Racionamento de gás pode ser evitado no Brasil, dizem especialistas
CAROLINA MONTENEGRO
colaboração para a Folha Online
O Brasil pode evitar um racionamento de gás caso a redução de 10% no envio do produto da Bolívia se concretize, dizem especialistas. Mas para isso, o governo terá de colocar em ação um plano emergencial de contingência.
Os 31 milhões de metros cúbicos de gás natural que a Bolívia envia ao Brasil diariamente irão diminuir em aproximadamente 10% nas próximas 48 horas por causa de danos causados em um gasoduto da região de Yacuíba, nesta quarta-feira.
"Acredito que um corte de 10% no abastecimento de gás possa ser administrado, sem haver racionamento. Dá para desligar as térmicas à gás, desabastecer as indústrias e os automóveis e gerar energia elétrica com a água, além de usar mais óleo diesel", afirmou Adriano Pires, especialista do CBIE (Centro Brasileiro de Infra-Estrutura).
| David Mercado-10set.08 /Reuters |
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"O governo tem que ter um plano de contingência, chamar os agentes da indústria, os grandes consumidores e todos os envolvidos e passar a informação sobre o problema, sobre o que está acontecendo na Bolívia, pra minimizar ao máximo qualquer exacerbação de crise", acrescentou Pires.
Para a a especialista em Petróleo e Gás do escritório L.O.Baptista Advogados, Daniela Santos, a restrição de gás não deve afetar, a princípio, o consumidor final que usa gás residencial ou veicular. "As indústrias (como as de vidro e cerâmica), sobretudo de São Paulo e do Sul do país devem ser as maiores prejudicadas", afirmou.
"Quando a restrição é pequena, dá pra entregar menos gás para algumas indústrias e criar uma estrutura de fornecimento que afete o mínimo possível o consumidor. O governo precisa pensar quem poderia receber menos gás", acrescentou Santos.
Dependência brasileira
Atualmente, 50% do gás que o Brasil consome vem da Bolívia, e é o país também que abastece 70% do mercado interno do Sudeste e 100% do Sul. Além de não importar o produto de outros países, o Brasil também não possui produção que atenda a demanda do mercado interno.
"A crise boliviana afeta tanto os bolivianos quanto os próprios brasileiros, por causa da nossa dependência do gás deles", disse Pires. Por isso, a instabilidade do cenário político boliviano traz preocupações.
"Estão bloqueando as estradas na Bolívia, os protestos não param. Ninguém sabe ao certo pra onde pode ir esta crise boliviana. Pode parar onde está, pode regredir ou explodir. A situação é muito sensível", afirmou Pires.
Já Santos acredita que a atual crise do gás boliviano "é um problema pontual, que tende a ser contornado" no curto prazo. "Mas o problema é que é uma questão inserida em uma crise do gás na Bolívia que já dura anos, e é reflexo do Brasil depender do suprimento de uma única fonte", afirmou.
A alternativa da importação do gás liquefeito (GNL), além de não suprir um volume tão grande como o que será cortado, também sairia mais caro aos consumidores, dado seu custo maior de produção. O Brasil também não possui um parque de gaseificação para transformar GNL em gás novamente para que o produto seja utilizado.
O governo boliviano afirmou que levará em torno de 20 dias para reparar os estragos feitos no gasoduto afetado nesta quarta-feira. Segundo a Comgás, a empresa responsável pelo abastecimento de gás natural em São Paulo, ainda não há sinais da redução, e o "fornecimento a todos os clientes está normal".
Plano de contingência
O ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, disse na noite desta quarta-feira que tem um plano de contingência para implementar, em caso de desabastecimento. Mas Lobão destacou que a redução anunciada de 10% não chega a configurar desabastecimento de gás.
O plano inclui a suspensão do funcionamento das térmicas operadas pela Petrobras; o aproveitamento do gás das térmicas da Eletrobrás e outras empresas privadas que podem funcionar a diesel; e o aproveitamento do gás que a Petrobras utiliza para injetar nos poços para produção de petróleo.
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