Mundo
18/08/2008 - 16h47

Renúncia de Musharraf reflete perda de influência dos EUA, diz analista

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MARIANA CAMPOS
da Folha Online

A renúncia do ditador Pervez Musharraf --aliado dos EUA na chamada "guerra contra o terror"-- reflete a perda de influência do governo norte-americano na política do Paquistão. A opinião é do cientista político Samuel Feldberg, membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP (Universidade de São Paulo).

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"Os EUA viam Musharraf como um importante aliado e a perda de influência dele --com a concentração de suas atividades na Presidência-- certamente aponta para a incapacidade dos EUA de influenciarem a política paquistanesa. Esse talvez seja o fato mais importante que vem sendo distribuído ao longo do período", afirmou Feldberg em entrevista à Folha Online.

AP
Musharraf faz pronunciamento à nação informando que irá renunciar ao cargo
Musharraf faz pronunciamento à nação informando que irá renunciar ao cargo

Segundo ele, essa perda de influência não foi algo que aconteceu abruptamente. "Vemos ao longo dos últimos meses, dos últimos anos, uma diminuição da capacidade dos EUA de influenciar a política paquistanesa, especialmente no que se refere à chamada 'guerra contra o terror' e ao que se refere às atividades na fronteira com o Afeganistão", disse o analista em entrevista por telefone.

Musharraf anunciou nesta segunda-feira sua renúncia à Presidência do Paquistão em pronunciamento na TV, um dia depois de o governo de coalizão contrário a ele dizer que o texto acusatório que pediria a cassação seria entregue à liderança para aprovação. Com suas acusações de violação da Constituição e má gestão da economia, os opositores pretendiam iniciar um processo de impeachment --e Musharraf não tinha maioria para evitar a cassação.

Segundo Feldberg, a perda de influência dos EUA na política interna paquistanesa ocorre paralelamente à perda de poder do próprio Musharraf dentro do país. O cientista afirma que a consolidação deste processo aconteceu, em uma primeira etapa, com a renúncia de Musharraf como comandante das Forças Armadas e, em uma segunda etapa, com "a eliminação formal de Musharraf no cenário político". Se ele não renunciasse, é provável que sofreria o impeachment.

"A pergunta é o quanto ele vai continuar exercendo de influência nos bastidores. É o que certamente continuava acontecendo, apesar de ele ter se transformado em uma figura mais representativa", diz Feldberg.

Arte/Folha Online
mapa da região do Paquistão

De acordo com a Constituição, agora, o presidente do Senado, Mohammedmian Soomro, assumirá o cargo interinamente por 30 dias, que é o prazo máximo para a escolha de um novo presidente.

Quando questionado sobre a possibilidade de alguém da coalizão governante, como o ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif ou de Asif Ali Zardari, viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto (assassinada em um atentado em dezembro de 2007), assumirem o poder após a saída de Musharraf, Feldberg preferiu não arriscar. "O processo está muito inflamado neste momento para arriscar algum palpite", disse, ressaltando que todos, no momento, têm possibilidade.

O analista político disse também que não acredita na possibilidade de Musharraf pedir asilo político aos EUA. Segundo ele, a probabilidade é maior de os EUA articularem o asilo de Musharraf --se necessário-- em outro país.

"Isso vai depender do que o Musharraf vai perceber dos próximos passos neste processo que eventualmente levaria a seu impeachment. Se ele se sentir ameaçado e não puder contar com o apoio que tinha nos segmentos mais importantes das Forças Armadas, eventualmente pode solicitar asilo a algum país."

Com a saída do ditador do poder, Feldberg afirma que vislumbra um fortalecimento do Judiciário e "talvez uma diminuição da vontade nacional de enfrentar as forças tribais localizadas na fronteira com o Afeganistão [considerado foco de insurgência]".

 

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