Rússia instalará mísseis em resposta a sistema de defesa dos EUA
da Efe, em Moscou
O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, disse nesta quarta-feira que vai posicionar foguetes táticos Iskander na região ocidental de Kaliningrado, em resposta à instalação do escudo antimísseis dos Estados Unidos no Leste Europeu.
"Para poder neutralizar, em caso de necessidade, o sistema de defesa contra mísseis, na região de Kaliningrado, será posicionado o sistema de foguetes Iskander", disse Medvedev, ao pronunciar sua mensagem anual sobre o estado da nação perante o Parlamento.
O presidente informou que também ordenou o cancelamento dos planos de retirar do serviço três regimentos da divisão de mísseis de Kozelsk, na parte ocidental do país.
Os Iskander (SS-26 Stone), segundo classificação da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), têm alcance de 50 a 300 quilômetros e podem levar cargas de até 480 quilos.
"São medidas forçadas. Declaramos mais de uma vez a todos os nossos parceiros que desejamos manter uma cooperação positiva e atuar juntos contras as ameaças comuns, mas infelizmente não querem nos escutar", declarou Medvedev.
Em resposta, o governo da Alemanha classificou de "decisão equivocada" o anúncio do posicionamento de foguetes em Kaliningrado. "Trata-se de uma decisão equivocada em um momento inoportuno", afirmou hoje o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores alemão, Jens Plötner.
O presidente russo defendeu as ações militares do Exército russo na região separatista da Ossétia do Sul, na Geórgia, em agosto e declarou que a "Rússia não retrocederá no Cáucaso".
"A decisão de impor a paz ao agressor e a operação lançada por nossos militares não foram contra a Geórgia nem seu povo, mas para salvar os habitantes da república e os soldados de paz russos", disse.
O presidente russo ressaltou que o ataque georgiano à Ossétia do Sul foi "conseqüência da política gananciosa da administração americana" no Cáucaso, que "pôs em interdição a eficácia das instituições internacionais de segurança".
Medvedev afirmou que os EUA e a Otan aproveitaram o conflito do Cáucaso para enviar seus navios de guerra ao Mar Negro e acelerar os planos de instalar o escudo antimísseis americano no Leste Europeu, próximo às fronteiras russas. Ele não fez menção direta à vitória do candidato democrata, Barack Obama, nas eleições presidenciais dos EUA, mas expressou sua esperança de que o futuro governo americano reforce as relações com a Rússia.
"Esperamos que nossos parceiros --a nova administração dos EUA-- optem por manter relações plenas com a Rússia", declarou, reconhecendo que as relações entre os governos dos dois países não passam por seu melhor momento.
Medvedev dedicou parte de seu discurso à crise financeira global e afirmou que a Rússia, apesar de estar sendo afetada, "sairá fortalecida" das turbulências internacionais. Ele acusou os EUA de serem responsáveis pela crise e advertiu que a "Rússia não permitirá o predomínio de nenhum país em qualquer esfera".
Segundo o preseidente russo, a crise financeira começou com "uma emergência no mercado nacional dos EUA, que arrastou consigo os outros mercados financeiros do planeta' e foi provocada por 'graves erros no âmbito econômico" cometidos pelas autoridades americanas.
Medvedev defendeu a imposição, o mais rápido possível, do rublo como unidade de pagamento no comércio internacional e a criação, na Rússia, de um dos centros financeiros mais influentes do mundo. "É preciso dar passos práticos para consolidar o papel do rublo como uma das divisas nas operações internacionais e iniciar a passagem dos pagamentos em rublo, começando pelo petróleo e pelo gás" que a Rússia exporta, declarou.
Política Interna
Na política interna, Medvedev antecipou uma série de propostas para modernizar o sistema político russo, inclusive emendas à Constituição, que seriam as primeiras da Lei Fundamental pós-soviética desde sua aprovação em plebiscito, em 1993.
Ele surpreendeu com a proposta de ampliar de quatro para seis anos o mandato presidencial, e de quatro para cinco a legislatura da Duma (câmara baixa russa). "Não se trata de uma reforma da Constituição, mas de uma correção da Constituição, de emendas importantes, que acertam, mas não afetam a essência jurídica nem política das instituições existentes", explicou.
Medvedev propôs aumentar as prerrogativas do Parlamento, principalmente submeter a gestão do Gabinete --liderado atualmente pelo primeiro-ministro russo, Vladimir Putin-- ao controle do Legislativo.
Durante seu mandato como presidente da Rússia, Putin se negou a introduzir modificações na Constituição, inclusive quando foi sugerido que anulasse a norma que impede o exercício de três mandatos presidenciais consecutivos.
"Não sabíamos nada disto. Quando o presidente fez o anúncio, a sala ficou em silêncio. Foi uma surpresa", admitiu o deputado e secretário da Presidência do partido governista Rússia Unida, Vyacheslav Volodin, ao comentar as propostas de Medvedev.
Em sua intervenção, Medvedev defendeu o fortalecimento das instituições democráticas, para o qual adiantou um plano que inclui uma série de reformas à lei eleitoral e dos partidos políticos.
Em particular, Medvedev destacou a necessidade de os partidos políticos menores terem acesso ao Legislativo e propôs que as legendas que tiverem entre 5% e 7% de votos "recebam uma ou duas cadeiras" na Duma.
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