Mundo
29/11/2008 - 08h47

Violência ameaça relação com Paquistão, diz Índia

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da Folha de S.Paulo

A Índia voltou ontem a exigir ontem que o Paquistão tome "medidas imediatas" em relação aos ataques de Mumbai, atribuídos por Nova Déli a "alguns elementos" paquistaneses. A reaproximação bilateral proposta por Islamabad será impossível enquanto persistirem "ultrajes como o atentado contra nossa embaixada em Cabul [em julho] e o ataque a Mumbai", disse o chanceler indiano, Pranab Mukherjee.

"Atores não-estatais querem impor sua agenda aos governos, mas não podemos permitir que tenham sucesso", rebateu o presidente paquistanês Asif Ali Zardari, em conversa telefônica com o premiê indiano, Manmohan Singh. O chancelar paquistanês Shah Mehmood Qureshi pediu que a Índia "não faça jogo político": "[O terrorismo] é uma ameaça global. Temos de dar as mãos e enfrentar essa tragédia coletivamente".

A Índia atribui os ataques a um grupo de origem paquistanesa, o Lashkar-e-Taiba, que nega a autoria, reivindicada pelos pouco conhecidos Mujahedin do Deccan (planalto no sul da Índia). Segundo Nova Déli, os terroristas chegaram a Mumbai de barco, vindos de Karachi, no país vizinho. Um suspeito capturado no hotel Taj Mahal é cidadão paquistanês, segundo informações de autoridades indianas.

Inicialmente solidário, mas cético sobre a participação de grupos baseados em seu território, o Paquistão passou a enfatizar que também é vítima do terrorismo. "A nação inteira condena os ataques", disse ontem o premiê Yousuf Gilani, reiterando que o país "não tem envolvimento no episódio".

Cooperação paquistanesa

Islamabad anunciou que atenderia ao pedido indiano para que o chefe do ISI, poderoso serviço secreto paquistanês, colabore com os investigadores em Mumbai. Uma parceira desse nível em questões de segurança não tem precedentes na relação entre Índia e Paquistão, rivais nucleares que travaram três guerras desde a partição da ex-colônia britânica, em 1947, e disputam a Caxemira.

A oferta de Islamabad é uma resposta ousada às críticas internacionais sobre a infiltração de extremistas no ISI. Um dos mais influentes serviços de inteligência do planeta, a agência desenvolveu doutrina própria, sob forte influência islamista, que nem sempre é coerente com as políticas de governo.

A ex-premiê assassinada Benazir Bhutto, morta em atentado em 2007, acusou membros do ISI de tramarem sua morte e a Índia responsabiliza do órgão pelo ataque à sua embaixada no Afeganistão, que matou mais de 60 pessoas em julho. Atualmente no poder, o PPP (Partido do Povo Paquistanês), de Benazir, vem buscando expurgar da agência extremistas, vistos como ameaça ao próprio governo.

O incremento do comércio com a Índia é um objetivo do atual governo, que assiste a contragosto à derrocada da parceria com os EUA. A aliança rendeu US$ 10 bilhões em ajuda antiterror sob o regime de Pervez Musharraf [1999-2008].

A distensão, iniciada sob Musharraf, aprofundou-se neste ano sob o governo civil, a despeito da mal resolvida questão da Caxemira. O intercâmbio econômico disparou após a inclusão, nos últimos meses, de novos itens na pauta comercial. Segundo estimativa citada pelo jornal paquistanês "Dawn", a Índia já é o segundo principal parceiro comercial do país.

A crise diplomática ameaça o florescimento do comércio bilateral. Ontem, a imprensa paquistanesa destacou o adiamento de encontro governamental sobre comércio, previsto para a próxima semana, embora o governo negue relação com os atentados.

Com agências internacionais

 

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