Mundo
01/12/2008 - 11h54

Terror reacende luta pelo poder na Índia e tensão histórica; ouça especialistas

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IAGO BOLÍVAR
colaboração para a Folha Online

As características das ações terroristas em Mumbai e a natureza dos conflitos étnicos e territoriais da Índia tornam difícil atribuir os ataques que mataram 172 pessoas entre a quarta-feira (26) e a sexta-feira (28) a fatores exclusivamente internos ou externos, avaliam especialistas ouvidos pela Folha Online.

Integrantes do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo, o cientista político Christian Lohbauer e o diplomata aposentado Amaury Porto de Oliveira explicam que a desestabilização do vizinho e adversário histórico Paquistão e a proximidade das eleições internas da Índia podem ter influenciado os ataques múltiplos a centros de concentração de estrangeiros, uma estação de trem e um centro judaico na capital financeira do país.

Entrevista com Christian Lohbauer

A definição da autoria dos atentados é uma questão policial, mas também política, afirma Lohbauer. Interessa ao partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP) jogar a culpa sobre o Paquistão. Os dois países foram separados durante a independência em 1947 e já se envolveram em três guerras desde então, duas pelo controle da Caxemira.

"A plataforma do Bharatiya Janata é uma plataforma nacionalista e utilizou muito a ascensão, o fortalecimento, a valorização do hinduísmo sobre a comunidade muçulmana indiana", diz Lohbauer. "E, em cima desse discurso, cristalizou-se a posição externa contra o Paquistão. Quer dizer, valorizou-se o conflito com o Paquistão em cima da sua plataforma política como um todo." As eleições parlamentares que definirão se o Partido Nacional do Congresso Indiano permanece no poder serão realizadas em maio de 2009.

Oliveira, que chefia a divisão de Ásia do Gacint, lembra que a cidade de Mumbai, centro financeiro da Índia e capital do Estado de Maharashtra, é um reduto do BJP. Lá e no Estado vizinho de Gujarat, ações de indianos contra muçulmanos são comuns e alimentadas pelo discurso político de segregação. "Há um acirramento, um envenenamento do confronto entre muçulmanos e hinduístas dentro da Índia", diz o diplomata.

Embaixador fala sobre atentado terrorista

No início do mês, a polícia de Maharashtra prendeu 11 hindus suspeitos de envolvimento com a explosão que matou seis muçulmanos na cidade de Malegaon, norte do Estado, em setembro passado. Foi a primeira ação do governo contra o que é chamado no país de "terrorismo açafrão", uma referência ao tempero utilizado na culinária hindu.

Paquistão

Na sexta-feira (28), o líder do BJP reagiu e acusou o governo indiano de distrair o serviço de inteligência com ameaças supostas no lugar de combater o terrorismo de origem externa, a quem responsabilizou pelos ataques em Mumbai. A sincronicidade dos ataques e a escolha de alvos estrangeiros apontam, dizem os especialistas, para algum grau de envolvimento externo, mas não é possível saber se houve participação de agentes do governo do Paquistão, ou até que ponto grupos locais estão envolvidos.

"Parece que é uma ação vinculada muito mais à rede internacional islâmica que a uma atividade nação contra nação", diz Lohbauer, para quem as ações em Mumbai visam a inserir a Índia no contexto da guerra de grupos radicais islâmicos contra a influência ocidental. Sinal disso seria o ataque ao centro judaico Chabad.

Por outro lado, a declaração do governo paquistanês de que não tem envolvimento com o ataque carece de credibilidade pela incapacidade de qualquer governo, principalmente o de Asif Ali Zardari, que assumiu há dois meses, de controlar o serviço secreto paquistanês, visto como incentivador do extremismo na Caxemira e patrocinador do Taleban, no Afeganistão.

"A instituição mais poderosa do Paquistão é o serviço de inteligência, que trabalha praticamente independente do governo", diz Lohbauer.

A instabilidade no vizinho de maioria islâmica também é apostada por Oliveira como um fator determinante para o clima de insegurança na Índia. Para ele, as ações dos EUA na região desde os anos 80, quando ajudou os combatentes islâmicos do Afeganistão a expulsar as tropas soviéticas, ajudaram a criar o ambiente propício ao desenvolvimento do extremismo. A situação só piorou, diz ele, com a invasão do Afeganistão em 2001.

 

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