Morales acusa oposição de querer "ditadura civil" na Bolívia
da Folha Online
A campanha para o referendo revogatório na Bolívia terminou nesta quinta-feira em meio a um clima de crescente polarização que impediu o presidente Evo Morales de visitar quatro departamentos (Estados) nas últimas 48 horas, enquanto três governadores fazem greve de fome e um quarto se recusa a se submeter à consulta.
Nesta quinta, o presidente definiu seus problemas para se deslocar como "uma ditadura civil que atenta contra a democracia".
| Dado Galdieri/AP |
![]() |
| Indígenas simpatizantes de Morales se preparam para participar de cerimônia em homenagem aos 183 anos do Exército do país |
O referendo revogatório do presidente Evo Morales, de seu vice e de oito governadores neste domingo (10) na Bolívia é resultado de uma forte disputa --até agora insolúvel por meio do diálogo-- entre governo, que defende uma visão de país estatizante e indigenista, e oposição, que resiste a esse enfoque.
"O referendo é para que o povo boliviano defina, com seu voto, a política econômica" da Bolívia, disse nesta quinta o presidente Morales, que completa dois anos e meio de gestão marcados pela nacionalização dos recursos naturais que eram administrados, sobretudo, por empresas de Brasil, Espanha, Holanda e Reuno Unido.
Em várias ocasiões, Morales, o primeiro indígena a governar a Bolívia em seus 183 anos de história, pediu a seus simpatizantes que "derrubem" os governadores da oposição, principalmente de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija, La Paz e Cochabamba, os quais acusa de defender os interesses das petroleiras transnacionais.
No discurso do governante aymara, predominou a constante denúncia de que grupos políticos e empresariais de direita --que, segundo ele, teriam se beneficiado dos últimos 20 anos de neoliberalismo-- planejam "como derrubar o índio", como ele mesmo se chama, inclusive apontando os Estados Unidos.
Pesquisas
"Podem derrubar o índio, mas nunca vão conseguir derrubar esse processo de mudança, que é irreversível", tem sido a mensagem de Morales em quase todos os seus discursos dos últimos dias, sobretudo na presença de grupos indígenas, a coluna vertebral de seu regime, aos quais prometeu as terras improdutivas das mãos de latifundiários.
Em suas viagens pelo país, o chefe de Estado tem dito que o referendo servirá para resolver, nas urnas, a briga entre seu projeto de governo e o da oposição.
As pesquisas privadas apontam, contudo, que ele não deve ser o único confirmado no cargo. Até o momento, ao menos três das autoridades rebeldes, entre elas as de Santa Cruz, Beni e Tarija, contam com o apoio da população.
Foram esses departamentos, junto com o de Pando, que impulsionaram a formação de governos autônomos, aprovados por ampla maioria em referendos entre maio e junho, que também são rejeitados por Evo Morales, que acusa esses modelos de gestão pública de separatismo.
O governador do rico departamento de Santa Cruz e líder dos movimentos autonômicos, Rubén Costas, condenou o estilo e a visão de governar aplicados por Morales.
"Nossa pátria não deve ser administrada como um sindicato 'cocalero'", alfinetou Costas, na quarta-feira, em referência a Morales, acrescentando que a Bolívia tampouco "quer a intromissão de governos estrangeiros", em alusão do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aliado de Evo.
Como reflexo da disputa política, Costas convocou os bolivianos a comparecer nas urnas, no domingo, para não repetir a "má experiência" do povo venezuelano que, ao decidir não participar de eleições passadas, permitiu que o líder "tomasse o poder absoluto".
À exceção do governo, que acredita na consulta de domingo, há pouco otimismo no país de que o resultado das urnas vá permitir pôr um fim à crise política. Para muitos, a expectativa é de que, diante dos conflituosos antecedentes desse processo, a conseqüência seja, justamente, o contrário.
Circulação restrita
O presidente, que encerra nesta quinta sua campanha nos arredores de La paz, viveu uma situação difícil para um chefe de Estado ao não poder visitar, entre terça e quarta, quatro departamentos opositores em razão de protestos contra o governo federal.
Em campanha, Morales chegou na tarde de quarta-feira a Santa Cruz --departamento que lidera a oposição--, mas devido aos protestos decidiu não sair do aeroporto. De lá, o presidente ia seguir a Trinidad, em Beni, mas cancelou a viagem ao ser alertado de que havia manifestantes o esperando no local.
Mais cedo na quarta, Morales teve de cancelar sua visita a Sucre, capital constitucional da república, onde iria ler perante o Congresso o relatório de sua gestão e, na véspera, suspendeu a viagem a Tarija com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Cristina Kirchner.
Em Cobija, no departamento de Beni, membros da oposição bloquearam nesta quinta a pista do aeroporto local, ainda que uma fonte da Presidência em La Paz tenha afirmado à agência France Presse que o presidente não pretendia viajar ao local.
O presidente definiu seus problemas para se deslocar como "uma ditadura civil que atenta contra a democracia".
"Lamento muito que agora as ditaduras dos 60 e 70 estão sendo substituídas por alguns grupos que tomam aeroportos", declarou Morales.
Com France Presse
Leia mais
- Governo Morales diz que Bolívia está no limite de um golpe de Estado
- Bolívia celebra aniversário de independência em ambiente de tensão
- Presidente da Bolívia diz que oposição é "egoísta" por rejeitar referendo
- Morales já não controla todo o território, afirma analista
Livraria da Folha
Especial


