nos EUA
- Brasileiro é morto ao furar blitz de polícia nos EUA
- Polícia nos EUA quer brasileiros no combate ao crime
- Países ricos incentivam imigração de "alto nível"
- Comunidade brasileira nos EUA evoluiu e se espalha, diz sociólogo
Livraria da Folha
- Leia capítulo de Folha Explica a Violência Urbana
- Caco Barcellos denuncia episódios de violência policial
Especial


