Mundo
15/08/2008 - 02h00

"Fiel da balança", Oviedo não vê recuo do Brasil em Itaipu

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ELIANE CANTANHÊDE
enviada especial da Folha de S.Paulo a Assunção

O general da reserva Lino Oviedo, um dos personagens mais populares e mais controversos da política paraguaia, apóia à distância e com disfarçadas dúvidas o novo governo de esquerda de Fernando Lugo e aposta que o Brasil não vai ceder na negociação sobre Itaipu: "Uma coisa é o justo, outra é o possível. Nesse caso, os dois não coincidem. O tratado não foi feito pelo presidente Lula, e essa energia está toda comprometida", disse à Folha.

Líder inconteste da Unace (União Nacional dos Cidadãos Éticos), terceira força política do Paraguai, com 28 parlamentares, Oviedo, 64, já esteve preso quatro vezes por questões políticas, num total de 5 anos e 4 meses, foi militar por 37 anos, ficou exilado por quase quatro anos no Brasil.

Exemplo de sua importância: basta entrar no táxi e pedir para ir à sua casa. Endereço e apresentações são desnecessários.

FOLHA - Qual a expectativa em relação ao governo Lugo?
LINO OVIEDO - Haverá mudanças de valores humanos na condução do país e, em segundo lugar, da ideologia política. Havia um partido mais de direita do que de centro, e agora haverá um governo mais de esquerda do que de centro.

FOLHA - Que efeito terá isso?
OVIEDO - A gente busca um outro caminho quando o outro não deu certo para melhorar o bem comum. O fim da política e da Igreja Católica é sempre o bem comum, com uma divisão mais justa da riqueza. O principal problema do nosso país é a corrupção, por causa da impunidade. O Fernando Lugo, a gente sabe, nunca esteve implicado, imputado nem supostamente suspeito de envolvimento de corrupção.

FOLHA - Então, o sr. apóia o governo Lugo?
OVIEDO - Sim, mas com muita prudência, sem molestar ninguém e apoiando no que ele considerar necessário ou suficiente.

FOLHA - Por que o sr. recusou cargos no governo? Para poder virar para a oposição se algo der errado?
OVIEDO - Nós, da Unace, não estamos priorizando interesses de nossos partidos, mas os interesses nacionais. A grande maioria se oferece para apoiá-lo em troca de cargos e favores. Nós, como somos um partido ético, até no nome, consideramos que essa atitude é antiética. Queremos fazer uma ajuda sincera e isenta, com sugestões, idéias.

FOLHA - Como vai ficar o equilíbrio político?
OVIEDO - Há os dois partidos centenários, o Colorado e o Liberal, que se aliou com outros para formar a chamada Aliança, para eleger Lugo. Dessa Aliança, 82% dos votos para Lugo veio do Partido Liberal. Dos 14 senadores do partido, nove estão com Lugo, quatro estão descontentes, um está indeciso. Isso para você ter uma idéia. Os colorados têm 15 senadores, dos quais 8 estão com o Nicanor Duarte Frutos (presidente que sai), uns três estão fora e o resto está independente.

FOLHA - Sem maioria, ele vai ter dificuldades? A Unace é o fiel da balança como dizem?
OVIEDO - Lugo não tem partido, nem maioria. E a Unace é a única que vota em bloco, unida.

FOLHA - Que balanço o sr. faz do governo Nicanor Duarte Frutos?
OVIEDO - Ele se dedicou à macroeconomia. Na micro, se perdeu. Houve muita imigração, calcula-se que meio milhão de paraguaios estejam fora do país. Pela fome, pela insegurança, pela falta de emprego. Então, o povo cobrou no voto. Além disso, houve brigas terríveis internas nos Colorados, e a candidata presidencial foi mal escolhida.

FOLHA - Qual o maior desafio agora, depois do combate à corrupção e investir no crescimento?
OVIEDO - Evitar o confronto social, por isso Lugo anuncia diálogo com o Congresso e com o campo.

FOLHA - Lugo diz que o Brasil precisa pagar mais pela energia excedente de Itaipu, para ele ter de US$ 1,5 bilhão a US$ 2 bilhões por ano para investir no social. O sr. acha justo?
OVIEDO - Uma coisa é o justo, outra é o possível. Nesse caso, os dois não coincidem. O tratado não foi feito pelo presidente Lula, e essa energia está toda comprometida. É justo pedir, mas para mim não vai ser possível.

FOLHA - Se não houver aumento de preço, de onde Lugo vai tirar recursos para a revolução social que prometeu?
OVIEDO - Não sei. Ninguém sabe. Vamos esperar. Todos prometem muito, mas não dizem como vão fazer.

FOLHA - Em que o Brasil pode ajudar?
OVIEDO - Pode ajudar muitíssimo com a tecnologia de alimentos, que é equiparada com as melhores do mundo. Que mandem aqui a Embrapa, a Emater. O poder do Paraguai corresponde a 1% do do Brasil. O que precisamos é fazer uma pauta ampla, possível, realista.

FOLHA - E a questão dos brasiguaios?
OVIEDO - Para mim, isso não é um problema. Os dois, os brasileiros e os paraguaios, amam a terra, querem desenvolver a terra. Por que não podem ser amigos? Os brasileiros têm conhecimento, têm tecnologia, produzem mais. Rechaço totalmente qualquer discriminação por nacionalidade.

FOLHA - O sr. acha que Lugo vai conseguir aumentar os impostos, como pretende? Os produtores de soja vão deixar?
OVIEDO - Primeiro, é preciso verificar se a lei está sendo cumprida por todos, se todos estão pagando os impostos já existentes. Estou seguro de que não e já te digo: os que não podem pagam, e os que podem não pagam.

 

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