Leia a íntegra do discurso de Joe Biden na Convenção Democrata
da Folha de S. Paulo
Joe Biden, senador democrata por Delaware, discursou nesta quarta-feira (27), terceiro dia da Convenção Nacional Democrata, em Denver (Estados Unidos).
Após ser apresentado pelo filho, Beau Biden, o senador reafirmou seu apoio à candidatura de Barack Obama à Presidência. Criticou seu amigo de longa-data, o candidato republicano, John McCain, e disse que "Obama trará a mudança que a América precisa".
Leia abaixo a íntegra do discurso feito por Biden:
"Beau, eu amo você. Tenho orgulho do filho que você é. Tenho orgulho do pai em que se transformou. E tenho muito orgulho de meu filho Hunter, de minha filha Ashley, de minha mulher Jill a única pessoa que me deixa sem fôlego e sem palavras ao mesmo tempo.
É uma grande honra dividir o palanque esta noite com o presidente Clinton. E, na noite de ontem, foi comovente assistir a Hillary, uma das grandes líderes do nosso partido, uma mulher que fez história e continuará a fazer história, minha colega e minha amiga, a senadora Hillary Clinton.
E estou honrado por representar o nosso primeiro Estado o meu Estado-, o Delaware. Já que ninguém jamais me tomou por um homem lacônico, permitam-me fazer uma afirmação da maneira mais simples que posso: Sim. Sim, eu aceito sua indicação para disputar a eleição e servir ao lado do próximo presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama.
Permitam-se assumir um compromisso, aqui e agora. Para cada norte-americano que está tentando fazer a coisa certa, para todas as pessoas em nosso governo que estão honrando suas promessas de defender a lei e respeitar nossa constituição, as palavras mais temíveis da língua inglesa deixarão de ser "alguém do gabinete do vice-presidente quer falar com você ao telefone".
Barack Obama e eu fizemos percursos muito diferentes para chegar a este destino, mas temos uma história em comum. A minha começou em Scranton, Pensilvânia, e em seguida se transferiu a Wilmington, Delaware. Meu pai caiu vítima de dificuldades econômicas, mas sempre me dizia: "Rapaz, quando você é derrubado, o negócio é levantar. Levantar".
Eu gostaria que meu pai estivesse aqui esta noite, mas ficou muito grato pela presença de minha mãe, Catherine Eugenia Finnegan Biden.
Foi ela, vocês sabem, que ensinou a todos os seus filhos e a todas as crianças que afluíam à nossa casa- que o senso de honra nos define e a lealdade nos redime. Ela acredita que exista bravura em todos os corações, e espera que as pessoas consigam recorrer a isso quando necessário.
Em determinados momentos da vida, fracassar é inevitável, mas desistir é imperdoável. Quando criança eu era gago, e ela sempre me disse, amorosamente, que isso era porque minha inteligência era grande demais e eu não conseguia expressar meus pensamentos com a rapidez necessária.
Quando eu não tinha roupas bonitas como as dos outros garotos, ela sempre me dizia que eu era bonito mesmo assim. Quando caras maiores que eu me derrubavam, ela ordenava que eu voltasse à rua e brigasse até fazê-los sangrar, para que eu pudesse caminhar pelas ruas sem problemas nos dias seguintes.
Depois do acidente, ela me disse, "Joey, Deus não nos impõe cruzes que não sejamos capazes de carregar". E, em meus momentos de triunfo, ela sempre foi rápida em me relembrar que eu devia isso a muitas outras pessoas.
O credo de minha mãe é o credo norte-americano: Ninguém é melhor que você. Você é igual a todos, e todos são seus iguais.
Meus pais me ensinaram a viver nossa fé e a apreciar a família. Aprendemos a dignidade do trabalho e fomos ensinados que qualquer um pode obter sucesso caso se esforce.
Essa era a promessa da América. Para aqueles de nós que cresceram em cidades de classe média como Scranton e Wilmington, aquele era o sonho americano e nós o vivíamos.
Mas hoje parece que o sonho americano está se afastando lentamente. Sentimos essa distância a cada dia de nossas vidas. Jamais passei por uma época em que Washington visse tanta gente caindo sem nada fazer para ajudá-las a se erguer.
Quase todas as noites, tomo o trem de volta para casa em Wilmington, às vezes bem tarde. Observo pela janela as casas que vemos, e quase consigo ouvir o que as pessoas conversam nas mesas de suas cozinhas depois de colocar as crianças para dormir.
Como milhões de outros norte-americanos elas estão fazendo perguntas cuja singeleza as torna ainda mais profundas, perguntas que jamais imaginariam que teríamos de fazer:
Será que mamãe deveria se mudar para cá, agora que papai morreu?
US$ 50, US$ 60, US$ 70 para encher o tanque do carro?
O inverno está chegando. Como vamos pagar a conta do aquecimento?
Mais um ano sem aumento de salário?
Você ouviu dizer que a empresa pode estar cortando nosso plano de saúde?
Agora, devemos mais pela casa do que ela vale no mercado. Como conseguiremos mandar as crianças para a faculdade?
De que jeito conseguiremos nos aposentar?
Foi isso que o país de George W. Bush nos deixou, e é esse o futuro que John McCain nos dará. Não estou falando de discussões isoladas no seio de famílias que atravessam fases ruins. São histórias comuns nas famílias de classe média que trabalharam com afinco, seguiram as regras e acreditaram na promessa de que o amanhã seria melhor.
Essa promessa é a fundação sobre a qual repousa o país. Define-nos como povo. E está sob ameaça. Eu sei disso. Vocês sabem disso. Mas John McCain não compreende.
Barack Obama compreende. Como muitos de nós, Obama ascendeu por esforço próprio. A história dele é uma grande história americana.
Acredito que a medida de um homem não seja apenas a estrada que ele percorre, mas as escolhas que faz ao longo do caminho. Barack Obama poderia ter feito o que desejasse ao se formar na universidade.
Com o seu talento e potencial, ele poderia ter escolhido qualquer cargo em Wall Street. Mas não foi o que ele escolheu. Escolheu viver em Chicago. Na região do South Side. Lá, conheceu pessoas que haviam perdido seus empregos.
Os bairros estavam devastados por conta do fechamento da siderúrgica local. Os sonhos haviam sido abandonados. A dignidade estava aos pedaços. A auto-estima era coisa do passado.
E ele fez das vidas dessas pessoas o trabalho de sua vida. É isso que você faz quando foi criado por uma mãe solteira que trabalhava, estudava e criava dois filhos sem ajuda. É dessa forma que você começa a acreditar, bem fundo em sua alma, que trabalho é mais que salário.
É dignidade. É respeito. É saber que você pode olhar seus filhos nos olhos e garantir que a família ficará bem.
Porque Barack fez essa escolha, 150 mil crianças e pais a mais dispõem de planos de saúde no Illinois. Ele batalhou para que isso acontecesse. E porque Barack fez essa escolha, as famílias trabalhadoras do Illinois pagam menos impostos e mais gente deixou de depender da assistência social e encontrou emprego. Foi ele que o fez.
E quando chegou a Washington, eu assisti à rapidez com que ele veio a compreender o cenário, liderando a luta pela aprovação da mais abrangente reforma de normas éticas em uma geração.
Ele procurou nossos colegas do partido oposto para conseguir a aprovação de uma lei que ajuda a manter as armas nucleares fora do alcance dos terroristas. E convenceu o Congresso e o presidente a conferir aos nossos veteranos de guerra feridos o cuidado e a dignidade que merecem.
Pode-se aprender muito sobre um homem quando se faz campanha em companhia dele, em debates contra ele, e vendo como ele reage sob pressão. Pode-se aprender sobre a força de sua mente e, ainda mais importante, sobre a qualidade de seu coração.
Eu vi como ele comovia as pessoas, como as inspirava, e compreendi que ele havia tocado a mais antiga das crenças americanas: ninguém deve se ver forçado a aceitar o inaceitável.
Temos o poder de mudar. Esse é Barack Obama, e é isso que ele fará pelo país: o mudará.
John McCain é meu amigo. Conhecemo-nos há três décadas. Viajamos juntos pelo mundo. A nossa amizade vai além da política. E a coragem pessoal e heroísmo que John demonstrou continuam a me maravilhar.
Mas discordo profundamente da direção em que ele pretende conduzir o país. Por exemplo, John acredita que nos anos Bush, "fizemos grande progresso economicamente". Já eu penso que o desempenho foi horrendo.
E, no Senado, John se alinhou às preferências do presidente Bush 95% do tempo. Faça-me o favor. Quando John McCain propõe mais US$ 200 bilhões em benefícios fiscais às grandes empresas norte-americanas, dos quais US$ 1 bilhão beneficiaria diretamente nossas oito maiores companhias, e ao mesmo tempo nenhum alívio tributário para 100 milhões de famílias norte-americanas, não estamos falando de mudança, mas de repetir o que já vem sendo feito.
Hoje, quando as empresas petroleiras vêm registrando os maiores lucros de todos os tempos US$ 500 bilhões nos últimos cinco anos, ele deseja lhes oferecer mais US$ 4 bilhões em incentivos fiscais. E no entanto ele votou repetidamente contra incentivos à energia renovável solar, eólica, biocombustível. Isso não é mudança, mas continuar com o que já temos.
Milhões de empregos deixaram o nosso país, mas John continua a defender benefícios tributários para as empresas que os exportaram. Isso não é mudança, mas continuar com o que já temos.
Ele votou 19 vezes contra um aumento no salário mínimo. Para as pessoas que precisam batalhar para saber como comprarão comida a cada dia, isso não é mudança, mas continuar com o que já temos.
E quando ele diz que continuará a gastar US$ 10 bilhões ao mês no Iraque em um momento no qual o Iraque registra superávits de quase US$ 80 bilhões, isso não é mudança, mas continuar com o que já temos.
A escolha que temos a fazer nesta eleição é bastante clara. O momento requer mais que um bom soldado: requer um líder sábio, um líder capaz de promover mudança aquela mudança de que todos sabem que precisamos.
Barack Obama promoverá essa mudança. Barack Obama reformará nosso código tributário. Ele reduzirá os impostos dos 95% de norte-americanos que vivem como assalariados. É essa a mudança de que precisamos.
Barack Obama transformará nossa economia ao fazer da energia alternativa uma prioridade econômica genuína, criando cinco milhões de novos empregos e por fim nos libertando do domínio do petróleo estrangeiro. É essa a mudança de que precisamos.
Barack Obama sabe que qualquer país que tenha escolas melhores que as nossas hoje nos superará economicamente no futuro. Ele investirá na próxima geração de professores. Tornará os cursos superiores mais acessíveis. É essa a mudança de que precisamos.
Barack Obama reduzirá os custos da saúde em US$ 2,5 mil ao ano para uma família média, e por fim oferecerá serviços de saúde acessíveis e a preço realista para todos os norte-americanos. É essa a mudança de que precisamos.
Barack Obama colocará mais policiais nas ruas, devolverá o "seguro" ao Seguro Social e jamais desistirá até que as mulheres desfrutem de igualdade salarial. É essa a mudança de que precisamos.
Estamos unidos aqui hoje em um momento no qual nosso país está menos seguro e mais isolado do que em qualquer momento da História recente. A política externa de Bush e McCain cavou um buraco muito fundo e restam poucos amigos que nos ajudem a sair dele.
Pelos últimos sete anos, o governo dos Estados Unidos fracassou em enfrentar as maiores forças que estão definindo o século: a emergência da Rússia, China e Índia como grandes potência; a difusão das armas letais; a escassez de fontes seguras de energia, comida e água; o desafio das alterações climáticas; e o fundamentalismo ressurgente no Paquistão e Afeganistão, a verdadeira frente central na batalha contra o terrorismo.
