Mundo
10/12/2008 - 06h30

Al Qaeda deve ser entendida como "organização moderna", diz autor

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da Folha Online

Para entender os ataques terroristas da Al Qaeda é preciso aceitar que trata-se de uma organização moderna, cujas ações são diferentes daquelas dos movimentos terroristas do passado.

Essa é a opinião de John Gray, professor de Pensamento Europeu na London School of Economics, colunista do jornal britânico "The Guardian" e autor de "Al-Qaeda e o que Significa ser Moderno", editado no Brasil pela Record.

No livro, ele analisa o efeito dos ataques de 11 de Setembro aos EUA e desfaz lugares-comuns sobre a organização terrorista.

Leia abaixo trecho do livro "Al-Qaeda e o que Significa ser Moderno", disponível na Livraria da Folha, e veja também livros sobre o 11 de Setembro, a Al Qaeda, a Jihad, o Islã e a invasão do Iraque.

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Divulgação
Livro analisa a política norte-americana e a atuação da Al Qaeda
Livro desmonta mitos e lugares-comuns sobre a Al Qaeda

Às vezes se argumenta que a Al Qaeda não é muito diferente dos movimentos terroristas do passado, como os revoltosos comunistas que os britânicos derrotaram na Malásia, nos anos 1950. Nesta visão, a reação adequada a 11 de Setembro não é preparar-se para a guerra. A resposta ao terrorismo seria uma forma de ação policial. Apesar de suas credenciais impressionantes17 esta visão é equivocada.

Os ataques de 11 de Setembro foram, com certeza, atos de terror, mas não eram terrorismo comum. Demonstraram que a guerra não convencional subira para o nível global. Ao contrário, os comunistas malaios eram um perigo na Malásia, mas permaneceram uma força local. Nunca tentaram uma campanha na Grã-Bretanha. Apesar do fato de que boa parte da luta ocorreu na selva, os revoltosos concentravam-se num território sobre o qual o Estado britânico tinha elevado nível de controle.

A Al Qaeda é uma rede mundial, com postos avançados em regiões que nenhum Estado controla. Os ataques a Nova York e Washington foram atos de guerra, mas não de guerra convencional. Foram exemplos da guerra assimétrica, na qual o fraco procura e explora as vulnerabilidades do forte. Ao usar aviões civis como armas e seus operadores como sistemas de lançamento, a Al Qaeda demonstrou que, apesar da "revolução em questões militares" (revolution in military affairs ou RMA) que deu aos Estados Unidos superioridade militar inquestionável sobre todos os outros Estados, eles continuam vulneráveis a um ataque devastador.18

O âmago da RMA é o uso de aparelhos sensores computadorizados e sofisticadíssimos com os quais a névoa da guerra pode ser levantada para que os comandantes vejam com clareza a situação de combate e reajam com armas de extrema precisão, muitas vezes não conduzidas por seres humanos. Essa tecnologia é cara e só está disponível para os Estados mais ricos. Podem ser extremamente eficazes para incapacitar inimigos conhecidos, como se demonstrou quando o míssil norte-americano de um avião não tripulado, comandado a distância, matou um importante agente da Al Qaeda no Iêmen em novembro de 2002. Não podem impedir ataques como o que ocorreu em 11 de Setembro. Ao mesmo tempo, tecnologias mais baratas aumentam o potencial de destruição da guerra não convencional.

É difícil obter e perigoso usar matérias-primas nucleares; mas quando empregadas por atacantes suicidas, representam o rudimento de arma radioativa que pode causar baixas maciças. As armas biológicas também são perigosas de usar, mas o conhecimento e a matéria-prima necessários para fabricá-las estão amplamente disponíveis e o avanço científico torna-as ainda mais mortais. Algumas armas têm ação extensa o bastante para que sua origem seja praticamente impossível de rastrear. As armas geneticamente seletivas permitem alvejar populações específicas. É difícil estimar o risco de que a Al Qaeda use esta capacidade radioativa e biológica; mas ao buscar adquiri-la, transcendeu o terrorismo comum.

Há um risco crescente de terrorismo cibernético. A disseminação dos conhecimentos computacionais avançados entre os soldados de exércitos sem Estado cria o potencial de um tipo de guerra cibernética voltada a alvos civis, como aeroportos e usinas elétricas, assim como estruturas de comando militar. Outros tipos de ataque cibernético são possíveis. Usando técnicas sofisticadas de pirataria internética, os rebeldes zapatistas do México tumultuaram os mercados financeiros. Houve relatos de que a Al Qaeda fez tentativas semelhantes. O crescimento da economia cibernética cria um novo campo de batalha para a guerra não convencional.

Na busca deste novo tipo de guerra, a Al Qaeda tem a força que vem de sua rejeição ao individualismo. As relações de confiança nas quais se baseiam sua organização e a disposição de seus agentes de ir até a morte certa dão-lhe uma vantagem poderosa. As sociedades liberais não podem duplicar esta solidariedade suicida. Nelas, os valores da opção pessoal e da auto-realização estão profundamente codificados. Ainda assim, estão fadadas a defender-se. Com o uso da nova tecnologia de espionagem, reconhecimento de rostos e outras, os modernos Estados liberais vêm adquirindo poder de vigilância sem precedentes sobre a população dentro de suas fronteiras. No esforço de encontrar os potenciais terroristas em seu meio, estão submetendo toda a população a um alto nível de monitoramento. O preço do individualismo está sendo a perda da privacidade.

A guerra moderna é um subproduto do Estado moderno. Por muito tempo os Estados modernos travaram guerras limitadas. Nas guerras napoleônicas, o alistamento forçado --a levée en masse -- foi usado para formar enormes exércitos; mas no geral as populações civis não foram alvejadas. Com a Primeira Guerra Mundial, o alistamento tornou-se universal; toda a economia foi mobilizada para o esforço de guerra; a população civil passou a ser considerada um alvo legítimo. Neste aspecto, os regimes liberais mostraram-se tão impiedosos quanto os Estados totalitários. Para defender a democracia da ditadura na Segunda Guerra Mundial, a população civil de Dresden e Hamburgo, Hiroshima, Nagasaki e Tóquio foram incineradas.

Depois de 11 de Setembro, produziu-se um novo tipo de guerra ilimitada. A anarquia hobbesiana que brota dos Estados fracassados permitiu que exércitos sem Estado atacassem o coração da maior potência do mundo. Em resposta, os EUA e outros regimes liberais estão se transformando em Estados de vigilância hobbesiana.

17. A posição contrária à declaração de guerra dos EUA após 11 de Setembro foi apresentada pelo historiador militar britânico Sir Michael Howard numa conferência, "September 11 and After: Reflections on the War on Terrorism", no University College, Londres, em 29 de janeiro de 2002.
18. Para uma discussão da "revolução em questões militares", ver Paul Hirst, War and Power in the 21st Century, Cambridge: Polity Press, 2001, pp. 88-97.

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"Al-Qaeda e o que Significa Ser Moderno"
Autor: John Gray
Editora: Record
Páginas: 176
Quanto: R$ 26,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Publifolha

 

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