Mundo
14/12/2008 - 08h21

Presidente argentina vê heranças política e econômica corroídas após um ano no cargo

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THIAGO GUIMARÃES
da Folha de S.Paulo, em Buenos Aires

Na última quarta, fez um ano que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, 55, assumiu o governo após vencer a eleição com 43,5% dos votos, ao fim de uma campanha marcada pelo desinteresse popular e pela falta de debates.

Na ocasião, escrevia Isidoro Cheresky, professor de teoria política contemporânea da Universidade de Buenos Aires: "Cabe perguntar se a indiferença não encobre um mal-estar cidadão não representado e se um potencial de demandas e expectativas não formuladas estarão presentes ao dia seguinte da eleição".

Hoje, um escândalo de corrupção, uma briga histórica com o campo e uma crise mundial depois, o mal-estar previsto por Cheresky está exposto na dilapidação do capital político de Cristina, que só é aprovada por cerca de 25% dos argentinos, segundo as pesquisas.

Cristina, primeira mulher eleita presidente da Argentina, recebeu do marido, Néstor Kirchner (2003-2007), a melhor herança econômica em 25 anos, impulsionada pelo rebote da megacrise de 2001-2002 e pelo cenário externo favorável.

Às vésperas do primeiro verão pós-crise mundial, o quadro é outro, agravado por desmazelos internos como gastos públicos elevados e índices de inflação sob suspeita. Consumo e investimentos em baixa, retração do crédito, juros em ascensão e a perspectiva de crescimento nulo em 2009.

"O dilema do governo hoje é administrar essa desaceleração", disse Bernardo Kosacoff, diretor da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) na Argentina.

Com o pé esquerdo

Cristina inaugurou sua gestão com o "escândalo da mala" -suspeita de que o governo Hugo Chávez, da Venezuela, fez uma doação ilegal à sua campanha. O caso complicou as relações com os EUA -venezuelanos envolvidos na história passaram por Miami e o FBI apurou que o dinheiro era para a campanha- e botou o governo na defensiva.

Depois veio a maior crise dos anos Kirchner: o conflito com o campo. Um aumento de impostos sobre exportações causou locautes rurais, desabastecimento em grandes cidades e panelaços da classe média.

Acuada, Cristina enviou o projeto de aumento ao Congresso. Acabou levantando a bola para seu vice, Julio Cobos, que se tornou o político mais popular do país ao desempatar a votação no Senado e derrubar o tarifaço rural.

"Foi o ponto de inflexão do governo, que absorveu quase metade de sua gestão e acabou com a idéia ingênua de um Néstor Kirchner afastado do poder", diz Rodrigo Mallea, do instituto Nova Maioria.

"A imagem de Néstor está tão associada ao governo que as pessoas o avaliam como o sexto ano de kirchnerismo, o que não ajuda", diz Orlando D'Adamo, do Centro de Opinião Pública da Universidade de Belgrano.

Para Mallea, a presidente perdeu apoio sobretudo na "Argentina profunda", e não entre classes médias urbanas, historicamente esquivas ao peronismo -nas eleições, já perdera nos grandes centros urbanos.

Cristina repete o estilo desconfiado e confrontativo de Néstor, mas nunca escondeu formar uma sociedade política com o marido, hoje na presidência do partido do governo (Justicialista). Um dia antes de assumir, disse: "Para mim Kirchner vai continuar também sendo presidente".

Pelo caminho

A maior parte das promessas de Cristina foi ficando pelo caminho ou está inconclusa.

Na campanha, ela anunciou um "pacto social" entre trabalhadores e empresários como eixo estratégico do mandato. Caiu no esquecimento.

Também não vingou a prometida "reinserção internacional" da Argentina, que criou expectativa de mudanças em política exterior.

No plano regional, continua ruim a relação com o Uruguai, que vetou a candidatura de Néstor Kirchner para a secretaria-geral da Unasul (União de Nações Sul-Americanas). Os países divergem em torno da instalação de uma papeleira do lado uruguaio da fronteira.

Esfriou ainda o trato com a Venezuela, que cobra cada vez mais caro para emprestar dinheiro à Argentina.

Em sua primeira entrevista após ser eleita, Cristina citou o combate à pobreza como prioridade. Pelos dados oficiais, a pobreza caiu 2,8 pontos no primeiro semestre, chegando a 17,8% (4,3 milhões de pessoas) da população urbana. Um informe privado diz que a pobreza subiu 1,3 ponto no período e afeta 11,3 milhões (31,6%) de argentinos. A taxa de desemprego, segundo o governo, caiu de 8% para 7,8% neste ano.

A crise econômica mundial chega à Argentina quando Cristina tentava acenar aos mercados internacionais e retomar a iniciativa política -com anúncios de pagamento a credores e de aumentos de pensões.

Enquanto o governo se ocupa com um pacote anticrise, a oposição começa a se articular rumo às eleições legislativas de 2009 e as presidenciais de 2011 -União Cívica Radical, Coalizão Cívica e Partido Socialista já anunciaram acordo para uma "alternativa de governo".

 

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