Mundo
25/12/2008 - 02h50

Leia introdução de livro que investiga as razões do 11 de Setembro

Publicidade

da Folha Online

"As torres não caíram sozinhas. Na sua ruína, varreram as esperanças emanadas da queda do Muro de Berlim e destruíram uma parte do patrimônio de liberdades das democracias". A afirmação é do jornalista especializado em relações internacionais Demétrio Magnoli e está no livro "Terror Global", lançamento da Publifolha já disponível no site da editora.

Divulgação
Demétrio Magnoli investiga as motivações do terrorismo global da Al Qaeda
Livro investiga o 11 de Setembro e o terrorismo global da Al Qaeda

Em "Terror Global", Magnoli --colunista semanal da Folha de S.Paulo entre 2004 e 2006-- faz um exame franco e corajoso do significado dos atentados de 11 de Setembro e investiga o terrorismo global liderado pela Al Qaeda de Osama Bin Laden. Saiba mais sobre o livro

O título integra a Série 21, coleção de livros breves, no formato de ensaio, reportagem ou entrevista, que tratam dos temas urgentes que definem este início de século, com espaço para comentá-los e explicá-los de maneira atualizada e sintética.

Leia abaixo o trecho de abertura do livro.

*

O Dia Das Torres

Foi na tevê de uma lanchonete do aeroporto de Curitiba que vi a imagem, um tanto onírica, de uma das torres do World Trade Center perfurada no terço superior e emitindo labaredas que subiam num rolo de fumaça contra o límpido céu azul de uma manhã de outono. O aparelho estava em volume quase inaudível e pareceu-me que o narrador especulava sobre as hipóteses de acidente aéreo e atentado terrorista. Engoli o cafezinho e saí apressado, virando as costas para a imagem fixa na tevê. Antes da palestra daquele dia, eu dispunha de algum tempo no hotel para seguir o evento extraordinário que ocorria em Nova York.

Eu tinha tudo para intuir, de imediato, o que acontecia. Afinal, por dever de ofício, seguia há muitos anos a cadeia de eventos que culminou nos atentados daquele 11 de setembro de 2001. Osama Bin Laden e a Al Qaeda eram, na época, nomes obscuros para a maioria das pessoas, mas ocupavam lugares luminosos no radar mental de todos os analistas de política internacional. Mesmo assim, a bordo do táxi, adotei por alguns minutos a hipótese do acidente, resistindo a acolher uma conclusão tão óbvia quanto aparentemente irreal. Seria possível que o tempo de inebriante otimismo inaugurado com o encerramento da Guerra Fria tivesse durado apenas um pouco mais de uma década? Como aceitar que, naquela manhã, um raio no céu azul de Nova York anunciasse uma longa era de medo e o início de uma guerra sombria, sem regras ou limites?

Naquele dia, George W. Bush se escondeu. Quando reapareceu, o mundo estava irremediavelmente transformado. Começava a "primeira guerra do século 21", um conflito que a Casa Branca crismou, numa desastrada declaração inicial, como uma "cruzada" em defesa da "civilização" e cujas expressões icônicas serão lembradas durante incontáveis gerações: as torres em chamas que desabam, os prisioneiros islâmicos enjaulados em Guantánamo, os iraquianos humilhados em Abu Ghraib.

Vários anos antes do 11 de Setembro, mas na hora do primeiro atentado contra o World Trade Center, em 1993, Samuel Huntington havia se apropriado da expressão "choque de civilizações", cunhada pelo orientalista Bernard Lewis, para de linear a visão de um mundo dividido em conjuntos geo-culturais fechados sobre suas próprias certezas absolutas.1 Essa narrativa converteu-se num paradigma da política mundial de Washington ainda antes que parassem de fumegar as ruínas das torres gêmeas. O fracasso dos EUA no Iraque, que repercutirá por todo esse século e já contribuiu para afetar estruturalmente a hegemonia americana, é um fruto direto do triunfo da narrativa de Lewis e Huntington. Mas ela tem sentido, como chave explicativa da história contemporânea? Ou, dito de outra forma, o terror de Osama Bin Laden pode ser descrito como "islâmico", isto é, como expressão histórica e política legítima do Islã?

Logo após o 11 de Setembro, alguns intelectuais que se querem de esquerda interpretaram os atentados como um golpe no "império americano" e um sinal do declínio estratégico dos EUA. Um deles, professor universitário, num debate do qual participei, deu um passo à frente e saudou "esses fundamentalistas islâmicos" que "estão liderando a luta antiimperialista". O fascínio pelo terror diz muito sobre a degeneração de correntes de esquerda que não conseguem esconder sua profunda hostilidade à democracia, mas nada diz sobre a natureza do terror jihadista.

