Mundo
18/11/2008 - 08h47

Em Yaracuy, Chávez enfrenta "candidato de cartolina"

Publicidade

FABIANO MAISONNAVE
da Folha de S.Paulo, em Caracas

Como candidato a governador em Yaracuy, o antichavista Eduardo Lapi literalmente se desdobrou na campanha eleitoral que termina neste domingo: asilado no Peru desde o ano passado depois de fugir de um presídio, ele baseou a sua campanha em 60 "clones" de cartolina em tamanho natural.

Usando o lema "Con tu voto, Lapi regresa y Yaracuy progresa", o candidato pelo partido Convergência tentou compensar a ausência usando videoconferências e a internet, sobretudo o site de relacionamentos Facebook. Já os "Lapis de cartolina", como foram apelidados, eram levados de casa em casa por militantes acompanhados de uma mensagem de campanha gravada num aparelho de mp3 conectado a um alto-falante.

A campanha estava dando resultado: o ex-governador (1995-2004) liderava, até o início de setembro, por dez pontos percentuais, segundo a última pesquisa no Estado realizada pelo instituto Hinterlaces.

Mas a candidatura virtual de Lapi terminou no início do mês. Embora o seu registro tivesse sido aprovado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) o declarou inelegível. De acordo com a sentença, ele cometeu "fraude à lei" por ter se candidatado à distância.

Lapi foi o quinto candidato da oposição à frente nas pesquisas declarado inelegível nos últimos meses. O caso mais conhecido é do líder opositor Leopoldo López, favorito para ganhar o governo distrital de Caracas.

No caso de Lapi, a solução encontrada foi substituir a sua candidatura pela de seu irmão, Filipo, que percorre os Estados acompanhado da versão em cartolina do ex-governador. Já o lema mudou para: "Se um Lapi foi bom para Yaracuy, dois serão muito melhor".

"Sou um perseguido político simplesmente por pensar diferente do governo venezuelano", disse Eduardo Lapi à Folha ontem, em entrevista por telefone desde Lima, onde recebeu asilo político do governo do presidente Alan García.

Lapi fugiu do presídio de San Felipe (280 km de Caracas), a capital do Estado, em abril do ano passado. Ele havia sido preso em maio de 2006, ante a alegação de que estava tentando escapar do país. Foi acusado formalmente apenas 40 dias após a detenção e nunca houve uma audiência judicial nos dez meses em que esteve preso.

Lapi foi detido após uma denúncia feita pelo seu sucessor, o então chavista Carlos Giménez --ele próprio mais tarde cassado por corrupção, mas nunca preso. Giménez acusou seu antecessor de desviar o equivalente a R$ 12,4 milhões na ampliação de uma rodovia.

Padrão

Para Mónica Fernández, do recém-criado Comitê Internacional Contra a Perseguição Política na Venezuela, existem hoje 23 presos políticos no país, entre os quais estava Lapi. Ela afirma ainda que ele se encaixa no comportamento de perseguição política promovido pelo governo durante a campanha para as eleições regionais, que renovarão praticamente todos os governadores e prefeitos da Venezuela neste domingo.

"No caso das impugnações políticas, foram declarados inelegíveis candidatos com maior possibilidade de serem eleitos contra candidatos oficialistas. Um segundo parâmetro é a perseguição de Chávez em Estados onde ele declarou imprescindível que o chavismo ganhasse", diz Fernández, cujo comitê, apoiado por partidos de oposição, é presidido pelo ex-presidente polonês Lech Walesa.

Procurado pela Folha, o Ministério do Interior informou que só poderia se pronunciar sobre o caso Lapi na semana que vem, devido ao excesso de trabalho provocado pela campanha eleitoral.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca