Brasil descarta reconhecer governo imposto por golpe na Bolívia
LÍSIA GUSMÃO
colaboração para a Folha Online, em Brasília
O governo brasileiro não vai reconhecer um governo que assuma o poder na Bolívia por meio de um golpe de Estado, disse nesta quinta-feira o assessor para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia.
"O Brasil não reconhecerá o governo que queira substituir um governo democraticamente constituído", disse Garcia, admitindo a preocupação do governo brasileiro com a crise boliviana.
Esta semana, a oposição intensificou os protestos em cinco dos nove departamentos (Estados) da Bolívia e os choques com a polícia deixaram quatro mortos. Um incêndio no gasoduto do consórcio Transierra --da qual fazem parte a Petrobras, a Andina-Repsol e a francesa Total--, causou uma redução de 10% no envio de gás ao mercado brasileiro.
Segundo o assessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o presidente da Bolívia, Evo Morales, sobre a crise política que provocou ataques de manifestantes a um gasoduto, ameaçando o fornecimento de gás para o Brasil.
Lula também manteve contatos com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Cristina Kirchner, e há a expectativa de uma conversa ainda nesta quinta-feira com Michelle Bachelet, do Chile.
Segundo o assessor, o Grupo de Países Amigos da Bolívia (Brasil, Colômbia e Argentina), pode enviar seus diplomatas a La Paz para tentar intermediar as negociações entre o governo de Evo Morales e a oposição. Garcia também informou que a Força Aérea brasileira está preparada para levar imediatamente o secretário-executivo do ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, para a Bolívia.
"Quando há situação de agravamento, as pessoas podem sofrer duas tentações. Levar o enfrentamento às últimas conseqüências. Essa é a pior solução. E a outra possibilidade é que, as partes entendam que só há um caminho, o da negociação", ponderou.
"Atos terroristas"
Marco Aurélio Garcia classificou de "terroristas" os ataques às instalações para o transporte de gás para o Brasil. "Compreendo que atos terroristas, como foram os atentados às instalações de gás, dificultam esse diálogo, mas mantemos a esperança que esse diálogo possa ser restabelecido em determinado momento", afirmou.
"Não estou caracterizando a oposição boliviana como terrorista. São atos terroristas e espero que sejam condenados pelos prefeitos da Media Luna, região em conflito com o governo central. Esses atos são intoleráveis", acrescentou.
No entanto, o assessor para assuntos internacionais da presidência descartou ajuda militar para a Bolívia e negou que o tema tenha sido tratado com Morales. "Ajuda militar não está sendo analisada pelo governo brasileiro, mas apenas medidas de natureza diplomática", garantiu Garcia.
Segundo ele, o presidente Morales disse que as Forças Armadas da Bolívia foram deslocadas para proteger as instalações de gás, mas há a preocupação de confronto com os manifestantes. Garcia disse ainda que Morales mostrou-se pessimista na conversa com o presidente Lula em relação à retomada do diálogo com a oposição.
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