Cartilha de Obama se afasta de unilateralismo de Bush
ARSHAD MOHAMMED
da Reuters, em Washington
da Folha Online
O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, enfatizou nesta segunda-feira a importância da diplomacia, internacionalismo e alianças, ao apresentar uma visão sobre segurança nacional bem diferente da abordagem mais unilateral do atual mandatário, George W. Bush.
"Nosso destino é partilhado com o mundo", afirmou Obama, antes de nomear a ex-rival Hillary Clinton como sua secretária de Estado.
"Para termos sucesso, precisamos perseguir uma nova estratégia que sabiamente usa, equilibra e integra todos os elementos do poder americano --nosso Exército e diplomacia, nossa inteligência e aplicação da lei, nossa economia e o poder do nosso exemplo moral", declarou.
Obama definiu sua equipe de política externa ao convidar o atual secretário da Defesa, Robert Gates, nomeado por Bush em 2006, a continuar no cargo, e escolheu o general Jim Jones como conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca.
Carlos Pascual, diretor de política externa do Instituto Brookings, disse que as declarações de Obama são um rechaço velado a Bush e dão o tom de uma política externa que pode ser mais inclusiva em relação aos aliados e parceiros.
Além das guerras no Iraque e no Afeganistão, os EUA enfrentam desafios de política externa como os programas nucleares da Coréia do Norte e do Irã, promover a paz entre israelenses e palestinos e lidar com uma Rússia mais imponente --além de outras questões como o aquecimento global e a Aids.
"Nenhum país pode lidar com essa agenda sozinho", afirmou Pascual, dizendo que Obama está deixando claro que sua política externa "não pode ser lateral".
Sem detalhes
Obama deu poucos detalhes sobre como irá lidar com a suposta busca iraniana por uma arma nuclear, como irá persuadir a Coréia do Norte a abandonar seu programa nuclear ou como fomentará negociações de paz no Oriente Médio.
Uma dica sobre sua posição em relação ao Irã --ele prega uma abordagem direta-- será se ele irá estabelecer uma "sessão de interesses" em Teerã.
Tal medida criaria uma presença diplomática, ainda que de baixo nível, no Irã pela primeira vez desde a ruptura das relações entre os dois países, durante a tomada da Embaixada americana em Teerã, entre 1979 e 1981, quando um grupo de estudantes iranianos mantiveram 52 diplomatas americanos como reféns no local por 444 dias.
Bush decidiu trabalhar a idéia do escritório neste ano, fato que deixaria Obama imune a críticas de republicanos se ele levar a idéia adiante.
Outra questão é se, e como, ele irá lidar com a questão do Oriente Médio. Críticos afirmam que Bush ignorou o problema durante a maior parte da sua Presidência antes de lançar um processo de paz em novembro de 2007 que tinha como meta conseguir um acordo até o fim deste ano --todos os lados já afirmaram que a meta é impossível.
Equipe de rivais
Obama buscou acabar com a especulação de que ao escolher Hillary, que ele derrotou nas primárias do partido, como sua principal diplomata, ele está criando terreno para mais disputas internas entre os conselheiros de política externa do que o normal.
Analistas afirmam que Jones, general da Marinha que serviu como principal comandante operacional da Otan, tem uma boa chance de ser um conciliador entre os assessores diplomáticos, militares, de segurança e de inteligência.
"Sem dúvida haverá atritos em alguns momentos", afirmou Stephen Flanagan, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. "Ele (Jones) particularmente mostrou na Otan que aprendeu a criar consenso" entre os 26 membros da aliança internacional.
"Montei essa equipe porque tenho forte crença em fortes personalidades e fortes opiniões. Creio que é assim que as melhores decisões são tomadas", disse Obama.
ONU
Nesta segunda, Obama também escolheu sua conselheira para assuntos externos durante a campanha, Susan Rice, para ser a embaixadora dos EUA na ONU (Organização das Nações Unidas. Segundo o jornal "The New York Times", Rice é defensora de uma "ação dramática" contra genocídios.
Com a função de representante do país nas Nações Unidas, Rice será uma das figuras mais visadas da futura administração ao redor do mundo, além de Hillary. A expectativa é de que a futura embaixadora vá defender forças atuantes, inclusive militares, se necessárias, para impedir os assassinatos em massa.
Para reforçar sua intenção de trabalhar mais perto com as Nações Unidas, após a ter as relações com a entidade fragilizadas durante o governo do presidente George W. Bush, Barack Obama quer elevar o posto de embaixadora ao cargo de gabinete, como era na gestão de Bill Clinton.
"Ela é obviamente uma das assessoras mais próximas de Obama, o que revela o quanto ele prioriza a posição", disse Nancy Soderberg, diplomata que trabalhou nas Nações Unidas na gestão de Clinton. "Se você olhar os últimos oito anos, percebe que teremos que ser mais engajados junto à ONU e realista sobre até onde ela pode atuar", afirmou.
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