Mundo
27/08/2008 - 17h19

Leia a íntegra do discurso de Hillary Clinton na Convenção Democrata

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da Folha Online

Hillary Clinton, senadora e ex-primeira-dama dos Estados Unidos, foi o foco das atenções ontem, no segundo dia da Convenção Nacional Democrata, em Denver (Estados Unidos).

Em sua fala, ela precisava unir os delegados em torno da candidatura do senador Barack Obama, que está estagnado nas pesquisas de intenção de voto contra o rival republicano John McCain, e consolar os simpatizantes que ficaram desapontados por ela não ter sido escolhida candidata do partido nas primárias e por Obama não tê-la apontado para a vice-presidência na chapa.

Leia abaixo a íntegra do discurso feito por Hillary:

"Obrigada. Obrigada a todos. Muito obrigada a todos. Me sinto muito honrada por estar aqui esta noite. Estou aqui hoje na condição de mãe que tem orgulho de sê-lo, de democrata que tem orgulho de sê-lo, de senadora pelo Estado de Nova York que tem orgulho de sê-lo. De americana que tem orgulho de ser americana, e de orgulhosa partidária de Barack Obama.

Meus amigos, é hora de tomarmos de volta o país que amamos. E, quer vocês tenham votado em mim ou em Barack, o momento agora é de nos unirmos como partido único, com um só objetivo.

Fazemos parte da mesma equipe. E nenhum de nós pode se dar ao luxo de ficar de lado, apenas assistindo. Esta é uma luta pelo futuro, e é uma luta que precisamos vencer juntos.

Não passei os últimos 35 anos nas trincheiras, defendendo os direitos das crianças, fazendo campanha pelo atendimento de saúde universal, ajudando pais a equilibrar trabalho e família e lutando pelos direitos das mulheres aqui em casa e em todo o mundo apenas para ver outro republicano na Casa Branca desperdiçar nossa promessa de um país que realmente realize as esperanças de nosso povo. E vocês não trabalharam tão duro nos últimos 18 meses, nem suportaram os últimos oito anos, apenas para sofrerem com mais liderança falha.

De jeito nenhum, não há como --McCain não dá.

Barack Obama é meu candidato e precisa ser nosso presidente.

Peço a vocês hoje que lembrem de que trata realmente uma eleição presidencial. Quando as urnas tiverem sido fechadas e os anúncios finalmente tiverem saído do ar, o que estará em jogo são vocês, o povo americano, e suas vidas, e o futuro de seus filhos.

Para mim, tem sido um privilégio encontrá-los em suas casas, seus locais de trabalho e suas comunidades. Suas histórias me fizeram recordar que, todos os dias, a grandeza dos EUA está atrelada às vidas dos americanos, a seu trabalho duro, sua dedicação ao dever, seu amor por seus filhos e sua determinação em seguir adiante, muitas vezes enfrentando obstáculos enormes.

Vocês me ensinaram tanto! Vocês me fizeram rir, e, sim, até me fizeram chorar.

Vocês me deixaram virar parte de suas vidas, e vocês se tornaram parte da minha.

Sempre me lembrarei da mãe solteira que adotou duas crianças autistas. Ela não tinha seguro-saúde e descobriu que tinha câncer. Mas me cumprimentou com um gesto de sua cabeça calva, com meu nome pintado sobre ela, e me pediu para lutar por seguro-saúde para ela e seus filhos.

Sempre me lembrarei do rapaz usando camiseta dos marines que esperou meses para ter atendimento médico. E ele me disse: "Cuide de meus companheiros. Muitos deles ainda estão lá fora. E depois, por favor, a senhora poderia cuidar de mim?"

E sempre me lembrarei do menino que me contou que sua mãe trabalhava em troca do salário mínimo horário e que seu patrão reduzira seu horário de trabalho. Ele disse que não sabia como sua família ia se virar.

Sempre serei grata a todas as pessoas de todos os 50 Estados, de Porto Rico e dos territórios que se uniram a nossa campanha em prol das pessoas a quem a administração Bush deixou de fora e deixou para trás. Àqueles que me apoiaram e me defenderam, a minha "irmandade dos terninhos de trabalho viajantes" [referência ao filme "Quatro amigas e um jeans viajante", cujo título original é "The sisterhood of the travelling pants"], do fundo do coração, obrigada. Obrigada porque vocês nunca se renderam e nunca desistiram. Juntos, fizemos história.

