Mundo
01/12/2008 - 21h41

Cartilha de Obama se afasta de unilateralismo de Bush

Publicidade

ARSHAD MOHAMMED
da Reuters, em Washington
da Folha Online

O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, enfatizou nesta segunda-feira a importância da diplomacia, internacionalismo e alianças, ao apresentar uma visão sobre segurança nacional bem diferente da abordagem mais unilateral do atual mandatário, George W. Bush.

"Nosso destino é partilhado com o mundo", afirmou Obama, antes de nomear a ex-rival Hillary Clinton como sua secretária de Estado.

"Para termos sucesso, precisamos perseguir uma nova estratégia que sabiamente usa, equilibra e integra todos os elementos do poder americano --nosso Exército e diplomacia, nossa inteligência e aplicação da lei, nossa economia e o poder do nosso exemplo moral", declarou.

Obama definiu sua equipe de política externa ao convidar o atual secretário da Defesa, Robert Gates, nomeado por Bush em 2006, a continuar no cargo, e escolheu o general Jim Jones como conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca.

Carlos Pascual, diretor de política externa do Instituto Brookings, disse que as declarações de Obama são um rechaço velado a Bush e dão o tom de uma política externa que pode ser mais inclusiva em relação aos aliados e parceiros.

Além das guerras no Iraque e no Afeganistão, os EUA enfrentam desafios de política externa como os programas nucleares da Coréia do Norte e do Irã, promover a paz entre israelenses e palestinos e lidar com uma Rússia mais imponente --além de outras questões como o aquecimento global e a Aids.

"Nenhum país pode lidar com essa agenda sozinho", afirmou Pascual, dizendo que Obama está deixando claro que sua política externa "não pode ser lateral".

Sem detalhes

Obama deu poucos detalhes sobre como irá lidar com a suposta busca iraniana por uma arma nuclear, como irá persuadir a Coréia do Norte a abandonar seu programa nuclear ou como fomentará negociações de paz no Oriente Médio.

Uma dica sobre sua posição em relação ao Irã --ele prega uma abordagem direta-- será se ele irá estabelecer uma "sessão de interesses" em Teerã.

Tal medida criaria uma presença diplomática, ainda que de baixo nível, no Irã pela primeira vez desde a ruptura das relações entre os dois países, durante a tomada da Embaixada americana em Teerã, entre 1979 e 1981, quando um grupo de estudantes iranianos mantiveram 52 diplomatas americanos como reféns no local por 444 dias.

Bush decidiu trabalhar a idéia do escritório neste ano, fato que deixaria Obama imune a críticas de republicanos se ele levar a idéia adiante.

Outra questão é se, e como, ele irá lidar com a questão do Oriente Médio. Críticos afirmam que Bush ignorou o problema durante a maior parte da sua Presidência antes de lançar um processo de paz em novembro de 2007 que tinha como meta conseguir um acordo até o fim deste ano --todos os lados já afirmaram que a meta é impossível.

Equipe de rivais

Obama buscou acabar com a especulação de que ao escolher Hillary, que ele derrotou nas primárias do partido, como sua principal diplomata, ele está criando terreno para mais disputas internas entre os conselheiros de política externa do que o normal.

Analistas afirmam que Jones, general da Marinha que serviu como principal comandante operacional da Otan, tem uma boa chance de ser um conciliador entre os assessores diplomáticos, militares, de segurança e de inteligência.

"Sem dúvida haverá atritos em alguns momentos", afirmou Stephen Flanagan, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. "Ele (Jones) particularmente mostrou na Otan que aprendeu a criar consenso" entre os 26 membros da aliança internacional.

"Montei essa equipe porque tenho forte crença em fortes personalidades e fortes opiniões. Creio que é assim que as melhores decisões são tomadas", disse Obama.

ONU

Nesta segunda, Obama também escolheu sua conselheira para assuntos externos durante a campanha, Susan Rice, para ser a embaixadora dos EUA na ONU (Organização das Nações Unidas. Segundo o jornal "The New York Times", Rice é defensora de uma "ação dramática" contra genocídios.

Com a função de representante do país nas Nações Unidas, Rice será uma das figuras mais visadas da futura administração ao redor do mundo, além de Hillary. A expectativa é de que a futura embaixadora vá defender forças atuantes, inclusive militares, se necessárias, para impedir os assassinatos em massa.

Para reforçar sua intenção de trabalhar mais perto com as Nações Unidas, após a ter as relações com a entidade fragilizadas durante o governo do presidente George W. Bush, Barack Obama quer elevar o posto de embaixadora ao cargo de gabinete, como era na gestão de Bill Clinton.

"Ela é obviamente uma das assessoras mais próximas de Obama, o que revela o quanto ele prioriza a posição", disse Nancy Soderberg, diplomata que trabalhou nas Nações Unidas na gestão de Clinton. "Se você olhar os últimos oito anos, percebe que teremos que ser mais engajados junto à ONU e realista sobre até onde ela pode atuar", afirmou.

Comentários dos leitores
J. R. (368) 03/07/2009 16h30
J. R. (368) 03/07/2009 16h30
"Rússia permite passagem de armas dos EUA para Afeganistão" "O gesto foi visto como uma tentativa da Rússia de agradar os Estados Unidos para ampliar os esforços de aproximação entre Washington e Moscou. " - Gostaria de saber o nome da pessoa ou as pessoas que viram tal gesto como agrado. Na verdade a velha "U.R.S.S." teve dissabores no Afeganistão graças a interferência da Cia aliada de Bin Laden (pasmem, os U-S-A aliados a Al-Qaeda contra a velha U.R.S.S.), e sua queda também deu início à queda dos U-S-A, pois diminuiram as demandas por armas e tecnologia, com consequente degradação de tudo. Mais parece um gesto inútil para ajudar na questão Georgiana, porém no fim das contas o mundo ainda - continua - loteado, dividido em dois, mesmo extinta a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. É a prova de que "Comunismo" é apenas uma de inúmeras facetas que envolve essa divisão, que por si só não seria capaz de criar uma Coréia do Norte e outra do Sul. sem opinião
avalie fechar
jorge da silva (1) 29/06/2009 21h36
jorge da silva (1) 29/06/2009 21h36
Ao que parece, não foi um golpe de Estado, porque foi respaldado pelo Congresso e pela Justiça de Honduras. Foi mais ou menos o que aconteceu com o nosso presidente Collor, só de uma maneira mais rápida e sem os ritos judiciais. Defino mais como um golpe democrático. 13 opiniões
avalie fechar
J. R. (368) 27/06/2009 19h20
J. R. (368) 27/06/2009 19h20
Os Estados Unidos como campeões da democracia não poderiam estar mantendo prisioneiros sem acusação, sem julgamento, e ainda mais torturando como faz em Guantânamo, que aliás recebeu ordem de despejo de Cuba a muitos anos. Mais parece um inferno judicial estilo "Kafka" para esses prisioneiros políticos, alguns terroristas, outros casos confirmados de inocentes pegos nas ruas durante os conflitos. O abismo jurídico criado enlameia toda tradição jurídica americana, que já não era das mais limpas. 20 opiniões
avalie fechar
Comente esta reportagem Veja todos os comentários (1171)
Termos e condições
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca