Protestos bloqueiam fronteiras da Bolívia com Brasil, Argentina e Paraguai
da Folha Online
Cinco dos nove departamentos (Estados) da Bolívia iniciaram nesta segunda-feira a terceira semana de protestos contra o presidente Evo Morales, com o aumento de bloqueios de estradas e tomadas de escritórios estatais. As fronteiras com Brasil, Argentina e Paraguai foram bloqueadas.
"As saídas para o Brasil e os postos alfandegários estão fechados, e os escritórios de migração foram tomados", disse o presidente da União Juvenil de Santa Cruz (UJC), David Sejas. Segundo ele, a medida deverá ser "radicalizada" nas próximas horas, com sua extensão a outras regiões opositoras do país.
Carros, manifestantes e montanhar de areia interrompem o trânsito nas cidades de San Vicente e San Matías, em Santa Cruz, no caminho para Cuiabá (MT), e de Puerto Suarez, em frente a Corumbá (MS).
Nas últimas horas, autoridades bolivianas reconheceram que os departamentos estão praticamente isolados devido aos protestos nas estradas. Em várias cidades bolivianas, os moradores são obrigados a fazer longas caminhadas e, de acordo com o governo, já há escassez de alguns itens de alimentação
As manifestações estão concentradas na região do Chaco boliviano, no sudeste do país, onde as maiores reservas de gás do país fazem fronteira com Brasil, Argentina e Paraguai. Há bloqueios nos departamentos oposicionistas de Tarija, Beni, Pando, Chuquisaca e Santa Cruz.
Os governadores desses departamentos lideram os protestos, contra o projeto de uma nova Constituição, proposta pelo presidente Evo Morales, e contra a destinação dos recursos obtidos com um imposto petrolífero para um programa nacional de assistência aos idosos.
Pontos de bloqueio
No departamento de Tarija, foram registrados 17 pontos de bloqueio, em todas as estradas de acesso a essa região e nas cidades de Bermejo e Yacuiba, na fronteira com a Argentina onde os manifestantes ameaçam tomar os poços petrolíferos. Em Santa Cruz, todos os pedágios foram tomados.
Em Beni, os líderes civis disseram que nas próximas horas "não permitirão" as saídas para o Brasil "por Guayaramerín", ao passo que, em Pando, as pontes Internacional e da Amizade, que fazem ligação com o território brasileiro, também foram fechadas, informou a imprensa local.
"Faremos todo o possível para que restituam o IDH, reconheçam a autonomia departamental", e para que o governo "detenha essa Constituição (...) que quer nos impor", disse Sejas.
O ativista lembrou que amanhã termina a "trégua" de 72 horas dada pelas organizações civis, após a qual a pressão dos protestos deverá ser intensificada. Segundo Sejas, não estão descartadas a ocupação de aeroportos e o corte nas exportações de gás ao Brasil e à Argentina.
Gás
Há 15 dias, o bloqueio de estradas no leste e no sul da Bolívia provocou uma grave crise no fornecimento de combustíveis aos quatro departamentos. Desta vez, o arrefecimento dos protestos pode retomar o cenário de escassez.
Entre as estradas bloqueadas pelos manifestantes está o acesso a um megacampo de gás no extremo sul da Bolívia operado pela Petrobras.
Diante das ameaças, o governo militarizou campos e unidades de gás, assim como instalações públicas, nos departamentos de Tarija e Santa Cruz, ambos de oposição a Morales.
Constituição
A Bolívia ainda viu sua crise política se intensificar, depois do referendo revogatório do dia 10 de agosto, em que Morales e a maior parte dos governadores da oposição tiveram seus mandatos confirmados. Agora, Morales tenta obter apoio da oposição para a aprovação do seu projeto de Constituição, que foi adiado frente ao impasse sobre os referendos autonomistas e mais tarde o referendo revogatório.
O presidente anunciou neste sábado (06) que enviou ao Congresso um projeto de lei para a convocação dos dois referendos que faltam para a ratificação da nova Constituição. Em 28 de agosto, Morales decidiu, por decreto, que as duas consultas acontecerão dia 7 de dezembro.
Mas a Corte Nacional Eleitoral declarou-se impedida de preparar a votação, porque os referendos teriam de passar pelo Parlamento. Morales acusou o tribunal de "subordinação à direita", mas recuou.
Em meio à crise, Morales empossou nesta segunda-feira cinco ministros nesta segunda-feira, realizando um ajuste no gabinete. Ingressaram no governo: o novo ministro da Saúde, Ramiro Tapia, que assumiu a pasta de Wálter Selum e o ministro de Hidrocarbonetos Saúl Avalos, que substituiu Carlos Villegas, que passou ao ministério do Planejamento.
Carlos Romero assumiu como ministro do Desenvolvimento Rural e Agropecuário no lugar de Susana Rivero, que passou ao ministério da Microempresa. Esta é a quinta reestruturação de gabinete do governo Morales, que assumiu em 22 de janeiro de 2006.
Com agências internacionais
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