Nos últimos dias, uma vez mais confrontamos as conseqüências dessa negligência, com o desafio da Rússia à Geórgia, um país livre e democrático. Barack Obama e eu poremos fim a essa negligência. Responsabilizaremos a Rússia por suas ações e ajudaremos o povo da Geórgia na reconstrução de seu país.
Eu visitei a Geórgia, o Iraque, o Paquistão e o Afeganistão, e posso dizer sem sombra de dúvida: a política do atual governo representa um fracasso abjeto. Os Estados Unidos não podem arcar com mais quatro anos disso.
Agora, a despeito de sua cumplicidade nessa política externa catastrófica, John McCain diz que Barack Obama não está pronto para proteger nossa segurança nacional. Permitam-me a pergunta: em que avaliação devemos confiar?
Devemos confiar na avaliação de John McCain, que três anos atrás declarou que "não ouvimos mais falar do Afeganistão porque obtivemos sucesso lá" ou na avaliação de Barack Obama, que há mais de um ano apelou pelo reforço de nossas tropas no Afeganistão com duas brigadas de combate adicionais?
O fato é que a Al Qaeda e o Taleban as pessoas que de fato nos atacaram no 11 de setembro- se reagruparam nas montanhas entre o Afeganistão e o Paquistão e estão planejando novos ataques. E o chefe do Estado-Maior Conjunto das forças armadas norte-americanas ecoou o pedido de Barack Obama por reforços.
John McCain estava errado. Barack Obama estava certo.
Agora, depois de sete anos de negação, até mesmo o governo Bush reconhece que devemos dialogar com o Irã, porque essa é a melhor maneira de promover a nossa segurança. Uma vez mais, John McCain estava errado. Barack Obama estava certo.
Devemos confiar no julgamento de John McCain quando ele rejeita dialogar com o Irã e pergunta que assunto existe para um diálogo? Ou no de Barack Obama, que diz que precisamos conversar e deixar claro aos iranianos que a conduta deles precisa mudar.
Agora, depois de seis longos anos, o governo Bush e o governo iraquiano estão a ponto de definir uma data para a retirada das tropas norte-americanas. John McCain estava errado. Barack Obama estava certo.
Vezes sem conta, quanto as mais importantes questões de segurança nacional de nossa era, John McCain estava errado e o tempo provou que Barack Obama estava certo.
Pessoal, vocês se lembram de quando o mundo costumava confiar na gente? Quando procuravam a nossa liderança? Com Barack Obama como presidente, isso voltará a acontecer, eles voltarão a confiar em nós e poderemos liderar de novo.
É uma honra para Jill e para mim acompanhar Michelle e Barack Obama nesta jornada. Quando vejo as filhas deles, e os meus netos, compreendo por que estou aqui. Estou aqui pelo futuro deles.
E estou aqui por todos que cresceram em Wilmington e Scranton. Pelos policiais e bombeiros, pelos professores e os operários de linha de montagem o pessoal cujas vidas determinarão se o sonho americano vai ou não perdurar.
Nossos maiores presidentes -de Abraham Lincoln a Franklin Roosevelt e John Kennedy- nos desafiaram sempre a receber positivamente a mudança. Agora, cabe a nós enfrentar esse desafio.
Milhões de norte-americanos estão caídos. E chegou a hora de nos reerguermos juntos, como povo. Nosso povo é bom demais, nossas dívidas para com nossos pais e avós grandes demais, nossas obrigações para com nossos filhos sagradas demais.
Vivemos tempos extraordinários. Esta é uma eleição extraordinária. O povo dos Estados Unidos está pronto. Eu estou pronto. Barack Obama está pronto. Chegou a hora dele. Chegou a nossa hora. Chegou a hora da América.
Que Deus abençoe os Estados Unidos e proteja os nossos soldados."
Tradução de Paulo Migliacci
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Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
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Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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