Renúncia de Musharraf reflete perda de influência dos EUA, diz analista
MARIANA CAMPOS
da Folha Online
A renúncia do ditador Pervez Musharraf --aliado dos EUA na chamada "guerra contra o terror"-- reflete a perda de influência do governo norte-americano na política do Paquistão. A opinião é do cientista político Samuel Feldberg, membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP (Universidade de São Paulo).
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"Os EUA viam Musharraf como um importante aliado e a perda de influência dele --com a concentração de suas atividades na Presidência-- certamente aponta para a incapacidade dos EUA de influenciarem a política paquistanesa. Esse talvez seja o fato mais importante que vem sendo distribuído ao longo do período", afirmou Feldberg em entrevista à Folha Online.
| AP |
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| Musharraf faz pronunciamento à nação informando que irá renunciar ao cargo |
Segundo ele, essa perda de influência não foi algo que aconteceu abruptamente. "Vemos ao longo dos últimos meses, dos últimos anos, uma diminuição da capacidade dos EUA de influenciar a política paquistanesa, especialmente no que se refere à chamada 'guerra contra o terror' e ao que se refere às atividades na fronteira com o Afeganistão", disse o analista em entrevista por telefone.
Musharraf anunciou nesta segunda-feira sua renúncia à Presidência do Paquistão em pronunciamento na TV, um dia depois de o governo de coalizão contrário a ele dizer que o texto acusatório que pediria a cassação seria entregue à liderança para aprovação. Com suas acusações de violação da Constituição e má gestão da economia, os opositores pretendiam iniciar um processo de impeachment --e Musharraf não tinha maioria para evitar a cassação.
Segundo Feldberg, a perda de influência dos EUA na política interna paquistanesa ocorre paralelamente à perda de poder do próprio Musharraf dentro do país. O cientista afirma que a consolidação deste processo aconteceu, em uma primeira etapa, com a renúncia de Musharraf como comandante das Forças Armadas e, em uma segunda etapa, com "a eliminação formal de Musharraf no cenário político". Se ele não renunciasse, é provável que sofreria o impeachment.
"A pergunta é o quanto ele vai continuar exercendo de influência nos bastidores. É o que certamente continuava acontecendo, apesar de ele ter se transformado em uma figura mais representativa", diz Feldberg.
| Arte/Folha Online |
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De acordo com a Constituição, agora, o presidente do Senado, Mohammedmian Soomro, assumirá o cargo interinamente por 30 dias, que é o prazo máximo para a escolha de um novo presidente.
Quando questionado sobre a possibilidade de alguém da coalizão governante, como o ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif ou de Asif Ali Zardari, viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto (assassinada em um atentado em dezembro de 2007), assumirem o poder após a saída de Musharraf, Feldberg preferiu não arriscar. "O processo está muito inflamado neste momento para arriscar algum palpite", disse, ressaltando que todos, no momento, têm possibilidade.
O analista político disse também que não acredita na possibilidade de Musharraf pedir asilo político aos EUA. Segundo ele, a probabilidade é maior de os EUA articularem o asilo de Musharraf --se necessário-- em outro país.
"Isso vai depender do que o Musharraf vai perceber dos próximos passos neste processo que eventualmente levaria a seu impeachment. Se ele se sentir ameaçado e não puder contar com o apoio que tinha nos segmentos mais importantes das Forças Armadas, eventualmente pode solicitar asilo a algum país."
Com a saída do ditador do poder, Feldberg afirma que vislumbra um fortalecimento do Judiciário e "talvez uma diminuição da vontade nacional de enfrentar as forças tribais localizadas na fronteira com o Afeganistão [considerado foco de insurgência]".
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