Michelle Obama evoca Jackie e afasta fama rude rumo à Casa Branca
GABRIELA MANZINI
da Folha Online
Quando ocupou o centro da Convenção Democrata, ontem, Michelle Obama não carregava só a responsabilidade de conquistar votos para o marido, Barack Obama. Usando oratória e um impecável "cocktail dress" (vestido elegante), ela também precisava afastar-se da imagem de mulher brava e ganhar para si mesma a aceitação do americano médio, já que deseja tornar-se a primeira mulher negra a ocupar o posto de primeira-dama do país.
"Ontem, naquele palco, Michelle quase não era uma mulher negra. Ela estava muito distante da mulher negra estereotipada. Tinha uma imagem e uma presença muito mais sutis do que no início da campanha", disse Doris Klietmann, sócia sênior e diretora-executiva da Optimum, empresa especializada em consultoria de imagem sediada em Boston.
| Mike Segar/Reuters |
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| Michelle Obama na Convenção Democrata |
Em entrevistas concedidas à Folha Online por telefone, Klietmann e a consultora de imagem Julia Piscitelli, que promove media training em Washington, disseram que a Michelle de ontem estava muito mais sorridente que o habitual.
Klietmann observou que Michelle usava um vestido elegante --mas não extravagante--, com um broche próximo ao coração. "Quando você olha para ela, você olha para lá. Daí, parece que o que ela faz vem do coração. Havia também o decote em formato de 'v', que simboliza abertura. Era como se ela dissesse 'se tiver um problema, recorra a mim'."
"O modo como Michelle estava vestida era perfeito. Ela usava um vestido, e não um terninho, com caimento e cor muito bonitos. Essa linha 'clean', próxima de Chanel, lembra vestidos que Jackie Kennedy usaria", observou Piscitelli. O clã dos Kennedy --não por acaso um modelo do "american way of life" [o modo de vida dos americanos]-- tinha sido lembrado em um outro momento da convenção, menos de uma hora antes de Michelle subir ao palco, com a aparição do senador Edward Kennedy.
"Pela roupa, dá para dizer que a idéia era criar uma sensação de conversa diante da lareira. Ela agia como se dissesse 'venha comigo, deixe eu contar uma história'", disse Piscitelli.
| Judy DeHaas/AP |
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| Michelle e as filhas Sasha, 7, e Malia, 10, vêem Obama em telão |
De acordo com Piscitelli, não apenas Michelle mas toda a ambientação colaboravam para a construção de um clima de harmonia. Ela apontou como exemplos as cores do palco e das roupas de Michelle e de as filhas, que eram complementares; e o fato de as meninas terem flores presas aos vestidos, em paralelo com o broche de Michelle.
Na opinião de ambas as especialistas, Michelle fez um bom trabalho. "É claro que houve promessas demais, mas é isso que os americanos querem ouvir agora. É preciso considerar que o país está em crise financeira. Mesmo que não tenha sido verdade, foi uma mensagem motivacional cuja idéia era dar às pessoas o que elas querem ouvir", concluiu Klietmann.
Fãs de Hillary
Ontem, Michelle não carregava somente a responsabilidade de suavizar a própria imagem e de humanizar o marido com paralelos entre o casal e a a maioria dos americanos --ela tinha que fazer isso sem agredir outra grande figura democrata, a ex-pré-candidata Hillary Clinton.
Falando de pessoas que trabalham pelo bem do país, Michelle citou Hillary como alguém que "colocou 18 milhões de rachaduras no teto de vidro, para que nossas filhas e filhos pudessem sonhar um pouco mais e mirar um pouco mais alto".
"Conversei com pessoas que acharam a menção a Hillary desnecessária", diz Piscitelli. Para a consultora de imagem, toda a atmosfera do discurso de Michelle pode ter irritado quem apóia Hillary, com a percepção de que tudo era perfeito demais. "Para quem apóia Obama, eu acho que essa imagem só refletiu o homem que querem que seja presidente. Mas os fãs de Hillary estão, potencialmente, pensando isso."
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