E, nesse caminho, a América perdeu dois grandes defensores democratas que teriam estado aqui conosco nesta noite: um de nossos melhores líderes jovens, o presidente dos democratas do Arkansas Bill Gwatney, que acreditava do fundo do coração que os EUA e o Sul deveriam ser democratas de alto e baixo, e a deputada Stephanie Tubbs-Jones, amiga querida de muitos de nós, mãe amorosa, líder corajosa que nunca desistiu de sua luta para fazer dos EUA um país mais justo e inteligente, mais forte e melhor. Firme e constante em suas posições, uma lutadora de graça incomum, ela foi uma inspiração para mim e para nós todos.

Nosso sentimentos estão com o filho de Stephanie, Mervyn Jr., e com a mulher de Bill, Rebecca, que viajou para cá, para Denver, para unir-se a esta família de democratas.

Vocês sabem, e Bill Gwatney e Stephanie Tubbs-Jones sabiam, que, depois de oito anos de governo de George Bush, as pessoas em nosso país estão sofrendo, e nossa posição foi enfraquecida em todo o mundo.

Temos muito trabalho pela frente: empregos perdidos; casas perdidas; salários em queda; preços em alta; a Suprema Corte dominada pela direita; nosso governo preso num atoleiro partidário; o maior déficit da história de nosso país; dinheiro emprestado dos chineses para comprar óleo dos sauditas; Putin e a Geórgia, o Irã e o Iraque.

Eu me candidatei à presidência para renovar a promessa da América, para reerguer a classe média e sustentar o sonho americano, para oferecer oportunidades àqueles que se dispõem a trabalhar duro por elas e ter seu trabalho recompensado, para que possam poupar para a faculdade, para a casa própria e a aposentadoria, para poderem pagar pelo combustível e a alimentação e ainda terem um pouco sobrando ao final de cada mês.

Para promover uma economia à base de energia limpa, que gere milhões de empregos de colarinho verde, para criar um sistema de saúde que seja universal, de alta qualidade e de custo viável para o bolso das pessoas, para que cada pai ou mãe celibatário possa saber que seus filhos terão assistência.

Queremos criar um sistema educacional de primeiro nível e fazer a faculdade ter um custo ao alcance dos bolsos das pessoas outra vez. Queremos lutar por uma América que seja definida por igualdade profunda e significativa, desde os direitos civis até os direitos trabalhistas, dos direitos das mulheres aos direitos dos gays.

Queremos lutar pelo fim da discriminação e a promoção da sindicalização, para oferecer ajuda ao trabalho mais importante que existe, que é cuidar de nossas famílias, e ajudar cada criança a cumprir seu potencial dado por Deus, para novamente fazer dos Estados Unidos um país de imigrantes e de leis, para devolver a Washington a sanidade fiscal e fazer de nosso governo uma instituição para o bem público, e não para a pilhagem privada.

Para restaurar a posição dos Estados Unidos no mundo, para pôr fim à guerra no Iraque, trazer nossos soldados para casa com honra, cuidar de nossos veteranos e lhes garantir os serviços que fizeram por merecer.

Vamos trabalhar pela volta de uma América que se una a nossos aliados para fazer frente a nossos desafios comuns, desde a pobreza e o genocídio ao terrorismo e o aquecimento global.

Sobretudo, concorri para defender todos aqueles que têm sido invisíveis ao governo por oito longos anos. São essas as razões pelas quais me candidatei à Presidência, e são essas as razões pelas quais apóio Barack Obama para presidente.

Quero que vocês se perguntem: vocês estiveram nessa campanha apenas por mim, ou estiveram nela por aquele jovem marine e outros como ele?

Estiveram na campanha por aquela mãe que luta contra o câncer enquanto cria seus filhos?

Estiveram nela por aquele garoto e sua mãe que sobrevivem com o salário mínimo?

Estiveram nela em nome das pessoas deste país que se sentem invisíveis?

