Mundo
07/08/2008 - 20h57

Morales acusa oposição de querer "ditadura civil" na Bolívia

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da Folha Online

A campanha para o referendo revogatório na Bolívia terminou nesta quinta-feira em meio a um clima de crescente polarização que impediu o presidente Evo Morales de visitar quatro departamentos (Estados) nas últimas 48 horas, enquanto três governadores fazem greve de fome e um quarto se recusa a se submeter à consulta.

Nesta quinta, o presidente definiu seus problemas para se deslocar como "uma ditadura civil que atenta contra a democracia".

Dado Galdieri/AP
Indígenas simpatizantes de Morales se preparam para participar de cerimônia em homenagem aos 183 anos do Exército do país
Indígenas simpatizantes de Morales se preparam para participar de cerimônia em homenagem aos 183 anos do Exército do país

O referendo revogatório do presidente Evo Morales, de seu vice e de oito governadores neste domingo (10) na Bolívia é resultado de uma forte disputa --até agora insolúvel por meio do diálogo-- entre governo, que defende uma visão de país estatizante e indigenista, e oposição, que resiste a esse enfoque.

"O referendo é para que o povo boliviano defina, com seu voto, a política econômica" da Bolívia, disse nesta quinta o presidente Morales, que completa dois anos e meio de gestão marcados pela nacionalização dos recursos naturais que eram administrados, sobretudo, por empresas de Brasil, Espanha, Holanda e Reuno Unido.

Em várias ocasiões, Morales, o primeiro indígena a governar a Bolívia em seus 183 anos de história, pediu a seus simpatizantes que "derrubem" os governadores da oposição, principalmente de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija, La Paz e Cochabamba, os quais acusa de defender os interesses das petroleiras transnacionais.

No discurso do governante aymara, predominou a constante denúncia de que grupos políticos e empresariais de direita --que, segundo ele, teriam se beneficiado dos últimos 20 anos de neoliberalismo-- planejam "como derrubar o índio", como ele mesmo se chama, inclusive apontando os Estados Unidos.

Pesquisas

"Podem derrubar o índio, mas nunca vão conseguir derrubar esse processo de mudança, que é irreversível", tem sido a mensagem de Morales em quase todos os seus discursos dos últimos dias, sobretudo na presença de grupos indígenas, a coluna vertebral de seu regime, aos quais prometeu as terras improdutivas das mãos de latifundiários.

Em suas viagens pelo país, o chefe de Estado tem dito que o referendo servirá para resolver, nas urnas, a briga entre seu projeto de governo e o da oposição.

As pesquisas privadas apontam, contudo, que ele não deve ser o único confirmado no cargo. Até o momento, ao menos três das autoridades rebeldes, entre elas as de Santa Cruz, Beni e Tarija, contam com o apoio da população.

Foram esses departamentos, junto com o de Pando, que impulsionaram a formação de governos autônomos, aprovados por ampla maioria em referendos entre maio e junho, que também são rejeitados por Evo Morales, que acusa esses modelos de gestão pública de separatismo.

O governador do rico departamento de Santa Cruz e líder dos movimentos autonômicos, Rubén Costas, condenou o estilo e a visão de governar aplicados por Morales.

"Nossa pátria não deve ser administrada como um sindicato 'cocalero'", alfinetou Costas, na quarta-feira, em referência a Morales, acrescentando que a Bolívia tampouco "quer a intromissão de governos estrangeiros", em alusão do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aliado de Evo.

Como reflexo da disputa política, Costas convocou os bolivianos a comparecer nas urnas, no domingo, para não repetir a "má experiência" do povo venezuelano que, ao decidir não participar de eleições passadas, permitiu que o líder "tomasse o poder absoluto".

À exceção do governo, que acredita na consulta de domingo, há pouco otimismo no país de que o resultado das urnas vá permitir pôr um fim à crise política. Para muitos, a expectativa é de que, diante dos conflituosos antecedentes desse processo, a conseqüência seja, justamente, o contrário.

Circulação restrita

O presidente, que encerra nesta quinta sua campanha nos arredores de La paz, viveu uma situação difícil para um chefe de Estado ao não poder visitar, entre terça e quarta, quatro departamentos opositores em razão de protestos contra o governo federal.

Em campanha, Morales chegou na tarde de quarta-feira a Santa Cruz --departamento que lidera a oposição--, mas devido aos protestos decidiu não sair do aeroporto. De lá, o presidente ia seguir a Trinidad, em Beni, mas cancelou a viagem ao ser alertado de que havia manifestantes o esperando no local.

Mais cedo na quarta, Morales teve de cancelar sua visita a Sucre, capital constitucional da república, onde iria ler perante o Congresso o relatório de sua gestão e, na véspera, suspendeu a viagem a Tarija com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Cristina Kirchner.

Em Cobija, no departamento de Beni, membros da oposição bloquearam nesta quinta a pista do aeroporto local, ainda que uma fonte da Presidência em La Paz tenha afirmado à agência France Presse que o presidente não pretendia viajar ao local.

O presidente definiu seus problemas para se deslocar como "uma ditadura civil que atenta contra a democracia".

"Lamento muito que agora as ditaduras dos 60 e 70 estão sendo substituídas por alguns grupos que tomam aeroportos", declarou Morales.

Com France Presse

 

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