Coalizão se reúne para decidir novo governo do Paquistão
da Folha Online
Os líderes da coalizão governamental paquistanesa se reúnem nesta terça-feira para iniciar negociações sobre a sucessão do chefe de Estado e sobre como readmitir dezenas de juízes demitidos pelo ex-presidente no ano passado, em uma manobra para se manter no poder.
Nesta segunda, diante da pressão da coalizão, o presidente Pervez Musharraf renunciou à Presidência para não ter de enfrentar processo de impeachment.
"Os dirigentes querem discutir sobre temas relativos à era "pós-Musharraf", incluindo eleições presidenciais", afirmou Farhatulah Babar, porta-voz do Partido do Povo Paquistanês (PPP), da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto (morta em um atentado) e que lidera a coalizão.
A reunião acontecerá na capital Islamabad, na residência do viúvo de Bhutto e atual co-presidente do PPP, Asif Ali Zardari --um dos nomes apontados como sucessor de Musharraf.
A televisão local exibiu imagens de Zardari que, acompanhado por seu filho, Bilawal Bhutto Zardari, recebia Nawaz Shariz, o ex-primeiro-ministro a quem Musharraf derrubou do poder num golpe de Estado, em 1999.
O ministro de Justiça paquistanês, Farooq Naek, disse nesta terça-feira que o governo não fez acordo de imunidade com Musharraf e que a reunião de hoje decidirá também as responsabilidades a serem atribuídas ao ex-ditador. "Não há nenhum acordo com o presidente, ele decidiu renunciar por si mesmo", disse.
Um dos partidos da oposição defende que Musharraf seja julgado por traição, que pode levá-lo à pena de morte.
A mídia paquistanesa sugere que Musharraf pode deixar o país por questões de segurança --ele é odiado pelos movimentos extremistas islâmicos e impopular entre os paquistaneses.
O modo como a coalizão lida com a sucessão, através de uma luta pelo poder ou uma frente unida, é uma questão crítica para o país que vive ondas de violência crescente.
Renúncia
No auge da impopularidade, Musharraf finalmente cedeu às pressões de adversários políticos e encerrou nove anos de ditadura apoiada nas forças militares.
Com a violência crescente no país, fruto das ações de grupos extremistas ligados a Al Qaeda e ao Taleban, Musharraf perdeu o apoio Exército e, sobretudo, dos Estados Unidos, até agora seu aliado chave na guerra contra o terrorismo islâmico. Eles o vinham condenando cada vez mais por não lutar com eficácia contra a presença da rede terrorista nas zonas tribais do noroeste do país.
"Depois de analisar a situação e consultar conselheiros e aliados políticos, decidi renunciar", disse Musharraf com semblante grave.
"Deixo meu futuro nas mãos do povo", acrescentou, ao final de um discurso no qual defendeu seu balanço e acusou a coalizão governista, antiga oposição que saiu vitoriosa das eleições legislativas de fevereiro, de fugir aos fundamentos da República Islâmica do Paquistão, com 160 milhões de habitantes.
Musharraf fez questão de reiterar sua inocência e assegurar que as acusações políticas contra ele não se sustentavam.
A coalizão de partidos que venceu as eleições conseguiu superar suas divisões e acertou em 7 de agosto que buscaria a destituição de Musharraf.
As potências ocidentais querem que o Paquistão resolva a crise o quanto antes possível para se concentrar na luta contra as milícias islamitas talebans e a rede Al-Qaeda nas regiões fronteiriças com o Afeganistão, onde 500 pessoas morreram na semana passada.
Violência
A saída de Musharraf foi acompanhada de ondas de comemoração, mas também de violência. Nesta terça-feira, um homem-bomba atacou a sala de emergências de um hospital no noroeste do Paquistão e provocou a morte de pelo menos 23 pessoas, informou a polícia.
O atentado ocorreu em um hospital da cidade de Dera Ismail Khan, próxima às zonas tribais onde o Exército combate os islamitas radicais aliados à Al Qaeda e aos talebans afegãos, e onde a violência é freqüente há mais de um ano.
"Há 23 mortos confirmados e até 20 feridos. Encontramos as pernas do suposto agressor suicida", disse o chefe da Polícia da província, Malik Navid Khan, à TV Geo.
Com France Presse e Associated Press
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