Declaração de Mugabe sobre cólera foi "sarcasmo", diz governo
colaboração para a Folha Online
A declaração do presidente Robert Mugabe de que "não há cólera" no Zimbábue foi feita com sarcasmo, divulgou nesta sexta-feira o jornal estatal "The Herald", em meio às críticas da oposição à fala do presidente sobre a epidemia que já matou quase 800 pessoas.
"O governo observou com total indignação e desprezo as tentativas da BBC [rede estatal britânica] e da France 24 Internacional [rede estatal francesa] de distorcer deliberadamente [...] as declarações de Robert Mugabe em relação com o surto de cólera no Zimbábue", disse ao jornal o porta-voz do governo George Charamba.
| Tsvangirayi Mukwazhi/AP |
![]() |
| O presidente Robert Mugabe nega haver surto de cólera no Zimbábue |
Também nesta quinta-feira, o ministro da Informação do Zimbábue, Sikhanyiso Ndlovu, declarou que a epidemia de cólera no país é um "genocídio" dirigido pelo Reino Unido, a antiga metrópole colonial do Zimbábue. "A epidemia de cólera no Zimbábue é uma espécie de guerra biológica e química, um ataque genocida sobre o povo do Zimbábue pelos britânicos", afirmou em uma entrevista coletiva. "É um genocídio de nosso povo", acrescentou.
Mugabe tem recebido críticas nas últimas semanas até de dirigentes africanos, como o primeiro-ministro queniano Raíla Odinga, pela forma como reagiu à epidemia. Os comentários "sarcásticos" que fez na quinta-feira levantaram fortes críticas por parte dos Estados Unidos e do Reino Unido. O embaixador americano no Zimbábue disse que eles mostravam "como ele perdeu o contato com a realidade" do país.
A edição desta sexta-feira do jornal "Herald" citou o porta-voz de Mugabe, George Charamaba, dizendo que o presidente tinha sido sarcástico e queria dizer que a crise tinha acabado.
A ONU (Organização das Nações Unidas), porém, informaram nesta sexta-feira que o número de mortos devido ao cólera subiu para 792 e que o número de casos aumentou para 16.700. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon disse que "não pode concordar" com a avaliação de Mugabe de que a epidemia acabou. O cólera se espalhou rapidamente no sul do Zimbábue em conseqüência do desmoronamento do sistema de saúde da falta de água limpa.
A oposição do Zimbábue acusou Mugabe de ser dissimulado por suas declarações "negligentes e imprudentes". "A epidemia ainda está entre nós e está se espalhando rapidamente", disse Henry Madzorera, porta-voz para a saúde do Movimento para a Mudança Democrática (MDC).
As agências humanitárias haviam alertado que o surto poderia piorar com o início da estação chuvosa e a doença já se espalhou para os vizinhos do Zimbábue.
Autoridades da África do Sul classificaram a região fronteiriça com o Zimbábue, atingida pela epidemia, como uma zona de calamidade pública. Segundo informações do governo, 664 pessoas foram tratadas pela doença e pelo menos oito pessoas morreram na África do Sul.
O presidente americano, George W. Bush, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, fizeram apelos recentes para que Mugabe renunciasse. Na sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Miliband, culpou Mugabe por causar "morte e destruição em grande escala" e disse que a cólera continua a ser um "problema muito significativo" no país.
"Existe uma tragédia no Zimbábue e é uma tragédia causada pelo homem e o homem que a causou é o chefe do governo, e ele está enfraquecendo o seu próprio povo, ele está causado morte e destruição em grande escala", disse Miliband. Falando à margem de uma cúpula da União Européia, em Bruxelas, Miliband disse que o "governo fraudado" de Mugabe ficou no caminho dos esforços internacionais para prestar ajuda humanitária ao país para combater o surto de cólera.
Partilha de poder
Mugabe, de 84 anos, governa o país desde 1980, após derrotar um regime segregacionista liderado por brancos de origem britânica. Ele é considerado o pai da verdadeira independência do Zimbábue, já que o regime que dominou o país após o fim da dominação britânica, em 1965, excluiu do governo a maioria negra.
O confisco de terras dos fazendeiros brancos no início desta década levou ao colapso da produção de fumo e agravou a situação econômica do país.
Em meio à crise, havia esperança em alguns setores de que as eleições marcadas para o início deste ano trouxessem a mudança ao país, o que se materializou na votação de Morgan Tsvangirai, líder do Movimento pela Mudança Democrática (MDC, na sigla em inglês), nas eleições presidenciais de 29 de março. Ele ficou em primeiro lugar, mas, por não ter obtido maioria absoluta dos votos, foi realizado um segundo turno, em 27 de junho.
No entanto, uma semana antes do segundo turno, Tsvangirai se retirou das eleições por causa de ataques contra seus partidários por forças fiéis a Mugabe. O presidente concorreu sozinho e obteve mais de 80% dos votos. Sob pressão internacional e diante da deterioração das condições do país, Mugabe assinou um acordo com a oposição em setembro, para divisão de poder, mas logo descumpriu muitos dos termos do acordo, e a formação de um governo de união nacional continua indefinida.
O ex-presidente sul-africano, Thabo Mbeki, que está mediando as conversações de partilha de poder, rejeitou os apelos para Mugabe renunciar. "Nenhum dos partidos zimbabuanos têm feito essa demanda para nós e, portanto, nós acompanhamos o que pensam os partidos zimbabuanos e o que eles decidiram é que é importante que se unam para resolver os problemas do seu país," disse Mbeki em Maputo, capital de Moçambique.
Mugabe é um antigo aliado de Mbeki, a quem deu apoio durante a luta contra o regime segregacionista do apartheid, na África do Sul.
Com France Press, Efe e Associated Press
Leia mais
- Mugabe contraria dados da ONU e nega surto de cólera no Zimbábue
- Número de mortos em surto de cólera no Zimbábue sobe para 746
- Organizações denunciam seqüestros de ativistas dos direitos humanos no Zimbábue
Leia mais
- Voluntárias católicas brasileiras são barradas e deportadas em Madri
- Democratas pressionam para renúncia de governador de Illinois
- Ditador da Coréia do Norte faz nova aparição pública
Especial
Livraria



