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28/12/2008 - 14h14

Comentário: Combate pode virar terceira Intifada

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LIGIA BRASLAUSKAS
Editora da Folha Online

Qual o objetivo dos ataques israelenses a Gaza? Pôr fim ao comando do grupo radical palestino Hamas, que controla a faixa de Gaza desde junho de 2007 e não mantém nenhuma relação com o governo israelense, por não reconhecê-lo como Estado.

Abed Rahim Khatib/Efe
Ataques aéreos provocam coluna de fumaça em edifício de Gaza; três militares do Hamas foram mortos, segundo jornal israelense
Ataques aéreos provocam coluna de fumaça em edifício de Gaza; três militares do Hamas foram mortos, segundo jornal israelense

E por que Israel deseja derrubar o Hamas? Para evitar os ataques de foguetes Qassam [de fabricação caseira, mas perigosos] que os membros do grupo lançam diariamente ao sul de Israel, na maior parte das vezes sem deixar vítimas devido à precariedade do ataque, embora a intenção seja sim atingir alvos humanos. Israel considera o Hamas um grupo terrorista, e impõe restrições financeiras à região de Gaza.

E por que uma ação israelense desse porte para combater ataques do Hamas? Esta pergunta é mais difícil de responder, mas uma coisa é certa: vai despertar mais conflitos e respostas violentas de ambas as partes.

O clima de tensão entre Israel e Hamas é antigo. Desde que o Hamas assumiu o controle de Gaza, a região sofre boicote financeiro e restrições como distribuição de alimentos e água. O Hamas, por não reconhecer Israel como Estado, não participa das reuniões entre israelenses e palestinos promovidas pelos Estados Unidos a fim de se chegar a uma trégua. Esses encontros, ao menos durante os oito anos do governo George W. Bush, não tiveram resultados efetivos.

Gil Cohen Magen /24.dez.2008/Reuters
Homem passa por casa destruída após ser atingida por foguete do grupo Hamas, no vilarejo de Tkuma, perto de Sderot, sul de Israel
Homem passa por casa destruída após ser atingida por foguete do grupo Hamas, no vilarejo de Tkuma, perto de Sderot, sul de Israel

Desde o fim da trégua de cerca de seis meses entre Hamas e Israel, no último dia 19, centenas de foguetes palestinos caíram no sul de Israel. A pequena cidade de Sderot é uma das principais vítimas desses ataques, e seus moradores vivem sob a tensão de algum projétil atingir suas casas. A resposta à chuva desgovernada de foguetes foi direta: bombardeio aéreo certeiro de Israel a Gaza que deixou, até agora, quase 300 mortos e mais de 700 feridos.

Ontem, o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, deixou claro que o conflito não será fácil nem breve. Confirmando essa previsão, milhares de reservistas israelenses foram convocados hoje para a expansão da ação em Gaza, ou seja, agora haverá ataques por terra e ar. Israel já vinha anunciando uma ação desse gênero.

A ministra de Relações Exteriores Tzipi Livni, do Kadima, disse que o objetivo de Israel é derrubar o Hamas e prometeu que isso será feito caso seja eleita para o cargo de premiê nas eleições de 10 fevereiro. Com ela disputa o ex-premiê Binyamin Netanyahu, do Likud, que faz coro ao discurso da ministra e já pedia, na semana passada, que Israel abandonasse a passividade frente aos ataques do Hamas e agisse de forma mais ativa. O pedido foi aceito.

Os efeitos da pesada ação militar em Gaza terá influência direta na troca de governo em Israel. O comando que substituirá o atual premiê israelense, Ehud Olmert, que teve sua imagem minada após seu nome ser envolvido em escândalos de corrupção, deverá ter um plano de ação para combater as respostas que os grupos palestinos vão preparar como troco à ação israelense.

O número de mortos e o peso do ataque israelense --com mais de cem bombas lançadas de 60 aviões-- gerou manifestações de várias lideranças mundiais, todas pedindo o fim imediato do ataque de ambas as partes. Mas isso, certamente, não deve ocorrer tão cedo. Israel expande a ação e vai atacar por terra e ar, custe o que custar.

Efe
Palestino tenta fugir de explosão em um campo de refugiados no sul do Líbano, em Sidon
Palestino tenta fugir de explosão em um campo de refugiados no sul do Líbano, em Sidón

Do outro lado, Khaled Meshaal, líder do Hamas em exílio na Síria, convocou todos os palestinos a declararem a terceira Intifada [revolta popular palestina contra a ocupação israelense, ocorridas entre 1987 e 1993 e 2000 e 2005, esta última iniciada com a visita do premiê israelense ultradireitista Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, local mais sagrado de Jerusalém para palestinos e judeus. Ato foi visto como provocação]. A idéia de Meshaal pode ser desastrosa: as duas Intifadas deixaram cerca de 7.200 mortos --6.000 deles palestinos, aproximadamente.

A história parece se repetir. A perspectiva para a região, sinalizada por ambas as partes, é de um combate sangrento, duradouro, aparentemente distante da trégua e com civis inocentes entre as vítimas. A novidade seria se isso não ocorresse.

 

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