Mundo
29/11/2008 - 10h58

Forças indianas retomam controle de Mumbai; número de mortos chega a 195

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da Folha Online

A série de ataques realizados por extremistas em Mumbai (Índia) deixou 195 mortos e cerca de 300 feridos, anunciou neste sábado o Departamento de Gestão de Catástrofes da cidade. A polícia anunciou o fim das operações depois que os três últimos terroristas que ainda estavam entrincheirados no hotel de luxo Taj Mahal foram mortos durante a madrugada.

Leia cobertura completa dos ataques
Confira mapa dos ataques terroristas

Gautam Singh/AP
Bombeiro aguarda para entrar no hotel de luxo Taj Mahal, em Mumbai (Índia), após fim do confronto entre terroristas e policiais
Bombeiro aguarda para entrar no hotel de luxo Taj Mahal, em Mumbai (Índia), após fim do confronto entre terroristas e policiais

A operação terminou mais de dois dias depois do início da série de ataques coordenados realizados na cidade, que é a capital financeira da Índia. "Três terroristas foram mortos mas ainda vamos continuar com as operações", disse o diretor-geral da NSG (Guarda da Segurança Nacional, na sigla em inglês), J. K. Dutt, segundo o site do jornal indiano "Times of India".

"Todas as operações acabaram. Todos os terroristas foram mortos", disse, por sua vez, o general Hassan Gafoor.

Segundo o diretor do departamento, R. Jadhav, outras 300 pessoas ficaram feridas nos confrontos entre a polícia e os extremistas. Após a declaração oficial das mortes dos insurgentes, a polícia realizou uma varredura nos quartos do hotel em busca de algum terrorista que pudesse ter se escondido ou de explosivos. Na busca, os policiais recuperaram um rifle AK-47.

Diversas explosões foram ouvidas no hotel, de 105 anos, durante toda a madrugada (horário local), assim como o tiroteio entre os terroristas e as forças policiais.

O ataque contra Mumbai começou na quarta-feira (26), quando um número ainda indeterminado de terroristas avançou contra os mais luxuosos hotéis de Mumbai --Taj Mahal e Trident-Oberoi--, uma estação de trem e o restaurante Café Leopold, freqüentado por turistas, entre outros pontos.

Nesta sexta-feira (28), as tropas indianas tomaram o controle do hotel Oberoi e invadiram o centro judaico Chabad Lubavitch. Ambos os locais eram usados pelos criminosos para manter reféns após o massacre

Harish Tyagi/Efe
Soldados indianos tomam posição de tiro diante do hotel de luxo Taj Mahal, em Mumbai (Índia); confrontos iniciados na quarta-feira (26) terminaram com a morte dos três últimos terroristas na madrugada deste sábado
Soldados indianos tomam posição de tiro diante do hotel de luxo Taj Mahal, em Mumbai (Índia); confrontos iniciados na quarta-feira (26) terminaram com a morte dos três últimos terroristas na madrugada deste sábado

Infiltrados

Fontes dos serviços de inteligência da Índia ouvidas pela agência de notícias France Presse disseram que oito dos extremistas que lançaram a onda de ataques coordenados já estavam infiltrados na cidade há um mês. Eles passaram esse período fazendo-se disfarçados como estudantes; segundo as fontes, eles realizaram missões de reconhecimento para preparar os ataques. Os oito alugaram uma casa apresentando-se como estudantes malaios, destacou uma das fontes. Outros militantes também teriam estocado armas e munições, inclusive dentro de um dos hotéis de luxo atacados.

De acordo com a France Presse, uma segunda equipe, que teria chegado de barco a Mumbai, se juntou ao primeiro grupo na noite de quarta-feira, pouco tempo antes dos ataques.

Os extremistas estavam em ótima forma física, com idades de 24 a 30 anos, e muito bem treinados à tática militar, diz a France Presse; para se alimentar, eles tinham estocado frutas secas e amêndoas, destacaram as fontes ouvidas pela agência.

Não houve confirmação, no entanto, por parte das fontes ouvidas, se os terroristas eram paquistaneses ou se haviam sido treinados no Paquistão. O grupo por trás dos ataques tem sua base fora da Índia, disse na quinta-feira (27) o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh. A declaração foi entendida como uma acusação contra o governo do Paquistão: os dois países estão envolvidos em uma luta histórica pela região da Caxemira.

Nesta sexta-feira (28), o ministro indiano das Relações Exteriores, Pranab Mukherjee, foi mais direto e responsabilizou elementos do Paquistão pelos ataques. O governo paquistanês informou não estar envolvido de nenhuma forma nos atentados e cancelou a ida à Índia do chefe de seus serviços de inteligência para ajudar nas investigações. Segundo um comunicado, o Paquistão enviará um simples representante a Mumbai.

Grupo suspeito

O grupo criminoso Mujahedin de Deccan (Deccan é um planalto no sul da Índia) se responsabilizou pelos atentados. Segundo a revista britânica "The Economist", os criminosos enviaram um e-mail em setembro para agências de notícias indianas ameaçando atacar a cidade. A revista informou ainda que a mensagem foi enviada para "avisar todas as pessoas de Mumbai sobre a possibilidade de acontecer ataques no futuro e que a responsabilidade ficaria com os policiais".

"O grupo que cometeu os ataques é indiano e não está vinculado a nenhum Estado. Os terroristas estimam que as minorias muçulmanas foram destratadas e sofreram muito na história da Índia e hoje buscam meios de vingar o que consideram injustiças', disse à Folha o cingalês Rohan Gunaratna, pesquisador do Centro para o Estudo de Terrorismo da Universidade de St. Andrews (Escócia).

Ele descartou relação profunda do grupo com a rede terrorista Al Qaeda, de Osama bin Laden. "Até podem ter se inspirado na Al Qaeda, principalmente no modo operacional. Atacar alvos ocidentais icônicos para causar mortes em massa é marca registrada da Al Qaeda. Mas acho que o vínculo não vai além disso", afirmou.

Relações turbulentas

Tanto índia como Paquistão são ex-colônias britânicas. Em 1947, ambos conseguiram independência. Os ingleses repartiram a região de acordo com a religião das maiorias. Assim surgiu a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, de maioria muçulmana.

A disputa entre os dois países é pela região da Caxemira, causa de duas das três guerras (1948-1949, 1965 e 1971) já travadas entre Índia e Paquistão desde 1947 --ano em que se tornaram independentes do Reino Unido.

A Caxemira é uma região montanhosa ao norte dos dois países. Grande parte da população da região é muçulmana e quer a anexação ao Paquistão, que a Índia nega.

Vítimas da tragédia

Nos confrontos em Mumbai um britânico, americanos, israelenses --incluindo um rabino do templo judaico-- japoneses e paquistaneses foram contabilizados entre os estrangeiros mortos.

As forças de segurança do país não descartam que o número de vítimas aumente nas próximas horas, quando será realizada a contagem exata e a identificação de todos os mortos. Nenhum brasileiro morreu nos atentados. O consulado do Brasil em Mumbai informou que há cerca de 20 brasileiros vivendo na cidade, além aproximadamente outros 20 que a visitam com freqüência.

 

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