A rede da jihad global organiza-se sobre o programa de restauração do califado, isto é, do império islâmico. O califado foi abolido logo após a Primeira Guerra Mundial, com o surgimento da Turquia moderna. De lá para cá, não há uma autoridade máxima, política e religiosa, que materialize a unidade e a centralização do mundo muçulmano. Restabelecer essa autoridade é a meta dos terroristas que conspiraram contra as torres gêmeas. Seus ataques a alvos ocidentais são apenas uma dimensão da "guerra santa" que declararam contra os Estados árabes e muçulmanos "infiéis".

Os atentados do 11 de Setembro foram concebidos originalmente por Khalid Sheikh Mohammed, um kuwaitiano que, na juventude, militou na Irmandade Muçulmana egípcia, antes de se unir à rede jihadista de Osama Bin Laden. Os a taques foram executados por 19 árabes, entre os quais 15 sauditas, e deixaram 2.974 mortos, além dos próprios terroristas. Todos os terroristas, homens maduros, de classe média e boa formação educacional, faziam parte da estrutura da Al Qaeda, a organização jihadista de Bin Laden.

Os grandes ataques a alvos ocidentais perpetrados nos anos seguintes distinguem-se dos atentados do 11 de Setembro sob alguns aspectos relevantes. Os terroristas do 11 de março de 2004, que detonaram bombas no metrô de Madri e mataram 191 pessoas, eram imigrantes marroquinos, argelinos e sírios. Eles viveram na Europa, em meio a comunidades muçulmanas estigmatizadas social e culturalmente, e não faziam parte da estrutura da Al Qaeda, embora agissem sob inspiração direta da rede jihadista.

Os terroristas suicidas do 7 de julho de 2005, que explodiram bombas no sistema de transporte público de Londres e mataram 52 pessoas, também foram recrutados na "diáspora européia". Três deles eram filhos de imigrantes paquistaneses nascidos na Grã-Bretanha e o quarto, imigrante jamaicano. Como os terroristas de Madri, estavam ligados à Al Qaeda por laços indiretos. Os atentados cometidos na Europa evidenciaram uma perigosa evolução do terror global, que conserva seu centro organizativo original mas gera uma rede horizontal amorfa - recruta militantes por meio da internet e opera descentralizadamente.

Quando sintonizei o aparelho de tevê do hotel, no fatídico 11 de Setembro, eu já não nutria nenhuma esperança na hipótese benigna do acidente aéreo. As imagens da ruína sucessiva das torres gêmeas não permitiam dúvidas sobre ao menos uma parte das repercussões daqueles atentados. Nos EUA e nas democracias européias, estava aberto o debate sobre o binômio liberdade/segurança - isto é, especificamente, sobre quanto a liberdade deveria recuar em nome do imperativo da segurança. O espectro de leis de exceção, destinadas a sustentar o combate aos terroristas, pairava sobre as nações e os cidadãos.

As coisas foram ainda mais longe do que projetaram minhas suposições pessimistas daqueles momentos. A declaração de uma guerra global ao terror, sem limites temporais ou geográficos, propiciou aos EUA a detenção, por tempo indefinido, de "combatentes inimigos" aos quais se nega acesso ao sistema de justiça criminal. Além disso, desgraçadamente, a administra ção Bush circundou durante alguns anos os tratados contra a tortura e conseguiu obter autorização parlamentar e judicial para a legalização de provas obtidas por meio da aplicação de técnicas ilegais de interrogatório. Na Grã-Bretanha, reintroduziu-se por algum tempo a detenção preventiva de suspeitos de terrorismo, abolida desde o auge do combate ao IRA, e concedeu-se prerrogativas excepcionais à Scotland Yard. Na França, estendeu-se para três anos o período permitido de detenção de suspeitos de terrorismo antes do julgamento. No mundo todo, o espaço de privacidade das pessoas comuns se reduziu de modos nem sempre evidentes, mas muito reais.

As torres não caíram sozinhas. Na sua ruína, varreram as esperanças emanadas da queda do Muro de Berlim e destruíram uma parte do patrimônio de liberdades das democracias.

Vivemos sob o signo do 11 de Setembro. Vale a pena tentar entender o que aconteceu naquela manhã.

1 Ver O Choque de Civilizações. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

*

"Terror Global"
Autor: Demétrio Magnoli
Editora: Publifolha
Páginas: 80
Quanto: R$ 12,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800 140090 ou pelo site da Publifolha

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca