Morales errou e deixou colar imagem de autoritário, diz biógrafo
FLÁVIA MARREIRO
da Folha de S. Paulo, em La Paz
Evo Morales, "filho da precariedade da Bolívia", levou a ginástica sindical dos tempos de cocaleiro para o palácio de governo. Em mais de dois anos de poder, fez questão de manter a ligação com o camponeses e indígenas, mas falhou em conquistar o rico leste e perdeu parte da classe média que lhe era simpática em 2005.
O retrato íntimo do boliviano e flashes de sua Presidência, que estão em "Jefazo" (Sudamericana, 2008, sem tradução no Brasil), livro do jornalista e sociólogo argentino Martín Sivak, ajudam a situar a atual crise do país andino numa rota de sobressaltos de mais de duas décadas.
O "Chefão" do título é referência ao vocativo preferido de Morales, enquanto é ele quem atua como implacável padrinho de sindicatos, líderes indígenas e ministros --a exceção é no trato com Fidel Castro. O livro pincela ainda as relações dele com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O jornalista, com mais dois livros publicados sobre a Bolívia, acompanhou Morales em vários momentos nos últimos 13 anos. Até embutir-se nas tropas do já presidente e viajar com ele para África, Europa, à ONU e aos recantos do interior do país. Declinou de falar da vida pessoal dos solteiros Morales e do vice Álvaro García Linera, cujos rumores animam rodinhas e inspiração pichações em La Paz ou Santa Cruz.
O texto conta passagens da relação íntima do governo boliviano com a Embaixada dos EUA em La Paz, até 2005, em contraste com os "morram os ianques" de ainda anteontem no ato de encerramento de campanha de Morales na indígena cidade de El Alto.
À simpatia clara ao retratado e às vantagens de acesso, Sivak tenta contrapor, no livro e à Folha, o olhar do observador e sociólogo. Diz, na entrevista abaixo, que o presidente errou no manejo político da Constituinte no ano passado, e, de fundacional, ela "ficou presa no conflito" com Santa Cruz. Ao impor a maioria simples para aprovar a Carta, e não com a maioria qualificada exigida por lei e dependente da oposição, fez colar em si a imagem de autoritário ante as classe médias.
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FOLHA - Vários analistas dizem que o referendo vai apenas reproduzir a divisão política atual. Qual sua opinião?
MARTÍN SIVAK - Não concordo que o referendo é apenas uma fotografia. É uma maneira de o governo mostrar autoridade territorial. Em "off de record", os próprios líderes de Santa Cruz sabem que o estatuto [de autonomia], do jeito que está, não pode ser aplicado. Se Morales obtiver um triunfo, algo como 60%, é possível imaginar que acordos frágeis entre os dois lados possam ser feitos depois do referendo. Posso estar sendo otimista. Mas se não acontecer isso, vamos ter mais radicalização.
FOLHA - No livro o sr. comenta que integrantes do governo reconhecem que ter ficado contra as autonomias regionais em 2006 foi um erro. Foi o maior erro do governo? Se o presidente tivesse usado menos a "ginástica sindical", o resultado seria outro?
SIVAK - Talvez se Evo tivesse se apropriado dessa demanda das autonomias, poderia ter contido, um pouco, o conflito. Mas o problema não são as autonomias. O Oriente [os departamentos de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija, nas terras baixas] iria se levantar de qualquer maneira, por conta das políticas do governo. Evo confrontou as elites do país, dona dos meios de comunicação, dona das terras. O complicado é que as autonomias não são apenas uma demanda dos oligarcas, como diz o governo, é algo que fala às classes médias no Oriente.
FOLHA - E quanto há de étnico no confronto?
SIVAK - Não creio na etnização do conflito, essa é uma visão externa. Há essa faceta, mas não é a determinante. Obviamente, há preconceito, diferenças. Mas podemos comparar com o governo de Alejandro Toledo no Peru. Há a questão da cor da pele, mas o problema não começa nela. Quem provoca a reação, como disse, são as medidas do governo.
FOLHA - O livro repassa os pontos baixos da relação Morales-Lula, como a ocupação das refinarias da Petrobras pelas Forças Armadas...