Precisamos novamente ter líderes que sejam capazes de inspirar aquele misto especial de confiança e otimismo americanos que possibilitaram a gerações anteriores à nossa fazer frente a nossos desafios mais difíceis _líderes que possam nos ajudar a mostrar a nós mesmos e ao mundo que, como nossa inteligência, criatividade e espírito inovador, não há limites ao que é possível nos Estados Unidos.

Isso não será fácil. O progresso nunca é fácil. Mas será impossível se não lutarmos para reconduzir um democrata à Casa Branca.

Precisamos eleger Barack Obama porque precisamos de um presidente que compreenda que os Estados Unidos não podem competir na economia global, recheando os bolsos de especuladores energéticos ao mesmo tempo em que ignoram os trabalhadores cujos empregos foram transferidos para o exterior.

Precisamos de um presidente que compreenda que não podemos resolver os problemas do aquecimento global dando lucros enormes a empresas petrolíferas, ao mesmo tempo em que ignoramos as oportunidades de investir nas novas tecnologias que vão construir uma economia verde.

Precisamos de um presidente que compreenda que o gênio dos Estados Unidos sempre dependeu da força e vitalidade da classe média.

Barack Obama iniciou sua carreira lutando por trabalhadores deslocados pela economia global. Ele ergueu sua campanha sobre a base da crença fundamental de que as transformações neste país precisam começar de baixo para cima, e não de cima para baixo.

Ele sabe que o governo deve ser para "nós, o povo", e não para "nós, a minoria privilegiada".

E, quando Barack Obama estiver na Casa Branca, ele revitalizará nossa economia, defenderá os trabalhadores da América e fará frente aos desafios globais de nossos tempos.

Os democratas sabem como fazer isso. Se me recordo bem, nós já o fizemos antes, com o presidente Clinton e os democratas.

E, se fizermos nossa parte, nós o faremos de novo com o presidente Obama e os democratas.

Pensem apenas no que a América será quando transformamos nossa economia energética, gerarmos aqueles milhões de empregos, construirmos uma base forte para o crescimento econômico e a prosperidade compartilhada, conseguirmos para as famílias de classe média o alívio tributário que elas merecem.

E mal posso esperar para ver Barack Obama aprovar um plano de saúde que dê cobertura a cada americano.

E sabemos que o presidente Obama encerrará a guerra no Iraque de modo responsável, trazendo nossos soldados para casa, e que começará a reparar nossas alianças em todo o mundo.

E Barack terá uma parceira tremenda com ele, na figura de Michelle Obama.

Qualquer pessoa que tenha assistido ao discurso de Michelle, ontem à noite, sabe que ela será uma ótima primeira-dama para os Estados Unidos.

E os americanos têm sorte pelo fato de que Joe Biden estará ao lado de Barack Obama. Um líder forte, um homem bom que compreende tanto as tensões econômicas aqui em nosso país quanto os desafios estratégicos fora dele. Ele é pragmático, é resistente e é sábio.

E Joe, é claro, terá o apoio de sua maravilhosa esposa, Jill.

Eles serão uma grande equipe para nosso país.

John McCain é meu colega e meu amigo. Ele vem servindo a nosso país com honra e coragem. Mas não precisamos de mais quatro anos como os últimos oito anos...

PÚBLICO: Não!

..., de mais estagnação econômica e menos saúde ao alcance de todos...

PÚBLICO: Não!

... de mais preços altos da gasolina e menos energia alternativa...

PÚBLICO: Não!

... de mais empregos transferidos para o exterior e menos empregos gerados aqui...

PÚBLICO: Não!

.. de mais dívida que não pára de crescer, de mais casas com hipotecas executadas, de mais contas cada vez mais caras que estão sufocando as famílias de classe média...

PÚBLICO: Não!

... de mais guerra e menos diplomacia...

PÚBLICO: Não!

... de mais governo em que alguns poucos privilegiados vêm em primeiro lugar, e todas as outras pessoas vêm em último.

PÚBLICO: Não!

