Bolívia pede que Brasil expulse bolivianos envolvidos em confrontos
da Folha Online
O governo da Bolívia pediu hoje ao Brasil que expulse os cidadãos bolivianos envolvidos nos confrontos ocorridos no departamento (Estado) de Pando e que se refugiaram nas cidades fronteiriças do Acre.
Depois dos violentos distúrbios que, segundo dados oficiais, deixaram pelo menos 17 mortos e mais de cem desaparecidos, centenas de bolivianos se refugiaram nos municípios de Brasiléia e Epitaciolândia, no Acre.
O ministro de Governo (Interior) boliviano, Alfredo Rada, disse à rádio Red Erbol que entrou em contato com as autoridades brasileiras para pedir a expulsão "de gente considerada criminosa e que participou de forma direta no massacre em 11 de setembro".
"Entramos em contato com autoridades brasileiras para indicar que (os bolivianos em questão) são delinqüentes sobre os quais há acusações muito graves e, portanto, não corresponderia dar-lhes asilo. Em todo caso, uma vez identificados, é preciso proceder a expulsão do Brasil à Bolívia", disse o ministro.
Rada afirmou que o governo está trabalhando para conseguir a expulsão dos refugiados, e disse ter informação de que a presidente do Comitê Cívico de Pando, Ana Melena de Suzuki, está refugiada no Brasil, apesar de não estar confirmado que tenha pedido asilo político.
Segundo a Red Erbol, que cita organizações sociais de Pando, o governo brasileiro negou nos últimos dias um pedido de asilo político do governador de Pando, Leopoldo Fernández.
Fernández, acusado pelo governo Morales de ser o responsável pela chacina em Pando, foi preso na última terça-feira (16), em Cobija, e levado a La Paz.
Asilo
Bolivianos ligados a setores civis opositores de Pando começaram a se organizar ontem (16) em Brasiléia, onde chegaram nos últimos dias.
"Algumas pessoas que chegaram a Brasiléia desde que se decretou o estado de sítio em Pando têm familiares ou amigos onde se hospedar. Porém, outras pessoas não têm lugar para dormir, e estamos procurando um teto para elas", disse à France Presse Gerardo Lima, que se apresentou como "dirigente cívico".
Na Praça Hugo Poli de Brasiléia, onde mais de cem bolivianos estão reunidos, Lima exibiu uma lista de pessoas desabrigadas.
No grupo reunido, se destacava Edgar Balcázar, ex-funcionário da prefeitura de Cobija, capital de Pando, que exibia os hematomas que diz ter sofrido pouco depois da chacina do dia 11.
"Queriam me matar. Não eram camponeses, eram guerrilheiros. Estavam armados e começaram a atirar contra nós. Porém, não me mataram e vim para Brasiléia, onde me atenderam em um hospital e onde estou hospedado na casa de amigos", disse Balcázar.
Já Alejandro Paruma Escobar afirmou que estava preocupado, apesar de estar a salvo em Brasiléia. "Minha esposa é brasileira e ficou em Cobija, com nossos filhos, porque eu estava sendo procurado. Agora, a impressão que tenho é que eles estão bem, mas se o estado de sítio continuar, como diz o governo, por 90 dias, então vou trazer todos para o lado brasileiro", disse.
Paruma Escobar, também ex-funcionário da prefeitura de Cobija, disse que "muitas pessoas cruzaram a fronteira para o Brasil, tanto para a cidade de Brasiléia como para municípios vizinhos, e que ainda estão com muito medo. Sabemos inclusive que há pessoas escondidas nos montes próximos a Brasiléia".
Emboscada
O crime do último dia 11 é descrito como uma emboscada. Conforme investigações preliminares, um grupo de manifestantes anti-Morales enfrentou camponeses que iam a um encontro entre organizações pró-Morales. Segundo o governo, ao menos 17 pessoas morreram e mais de cem sumiram. Há denúncias de que pistoleiros foram vistos levando corpos do local da chacina.
"Nunca pensei que um dia veria o que eu vi quinta-feira. Homens desarmados sendo abatidos como animais, mulheres caindo feridas com filhos nos braços", relatou a camponesa Zeneide González à France Presse. "Depois do tiroteio, eu e meu marido andamos dois dias inteiros, com medo de que os pistoleiros nos encontrassem. No sábado chegamos a Filadelfia, onde reencontrei minha filha de 6 anos, que tinha ficado escondida com amigos em uma fazenda."
O departamento de Pando está em estado de sítio desde sexta-feira (12). Logo que tomou o controle da capital regional Cobija, o Exército da Bolívia prendeu dez suspeitos de participar da chacina, além do governador.
De acordo com o jornal boliviano "La Razón", na quarta-feira (17), um promotor acusou Fernández formalmente de homicídio e lesões gravíssimas e graves.
Com agências internacionais
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