SIVAK - A nacionalização, em maio de 2006, com a ocupação das refinarias pelas Forças Armadas foi a primeira ruptura em relação a Lula. Até a negociação das refinarias, foram momentos de muita tensão. E é preciso dizer que o uso das Forças Armadas não foi um gesto ao exterior, contra o Brasil, foi um gesto às próprias Forças Armadas, para que elas se sentissem parte do processo. Mas de todo modo, o governo boliviano esperava mais do governo Lula. Em termos de comparação, Evo recebeu muito mais apoio do governo Kirchner, da Argentina, que foi o primeiro a negociar e passou a pagar US$ 5 pelo gás, e antes pagava US$ 1,5.
A relação entre os dois também é um reflexo de agendas distintas. O PT chegou ao poder já muito distante do que era quando foi criado. Não é o caso do MAS. É um movimento heterogêneo que nunca tinha governado uma grande cidade. O governo Morales tem personalismo e improvisação, mas austeridade e honestidade, uma diferença marcada dos governos vizinhos.
FOLHA - No livro, Chávez não exerce influência sobre Morales na nacionalização dos hidrocarbonetos. É até moderador. Como é a relação Chávez-Morales?
SIVAK - É certo que a Venezuela pagou o escritório de advogados em Nova York [contra as empresas petroleiras], mas superestima-se a influência de Chávez. Morales não é um títere. Não foi o que eu vi. Ele antecipou que faria a nacionalização a Fidel, mas não a Chávez. É preciso lembrar que a Bolívia fez nacionalizações antes de Chávez. O antiamericanismo de Evo é muito mais antigo que o do Chávez, que começou com o golpe de 2002. Tem origem na história de Morales no Chapare [de sindicalista cocaleiro contra as políticas de erradicação dos EUA]. Morales não fala de socialismo do século 21, por exemplo. E os cheques que a Venezuela dá não tem uma contrapartida imediata.
FOLHA - A Constituinte, uma das bandeiras de Morales, corre risco de ficar apenas como um punhado de papel?
SIVAK - A Assembléia Constituinte não era uma agenda de Evo, era a "agenda de outubro" [da chamada 'Guerra do Gás', em outubro de 2003]. Houve vários problemas de manejo político na Constituinte. Um deles é não ter conseguido isolar o Podemos e ter se aliado a outras forças opositoras. Daí começou a questão dos 2/3, da qual Evo não retrocedeu. A forma como Morales lidou com a Constituinte fez colar nos meios de comunicação, nas classes médias, a imagem de autoritário. A sorte de poder quase refundacional da Constituinte se perdeu, ficou presa no conflito com o Oriente.
FOLHA - No livro, o sr. diz que Evo sempre viu a classe média com desconfiança e que não soube manter a adesão de parcelas dela, que votaram nele em 2005. Por quê?
SIVAK - Morales subverteu a fantasia da classe média que pensava que elegendo os bloqueadores [de estradas e vias públicas], haveria menos bloqueio, menos incerteza. Mas isso não aconteceu. Evo irrita a classe média pela incorreção. É o contrário de Carlos Mesa, o modelo do presidente ilustrado. Não leu, gosta de dizer que não terminou o ensino médio, embora tenha terminado. É também um governo de solteiros [tanto Morales como García Linera]. Morales toma decisões da mesma forma que fazia quando líder sindical, acentua o conflito campo-cidade. Ganha entre os camponeses e, em geral, perde na cidade. Além disso, Morales fez o que faz qualquer governo progressista do mundo faria: redistribuir renda. Talvez a classe média quisesse vê-lo quintuplicando as verbas para as universidades, e não criando um benefício para alunos da escola básica.
FOLHA - Com dois anos e meio de mandato, Evo Morales deu-se conta dos limites do poder? Mostra-se decepcionado com isso? Porque o governo merece a alcunha de revolução para o sr.?
SIVAK- Listo cinco pontos: a inclusão, a reforma agrária, a renovação das elites --um caso único da América do Sul--, a política de hidrocarbonetos e a questão da soberania na relação com os EUA. Com os EUA, o padrão de relação era dar dinheiro em troca da erradicação, de determinar a política econômica.
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