Bem, John McCain diz que nossa economia está fundamentalmente sadia. John McCain não acha que 47 milhões de pessoas sem seguro-saúde seja uma crise. John McCain quer privatizar a Seguridade Social. E, em 2008, ele ainda acha que não há problema quando mulheres não recebem salários iguais aos homens pelo mesmo trabalho. (público vaia).

Com uma agenda como essa, faz todo sentido que George Bush e John McCain estejam juntos na próxima semana nas Cidades Gêmeas, porque, hoje em dia, é muito difícil diferenciar um do outro.

Vocês sabem, os Estados Unidos ainda estão por aqui, depois de 232 anos, porque em cada tempo novo nós temos enfrentado os desafios, mudando para nos mantermos fiéis a nossos valores de oportunidades iguais para todos e defesa do bem comum. E sei o que isso pode significar para cada homem, mulher e criança nos Estados Unidos.

Sou senadora dos Estados Unidos porque, em 1848, um grupo de mulheres corajosas, e alguns poucos homens bravos, se reuniram em Seneca Falls, Nova York, muitos deles depois de terem viajado dias e noites, para participar da primeira convenção de nossa história sobre os direitos das mulheres. E assim raiou uma luta pelo direito de votar que duraria 72 anos, transmitida de mãe para filha e para neta, e, de quebra, para alguns filhos e netos.

Essas mulheres e esses homens olharam nos olhos de suas filhas e imaginaram um mundo mais justo e mais livre, encontrando a força para lutar, para fazer manifestações, para fazer piquetes, para suportar escárnio e assédio, para enfrentar a violência e a prisão.

E depois de tantas décadas, há exatamente 88 anos, a 19ª emenda, que concede às mulheres o direito ao voto, passou a fazer parte de nossa Constituição.

Minha mãe nasceu antes de as mulheres poderem votar. Minha filha pôde votar por sua mãe para presidente. Esta é a história da América, de mulheres e homens que desafiam as adversidades e nunca desistem da luta.

Então como podemos devolver este país a eles? Seguindo o exemplo de uma corajosa nova-iorquina, uma mulher que arriscou sua vida para conduzir escravos à liberdade pela Ferrovia Subterrânea (uma rota de fuga de escravos do sul do país para o norte).

Naquele caminho para a liberdade, Harriet Tubman tinha um conselho que oferecia: "Se você ouvir os cães, continue em frente. Se ver as tochas acesas nas florestas, continue em frente. Se ouvir gritos atrás de você, continue em frente. Não pare nunca. Continue em frente. Se quiser sentir o gosto da liberdade, continue em frente."

E é isso o que os americanos têm feito, mesmo nos momentos mais sombrios. Encontramos a fé necessária para continuar em frente.

Eu já o testemunhei. Já o vi em nossos professores e nossos bombeiros, nossos policiais, nossos enfermeiros, nossos pequenos empresários e nossos trabalhadores sindicalizados. Já o vi nos homens e mulheres de nossas Forças Armadas.

Na América você sempre continua em frente. Somos americanos. Nosso forte não é desistir.

E, lembrem-se, antes de continuarmos em frente, precisamos começar a andar para frente, elegendo Barack Obama para ser o próximo presidente dos Estados Unidos.

Não temos um instante a perder, nem um voto a desperdiçar. Estão em jogo nada menos que o destino de nosso país e o futuro de nossos filhos.

Quando chegar o dia da eleição, quero que vocês pensem em seus filhos e netos. Pensem nas escolhas feitas por seus pais e avós que tiveram impacto tão grande sobre suas vidas e sobre a vida de nosso país.

Precisamos garantir que a escolha que fizermos nesta eleição honre os sacrifícios de todos os que nos antecederam e que encha as vidas de nossos filhos de possibilidades e esperança.

Esse é nosso dever, para construir esse futuro brilhante, para ensinar a nossos filhos que, nos EUA, não existe abismo profundo demais, não existe barreira alta demais nem telhado demasiado alto para todos os que trabalham duro, que seguem em frente, que têm fé em Deus, em nosso país e nos outros.

Essa é nossa missão, democratas. Vamos eleger Barack Obama e Joe Biden, por aquele futuro digno de nosso grande país.

Obrigado. Deus os abençoe e os acompanhe."

Tradução de Clara Allain

 

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