Mundo
25/11/2008 - 08h02

Avanço da oposição põe Chávez sob alerta, dizem analistas

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GISELLI SOUZA
colaboração para a Folha Online
FERNANDO SERPONE
da Folha Online

A conquista de seis Estados --o triplo das eleições anteriores--, além da Prefeitura de Caracas, pôs o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, sob alerta, dizem especialistas ouvidos pela Folha Online. Mesmo tendo maioria no pleito, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) perdeu nos nos três Estados com maior número de eleitores --Zulia (2.141.055), Miranda (1.781.361) e Carabobo (1.338.601).

Timoteo Zambrano, político venezuelano e diretor de política internacional do partido Un Novo Tiempo (oposição) disse que o chavismo perdeu cerca de dois milhões de eleitores nesta eleição, enquanto a oposição ganhou um milhão de novos votos. "Ainda que tenha ganhado em mais Estados que nós [oposição], em termos de voto popular, avançamos frente ao governo, afirmou o político à Folha Online.

A oposição também manteve os dois Estados conquistados nas eleições de 2004 --Zulia e Nova Esparta. Para Gilberto Maringoni, professor da Faculdade Cásper Líbero, doutor em História Social pela USP e autor do livro "A Venezuela que se inventa --poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez", a oposição mudou a estratégia e pôs a "luz amarela" no presidente.

Harold Escalona/Efe
Presidente Hugo Chávez deve ter popularidade abalada com a crise econômica
Presidente Hugo Chávez deve ter popularidade abalada com a crise econômica

"Surgiu uma oposição diferente de 2002. Na época, você tinha uma oposição que vinha por fora do jogo institucional, que veio querer dar o golpe. Agora, a oposição está dentro do jogo eleitoral, participa dos marcos da Constituição e é uma oposição que se descola dessa imagem de golpista", afirma Maringoni que aponta o referendo do ano passado --que discutiu entre as mudanças, a reeleição ilimitada de Chávez-- como o pontapé da mudança.

"[No referendo do ano passado] houve uma intensa disputa no interior da oposição, os políticos mais tradicionais da direita ficaram isolados. Veio uma nova oposição liderada pelo movimento estudantil, alguns setores da intelectualidade, alguns dissidentes do Chávez, então isso coloca um aspeto preocupante", disse o professor.

Zambrano afirmou que a oposição estabeleceu uma base eleitoral em 2006, quando Chávez foi reeleito. "Ganhamos a eleição em 2007 pois havíamos criado uma base eleitoral", disse o político, para quem "o governo saiu perdendo de novo". "Estamos construindo uma maioria cada vez que há processo eleitoral."

Em Carabobo, o governador Luis Acosta Carlez, que rompeu com Chávez, foi derrotado pelo ex-governador oposicionista Henrique Salas Feo. Em Barinas, Chávez conseguiu manter a família no governo --há dez anos nas mãos do seu pai, Hugo de los Reyes Chávez. O dissidente Julio Cesar Reyes, que abandonou o chavismo para concorrer contra a família do presidente, foi derrotado pelo irmão de Chávez, Adán.

Entre as principais derrotas no pleito, Maringoni cita a perda da Prefeitura de Caracas, no Distrito Federal, e compara o resultado como se, no Brasil, "o presidente Lula ganhasse a eleição presidencial, mas perdesse em Brasília [se houvesse eleição municipal]".

"Na época do golpe, em 2002, o município era governado pela oposição, depois os chavistas ganharam duas eleições seguidas ali e agora voltam a perder. Chávez perde em redutos dele, em locais onde as pessoas saíam das suas casas para apoiá-lo", disse o professor.

Segundo Zambrano, o país votou "de duas maneiras" neste domingo. "O chavismo foi expulso do setor urbano e se concentrou nos setores rurais", afirmou. "Tiramos dele o centro do país, a capital", disse o venezuelano, acrescentando que tal quadro é "muito promissor" para o futuro, em especial para as eleições parlamentares.

Petróleo

A derrota no Estado de Zúlia, produtor de 80% do petróleo do país, é considerada por Maringoni como outro agravante. Segundo o professor, a crise financeira americana, responsável pela derrubada de preços do petróleo, acaba por colocar em xeque a popularidade do presidente.

"A queda no preço do barril de US$ 150 no início do ano para US$ 45, neste momento, contribui bastante para a piora da popularidade de Chávez. Além disso, a falta de prioridades dos governadores chavistas, com questões ligadas a iluminação das ruas e segurança, também ajudaram na perda dos Estados", apontou o professor.

Para Maringoni, a perda do Estado de Miranda, também considerado importante na economia, ajudou a alertar Chávez. "O petróleo tem um poder na Venezuela como o café tinha no Brasil antes da industrialização. A proximidade com Caracas e a crise que os venezuelanos passam com a queda nos preços têm ajudado a desconstruir a imagem de Chávez".

Zambrano diz acreditar que a médio prazo a crise irá prejudicar o presidente venezuelano. "Nao há viabilidade financeira nem econômica para seguir com o projeto de Chávez."

A possibilidade de um novo referendo, no entanto, é descartada neste momento pelo professor. Em sua análise, "ainda é cedo para avaliar os resultados das eleições regionais em uma possível realização de um segundo referendo".

"Se a crise econômica for superada, a popularidade dele melhorará rapidamente. A reeleição de Chávez é uma coisa que não pode ser vista de forma isolada. Com a crise, depende muito mais de como o país irá lidar com a crise, do que uma situação exclusivamente política".

Já o político vezezuelano afirmou que Chávez será derrotado novamente se tentar levar adiante a reforma pela reeleição indefinida.

Arte Folha Online/Arte Folha Online
 

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