Veto israelense motiva apelos de jornalistas à criatividade
MARCELO NINIO
da Folha de S. Paulo
A cena é no mínimo insólita: espremidos em uma pequena colina, diante de uma bucólica paisagem que inclui campos verdejantes, vacas e cavalos, dezenas de jornalistas acompanham de longe uma concentração urbana de onde sobem colunas de fumaça e ecoam explosões em breves intervalos.
O veto imposto por Israel à entrada da imprensa na faixa de Gaza tem forçado a multidão de jornalistas de todo o mundo que chegou ao país a abusar da criatividade para cobrir os confrontos de longe.
Para os acostumados a acompanhar conflitos de perto, a situação é motivo de revolta e frustração.
"É absurdo", diz Ben Wederman, veterano correspondente da CNN no Oriente Médio, que passa horas na colina aguardando o chamado para entrar no ar. "Não dá para acreditar no argumento israelense de que a proibição é por motivos de segurança. Me parece óbvio que o objetivo é limitar a cobertura."
Wederman, assim como a maioria dos jornalistas que invadiram o sul de Israel na última semana, tem recorrido a colaboradores que estão em Gaza para fazer um relato com o mínimo de veracidade do que está ocorrendo. É também o que faz a reportagem da Folha, que tem conversado por telefone com moradores de Gaza para colher detalhes da ofensiva.
Wael Alqarra, que trabalha em uma organização humanitária em Gaza, contou ontem que os ataques israelenses aumentaram ainda mais a sensação de claustrofobia. "Não saímos de casa há uma semana. No máximo vamos até a esquina, quando o mercado está aberto", disse.
Ironicamente, enquanto o veto israelense impede que as grandes redes de notícias como a CNN informem o que acontece ao mundo, em Gaza a presença de três jornalistas da rede Al Jazeera, que já estavam no território quando a ofensiva começou, mantém a população local
informada.
"Temos todos os outros canais, mas nenhum se compara à Al Jazeera", diz Wael.
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