Mundo
09/09/2008 - 22h56

Manifestantes invadem e saqueiam prédios estatais na Bolívia

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da Folha Online

Grupos de manifestantes invadiram e saquearam vários escritórios estatais em Santa Cruz, informou a imprensa local. Entre os alvos estava a empresa pública de telecomunicações Entel, cuja fachada foi destruída e queimada, e a sede regional do canal de TV estatal.

"Com a falta de proteção policial, grupos de vândalos conseguiram entrar nos escritórios da Televisão Boliviana, onde destruíram instalações e quebraram equipamentos", denunciou à imprensa o chefe regional da Televisión Boliviana-Canal 7 em Santa Cruz, Edgar López.

Os manifestantes saquearam o escritório, destruíram computadores e móveis e fizeram uma fogueira na porta de entrada do prédio, segundo imagens da emissora privada ATB. Poucas horas antes dos protestos, o Canal 7 havia suspendido suas transmissões.

Danilo Balderrama/Reuters
Manifestantes queimam computadores, durante protestos em Santa Cruz
Manifestantes queimam computadores, durante protestos em Santa Cruz

Grupos de jovens, liderados pela União Juvenil Cruzense (UJC), também ocuparam as instalações da Entel para "entregá-las à administração do governador Rubén Costas", governador oposicionista de Santa Cruz, revelou o ex-constituinte Javier Limpias.

O prédio foi ocupado no final da tarde por centenas de pessoas, que saquearam suas instalações, jogaram documentos e objetos pelas janelas, e os queimaram nas imediações da Entel.

Segundo a imprensa local, os sinos da catedral de Santa Cruz tocaram "durante toda a tarde por determinação do comitê cívico", que lidera as manifestações contra Morales.

Ao menos um soldado, entre um grupo que tentava conter os protestos, e vários jovens ficaram feridos, segundo a agência France Presse. Desde as 10h (11h, de Brasília), policiais e militares protagonizaram hoje uma batalha campal com os grupos de opositores, na maioria jovens.

Os manifestantes exigem que o presidente Evo Morales repasse às regiões a renda petroleira que o governo decidiu destinar, em janeiro, para um programa nacional de assistência aos idosos. Nesta terça-feira os protestos já tinham se espalhado por várias regiões da Bolívia, embora os principais focos de enfrentamento com a polícia estejam se dando nos cinco departamentos governados por opositores de Morales.

Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca são os cinco Estados que rejeitam o projeto da nova Constituição, proposta por Morales e exigem autonomia.

Carlos Hugo Vaca/Reuters
Soldados tentam conter protestos da oposição contra o governo de Evo Morales, no departamento de Santa Cruz, no sudeste da Bolívia
Soldados tentam conter protestos da oposição contra o governo de Evo Morales, no departamento de Santa Cruz, no sudeste da Bolívia

Os manifestantes já haviam ocupado hoje os escritórios da Receita e do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) em Santa Cruz, expulsando policiais e soldados que guardavam o local. A TV boliviana mostrou um manifestante exibindo dois fuzis e um capacete como troféu.

O vice-ministro do Interior, Rubén Gamarra, responsabilizou o governador Rubén Costas e o líder civil e empresário Branko Marinkovic pelos incidentes que, segundo ele, "promovem a violência".

Já Marinkovic culpou o novo gabinete, empossado na segunda-feira por Morales, que acusou de ter recebido "instruções da Venezuela" para aplacar os protestos da oposição.

Segundo rádios locais, grupos opositores também ocuparam o Aeroporto Viru Viru de Santa Cruz, o de maior tráfego da Bolívia.

Reforma no governo

Em meio à crise, Morales empossou nesta segunda-feira cinco ministros, realizando um ajuste no gabinete. Ingressaram no governo: o novo ministro da Saúde, Ramiro Tapia, que assumiu a pasta de Wálter Selum e o ministro de Hidrocarbonetos Saúl Avalos, que substituiu Carlos Villegas, que passou ao ministério do Planejamento.

Carlos Romero assumiu como ministro do Desenvolvimento Rural e Agropecuário no lugar de Susana Rivero, que passou ao ministério da Microempresa. A dança das cadeiras no ministério de Morales --especialmente na área de hidrocarbonetos-- surpreendeu políticos e analistas. Foi a terceira reforma ministerial do atual governo em dois anos e meio de gestão, desde a posse em janeiro de 2006.

Na pasta de Hidrocarbonetos, Villegas era visto como "moderado" por interlocutores de países vizinhos. Ávalos ficou mais conhecido durante a Assembléia Constituinte, da qual foi integrante e defensor das propostas do governo.

Gás em risco

A crise ameaça também o envio de combustíveis ao Brasil, que é o principal importador de gás da Bolívia. Mais de 70% do que o mercado brasileiro compra se destina ao mercado paulista.

No final de semana, integrantes do comitê cívico local --que reúne empresários e comerciantes aliados dos governadores de oposição-- ocuparam uma estação de compressão de gás, nos arredores de Tarija.

Foi a primeira invasão de uma instalação de gás desde que os líderes oposicionistas ameaçaram interromper a distribuição para Brasil e Argentina. Na sexta-feira (05), o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que a Embaixada do Brasil em La Paz estava em contato com líderes da oposição e descartou que os manifestantes cumprissem suas ameaças.

Grupos opositores também invadiram uma usina de distribuição de gás natural para o Brasil operada pela empresa Transierra nesta terça-feira, informou um executivo da companhia à France Presse. Por causa do protesto, quatro válvulas de gás teriam sido fechadas, segundo os manifestantes.

Arte/Folha Online
Mapa de Villamontes na Bolívia.
Mapa de Villamontes na Bolívia.

Mas o diretor jurídico da Superintendência de Hidrocarbonetos da Bolívia, Leonardo Chiquie, disse nesta terça-feira, em mensagem à imprensa, que acha "muito difícil" os invasores da usina de distribuição de gás natural do povoado de Villamontes terem fechado as válvulas de fornecimento do produto ao Brasil.

Os invasores seriam moradores da região do povoado de Villamontes, a cerca de 1.200 km de La Paz. A administradora da usina é formada pela brasileira Petrobras, a francesa Total e a boliviana Andina. O assessor de Relações Institucionais da Transierra, Hugo Muñoz, disse que a companhia "enviou técnicos para avaliar a situação e ver se há danos".

Questionada sobre os reflexos do fechamento da fronteira e postos alfandegários do departamento de Santa Cruz, na Bolívia, com o Brasil, a diretora de Gás e Energia da Petrobras, Maria das Graças Foster, informou em nota divulgada pela empresa nesta terça-feira que o abastecimento de gás pelo país vizinho "está absolutamente normal".

"A Bolívia tem sido um excepcional supridor de gás para o Brasil, apesar de todas as suas inquietações." A diretora reiterou a expectativa positiva da Petrobras. "Até o momento não há sinal algum de que possamos ter perda de suprimento do gás da Bolívia".

Com Efe e France Presse.

 

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